- Jorge Da Silva - https://www.jorgedasilva.blog.br -

“NÃO EXISTEM MILÍCIAS NO ESTADO DE SÃO PAULO!”

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Vem de longe a pendenga em torno da violência urbana em São Paulo e no Rio. Esta ou aquela cidade seria mais ou menos violenta por incontáveis razões, independentemente de números e fatos. Ora a diferença se explicaria pela configuração geográfica de ambas as cidades, ora pela disputa entre facções, o que seria um fato no Rio e não em São Paulo, onde o “comando do crime” teria sido unificado; ora seria a diferença de atitude dos governantes na repressão ao crime, ora a diferença de qualidade e profissionalismo das polícias. Em suma, o que importava era que os níveis de violência da outra cidade fossem apresentados como piores.

De repente, em virtude da onda produzida pelas mortes em escala em São Paulo, soa o alarme. Depois de os acontecimentos terem sido considerados pelas autoridades como casos isolados, o público é levado a acreditar que se trata de retaliação do chamado PCC à firme repressão da polícia. As mortes seriam o resultado de uma “guerra” entre integrantes do citado “comando” e policiais, embora a maioria dos mortos não seja da polícia.

Eis que se lê no jornal O Globo (10/11/2012), sob o título:

“Milícias agem em tráfico e roubo a caixas eletrônicos: Grupos de policiais atuam na periferia da capital paulista e em cidades da Grande SP” 

E no corpo da matéria:

“[…] Em São Paulo, a hegemonia da facção criminosa que atua nos presídios do estado está sendo confrontada nas ruas. Uma milícia de policiais, inativos e ativos, passou a disputar o controle de caça-níqueis e jogo do bicho com a facção na capital paulista, além de já ter conquistado pontos de venda de drogas na Baixada Santista. Além da milícia, que teria sido organizada a partir de 2008, há vários agrupamentos de policiais: matadores de aluguel, cobradores de propina de comerciantes em troca de segurança e envolvidos com roubos de caixas eletrônicos e de carga. Também há os que agem por conta própria, como justiceiros.

— No fim das contas, os moradores da periferia convivem com dois tribunais do crime. De um lado, o dos bandidos, que matam os que desobedecem às suas regras e normas. De outro, o dos policiais, que decidem os criminosos ou suspeitos que devem morrer — afirma uma fonte, que não pode ser identificada.

A Corregedoria da PM em SP foi procurada para informar o número de PMs afastados ou punidos por crimes ligados a tráfico, jogos de azar/caça-níqueis e roubo a caixas eletrônicos. Foi pedida entrevista sobre investigação de homicídios praticados por PMs. A assessoria da PM encaminhou a resposta por e-mail: “Não existem milícias no estado de São Paulo.” 

Bem, ao que tudo indica, os problemas são da mesma natureza em ambas as cidades. Se há milícias em São Paulo (por que não haveria?), é razoável concluir que, além da ação do “comando” contra policiais, há disputa entre milícias, com milicianos aterrorizando periferias para garantir o controle do território. A não ser que a matéria de O Globo seja pura ficção…

É preciso, quando nada, que as autoridades de São Paulo admitam a hipótese, a fim de conceberem formas mais objetivas de resolver o problema na raiz. Como alguém já disse, a melhor maneira de NÃO resolver um problema é negá-lo ou fingir que ele não existe.