foto de Jorge Da Silva

Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

Ver perfil

Os conteúdos dos textos deste Blog podem ser usados livremente. Pedimos, no caso, que sejam consignados os devidos créditos, com a citação do autor e da fonte.

 



 

 

“NÃO VOU PAGAR O PATO”

21 de dezembro de 2016     2 Comentários, deixe o seu

.

(NOTA PRÉVIA. Notam-se reações negativas ao fato de a Câmara não ter incluído no projeto de renegociação da divida dos estados algumas contrapartidas obrigatórias. O ministro da Fazenda declarou que o governo será rígido na renegociação. Republico, a propósito, postagem de 11 de dezembro).

QUEM VAI “PAGAR O PATO”?

Há um ano, no dia 1º de outubro de 2015, o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, lançou a campanha “Não Vou Pagar o Pato” em frente ao Congresso Nacional. Com um imenso boneco inflável de um pato na cor amarela, e centenas de patinhos infláveis espalhados no lago do Congresso, conclamava a população (na primeira pessoa…) a aderir à campanha. Era uma reação à decisão do governo Dilma de recriar a CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira). Scaf foi taxativo: “Todos nós estamos a favor do ajuste fiscal, mas ele deve ser feito com redução de despesas e desperdícios e não através de aumento de impostos. Nós não vamos aceitar a recriação ou criação de aumento de impostos que vá pesar, ainda mais, no bolso do brasileiro“. A campanha contou também com anúncios na mídia, tendo conseguido a adesão de mais de um milhão de assinaturas ao manifesto contra a medida. Já os que defendiam a CPMF alegavam que se tratava de um imposto de incidência reduzida; que evitaria comprometer políticas sociais, e que era importante instrumento contra a sonegação de impostos e a evasão de divisas do país (o Brasil é um dos campeões mundiais de sonegação e de evasão). Voltou também à discussão a proposta de taxação das grandes fortunas, prevista na Constituição. Finalmente, em abril deste ano, semanas antes do afastamento provisório da então presidente, o jornal Estado de São Paulo publicava: “Temer descarta recriação da CPMF e aumento de impostos se assumir”. Hoje, tramitam no Congresso a PEC do teto dos gastos e a da reforma da Previdência. Sobrou para os patinhos.

11 de dezembro de 2016

Imprimir este post Imprimir este post    |   




QUEM VAI “PAGAR O PATO”?

11 de dezembro de 2016     4 Comentários, deixe o seu

.

Há um ano, no dia 1º de outubro de 2015, o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, lançou a campanha “Não Vou Pagar o Pato” em frente ao Congresso Nacional. Com um imenso boneco inflável de um pato na cor amarela, e centenas de patinhos infláveis espalhados no lago do Congresso, conclamava a população (na primeira pessoa) a aderir à campanha. Era uma reação à decisão do governo Dilma de recriar a CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira). Scaf foi taxativo: “Todos nós estamos a favor do ajuste fiscal, mas ele deve ser feito com redução de despesas e desperdícios e não através de aumento de impostos. Nós não vamos aceitar a recriação ou criação de aumento de impostos que vá pesar, ainda mais, no bolso do brasileiro“. A campanha contou também com anúncios na mídia, tendo conseguido a adesão de mais de um milhão de assinaturas ao manifesto contra a medida. Já os que defendiam a CPMF alegavam que se tratava de um imposto de incidência reduzida; que evitaria comprometer políticas sociais, e que era importante instrumento contra a sonegação de impostos e a evasão de divisas do país (o Brasil é um dos campeões mundiais de sonegação e de evasão). Voltou também à discussão a proposta de taxação das grandes fortunas, prevista na Constituição. Finalmente, em abril deste ano, semanas antes do afastamento provisório da então presidente, o jornal Estado de São Paulo publicava: “Temer descarta recriação da CPMF e aumento de impostos se assumir”. Hoje, tramitam no Congresso a PEC do teto dos gastos e a da reforma da Previdência. Sobrou para os patinhos.

 

Imprimir este post Imprimir este post    |   




MANDADO DE BUSCA COLETIVA NA CIDADE DE DEUS APÓS A QUEDA DO HELICÓPTERO

26 de novembro de 2016     6 Comentários, deixe o seu

.

Dois dias após a queda do helicóptero que matou quatro policiais militares na Cidade de Deus (ver a postagem “Quem matou os PMs do helicóptero?”, abaixo), lia-se na mídia que a juíza Angélica Costa autorizara “buscas coletivas” naquele bairro. Os moradores fizeram protestos, exigindo respeito, e a Defensoria Pública impetrou habeas corpus coletivo contra a medida. Lê-se hoje, 26/11, no Globo: “Polícia não poderá fazer buscas coletivas na Cidade de Deus”.  Sobre o tema, transcrevo trechos da postagem de dois anos e meio atrás (EXÉRCITO NA MARÉ), após o que concluirei.

 

EXÉRCITO NA MARÉ (26/03/2014)

Uma notícia contida em chamada de primeira página de O Globo de hoje, 26/03, sobre a ocupação militar da Maré chamou a minha atenção: “Os militares devem atuar com mandados coletivos de busca, que permitam que qualquer casa seja vasculhada”. […] “Forças têm mapa da Maré, diz procuradora” […] “Representante do Ministério Público Militar afirma que tropas contarão com mandados de busca coletivos”. A revelação partira da procuradora do MP militar Hevelize Jourdan. Segundo os repórteres que assinam a matéria, “a possível expedição pela Justiça Militar dos mandados coletivos, explicou a procuradora, deve-se à dificuldade de localizar endereços em meio ao aglomerado de casas erguidas em becos, sem numeração definida”.

Fiquei preocupado por dois motivos: primeiro, pelo tamanho do bairro da Maré (bairro desde 1994) e pelas afirmações da procuradora, e segundo, pelas complicações constitucionais e legais. Explico-me.

A população do conjunto de comunidades que compõem o bairro da Maré é de 130 mil moradores. Para que se tenha ideia, dos 5.570 municípios brasileiros, 5.350 possuem população inferior à da Maré, incluídos os do Estado do Rio de Janeiro. […] Com relação aos mandados de busca, não sei se mudou, mas tanto o Código de Processo Penal comum (CPP) quanto o Código de Processo Penal Militar (CPPM) vedam ao juiz, sob pena de abuso de poder, a expedição de mandados genéricos, coletivos (o bairro da Maré possui cerca de 40 mil domicílios…). O CPP exige que o mandado indique, “o mais precisamente possível, a casa em que será realizada a diligência”, e o CPPM, além de exigir o mesmo, manda o executor exibir e ler o mandado.

Bem, é possível que a posição da procuradora reflita as representações distorcidas sobre aquele e outros locais similares. Ela não deve ter lido o GUIA DE RUAS MARÉ 2012. Saberia que todas as ruas possuem CEP, e a quase totalidade das casas possui numeração (vale a dica para os repórteres…).

[…]  Não sei por que estou preocupado com esses detalhes. Não moro na Maré.

Concluo

Não há como não se indignar com a audácia das facções, as quais, além de infernizar a vida dos moradores, festejam a morte de chefes de família, como no caso dos quatro PMs do helicóptero. Tal fato justifica o uso de toda força estatal contra elas. Isso é uma coisa. Outra bem diferente é não distinguir traficantes de trabalhadores, mandando (a juíza mandou…) a polícia vasculhar suas casas. A magistrada repete a argumentação da procuradora do caso da Maré, de 2014: “medida excepcional” (sic). Com certeza, ela não mandaria fazer busca coletiva se houvesse a notícia de que os traficantes tivessem invadido um condomínio elegante das proximidades e se escondido ali.

E uma pergunta: se a juíza e a procuradora do MP federal não se basearam em qualquer dispositivo constitucional ou legal para justificar o mandado coletivo (figura inexistente no ordenamento jurídico brasileiro), como a OAB, a Associação Juízes pela Democracia, a mídia e todos os que dizem lutar pela promoção da cidadania se manifestam em relação a esse tipo de decisão? Por que se calam?…

Obs. Link para o inteiro teor de EXÉRCITO NA MARÉ: http://www.jorgedasilva.blog.br/?p=5257

 

Imprimir este post Imprimir este post    |   




QUEM MATOU OS PMs DO HELICÓPTERO?  Ou ENTRE CULPADOS E RESPONSÁVEIS

21 de novembro de 2016     6 Comentários, deixe o seu

.

Mais quatro PMs mortos na malfadada “guerra às drogas”, contra traficantes da ponta da linha. Desta vez, na “comunidade” Cidade de Deus. Morreram quatro chefes de família: o major Rogério Costa, o capitão Schorcht, o subtenente Camilo e o sargento Rainha. Somam-se a eles mais de 100 policiais mortos só neste ano no RJ. A espiral da morte (não só de policiais, mas de traficantes, supostos traficantes, pessoas inocentes de comunidades por balas perdidas, e pessoas do “asfalto” em diferentes situações) coloca o Brasil em 1º lugar no ranking mundial da matança, em números absolutos, conforme relatório de 2014 da Organização Mundial da Saúde – OMS. Em 2012, teriam sido assassinadas no Brasil 64 mil pessoas.

No caso da queda do helicóptero, o foco tem sido deslocado para se saber se a aeronave foi derrubada por traficantes ou caído em razão de alguma pane ou outra causa. Em qualquer das hipóteses, porém, não basta apontar a causa ou eventuais culpados. O helicóptero estava em operação numa “guerra” que não foi inventada pela polícia. Mais que tudo, é preciso identificar os “responsáveis” pela concepção desse modelo macabro de abordagem da questão das drogas tornadas ilícitas, e pelo quadro geral de descontrole da segurança. É preciso identificar os orquestradores da matança.

Não há dúvida: a queda do helicóptero e as mortes dos PMs se transformarão em estatística daqui a alguns dias, enquanto os policiais serão incitados à retaliação. E então, novos PMs aumentarão o panteão dos heróis mortos, depois de sepultados com honras militares, como lenitivo para suas famílias e a família policial militar. Bola de neve.

Uma discussão necessária sobre essas questões pode começar por uma indagação: que setores, além dos “comerciantes” de drogas da ponta e do andar de cima, lucram com a continuidade de uma “guerra” que, sabidamente, não terá vencedores nem vencidos? Guerra conveniente…

 

 

Imprimir este post Imprimir este post    |   




A CAPITAL DA “REPÚBLICA QUE NÃO FOI”. E O POVO “BESTIALIZADO”

16 de novembro de 2016     7 Comentários, deixe o seu

.

A principal causa da queda da monarquia dos Pedros foi a abolição da escravatura no ano anterior, 1888. O golpe que a derrubou é descrito por José Murilo de Carvalho em O Rio de Janeiro e a República que não foi. Lê-se ali que o povo, “bestializado”, pensou que se tratava de uma parada militar. Seguiu-se a mudança de nome, de Império do Brazil para República dos Estados Unidos do Brasil, sem que a mudança do continente (o nome) correspondesse a grande mudança de conteúdo (corpo e alma), pois a sociedade continuou afetada pela “arrumação” social de antes. Ainda hoje, 127 anos depois, o Brasil pena para livrar-se da tradição oligárquica. Os “donos do poder”, para usar expressão de Faoro, continuam vendo-se como barões, condes, príncipes e princesas, achando natural ocupar palácios, tanto em nível federal quanto estadual e municipal, refestelando-se em banquetes pagos pelos cidadãos; tendo à disposição frotas de veículos luxuosos, jatinhos e helicópteros, usados até para passear com a família. Mas viram suas iniciativas contra a liberdade de imprensa frustradas, e assistem, perplexos, à desenvoltura dos cidadãos nas redes sociais, com seus milhões de smartphones. Daí, mensalões, lava-jatos, foro privilegiado, doleiros, delação premiada, superfaturamentos, aditivos, embargos são temas que caem no domínio do populacho, passando a fazer parte da nova gramática social. A “desarrumação” da ordem que se observa no Brasil, e em especial no Rio de Janeiro, é sinal de que o povo não assiste a tudo “bestializado”. A República vai sendo proclamada de fato, com ou sem tornozeleira. De forma dolorosa, lamentavelmente.

 

Imprimir este post Imprimir este post    |   




CONTRA O PACOTE DO GOVERNO DO RJ E CONTRA A BADERNA NO INTERIOR DA ALERJ

8 de novembro de 2016     7 Comentários, deixe o seu

.

Participei, como integrante do Conselho Técnico da Associação dos Militares Estaduais – AME/RJ, da elaboração da Carta Aberta divulgada ontem, dia 07, contra as medidas do governo para, supostamente, enfrentar o caos nas finanças do estado. Aliás, caos que não foi provocado pelos funcionários nem pela população. Muito pelo contrário.

O governo culpa a queda dos royalties do petróleo. Ora, além da decisão temerária de comprometer royalties virtuais, incertos, o governo renunciou à receita de ICMS de R$ 151 bilhões nos últimos seis anos, segundo o MP estadual, cifra superior aos royalties não recebidos.

Se a queda dos royalties fosse a causa do caos, como explicar que o Espírito Santo, estado também importante produtor, não tenha quebrado? Ali, só em 2015, foram perdidos R$ 433 milhões. Porém, segundo explicou a secretária de Fazenda, o orçamento de 2015 já previra a continuidade da queda: “Ajustamos o orçamento prevendo essa queda. É preciso aprender a lição. Essa renda é finita, e não deve ser usada como despesa permanente. Quando você tem essa queda muito forte, fica sem fonte para pagar o custeio”. Enquanto isso, no Rio, assistia-se à farra de royalties futuros, e ao oba-oba de autoridades e empreiteiros sob o mote do “legado olímpico”. Uma festa.

Na reunião em que se elaborou a Carta Aberta acima referida, decidiu-se conclamar os integrantes da PM e do CBM (de folga, à paisana e desarmados), em apoio aos funcionários em geral, que comparecessem à ALERJ para, de forma pacífica e ordeira, tentar sensibilizar os deputados para o absurdo do que pretendia o governo, o principal responsável pelo caos.

Lamentável a baderna no interior da ALERJ. Abominável. Os responsáveis por tais atos (quebra-quebra no plenário, destruição de gabinete e subir em cima da mesa diretora) devem ser identificados, não se descartando, no entanto, que esses atos possam ter partido de agentes infiltrados para desqualificar o movimento.

De qualquer forma, a Carta chama a atenção para a gravidade da situação, com a possibilidade de comprometimento da ordem pública, o que implicaria (concluo eu) a necessidade de intervenção federal.

Obs. Chamar as medidas do governo de plano de “austeridade” soa como perversa ironia, pois o termo é sinônimo, dentre outros, de seriedade, integridade, incorruptibilidade, virtude.

 

Imprimir este post Imprimir este post    |   




A FALTA QUE FAZ O ‘MINISTÉRIO DO VAI DAR MERDA’

5 de novembro de 2016     4 Comentários, deixe o seu

.

(Nota prévia. Transcrição de postagem do Facebook.)

 

Car@ amig@s do Face, perdoem-me o uso de palavra chula, mas não consegui me conter. Faz ou não faz falta?

A FALTA QUE FAZ O MINISTÉRIO DO VAI DAR MERDA
Chico Buarque teria afirmado certa feita que, na formação do ministério de qualquer governo, seria necessário incluir o Ministério do Vai dar Merda. Vejam a falta que faz. O governo já tinha decidido enviar ao Congresso a Proposta de Emenda Constitucional (PEC ) sobre o teto dos gastos (a ser votada na Câmara e no Senado). Eis que o ministro da Educação, com pressa incontida, insistiu para que o governo aproveitasse a onda e reformasse os currículos escolares. No início, o governo hesitou, porém, ante a insistência do ministro, cogitou enviar ao Congresso um Projeto de Lei (que, como tal, também teria que ser discutido e votado no Congresso antes de entrar em vigor). Mas a pressa do ministro da Educação era muita. Insistiu para que o governo, em vez de Projeto de Lei, emitisse Medida Provisória (as MPs entram e vigor imediatamente…). E aí, misturou-se o amargo com o azedo. Resultado: centenas de escolas ocupadas por estudantes no Brasil inteiro; escaramuças entre estudantes e a polícia; greves; adiamento de provas do ENEM, e por aí vai. Se, em vez de misturar as duas coisas, o governo consultasse o ministro do Vai dar Merda, teria ouvido: Já vai dar merda sem misturar; se misturar vai dar muito mais merda.

 

Imprimir este post Imprimir este post    |   




A SABEDORIA DE TOM JOBIM. FLUXO E REFLUXO DA VIOLÊNCIA NO RIO DE JANEIRO (REPUBLICAÇÃO)

22 de outubro de 2016     2 Comentários, deixe o seu

.

(Nota prévia.  Republico postagem de seis anos atrás (04 de junho de 2010), em complemento às duas anteriores, abaixo)

Corre a lenda: o maestro Antônio Carlos Jobim teria afirmado certa feita que só haveria justiça social no Rio quando todas as pessoas morassem em Ipanema. Ironia do mestre. Talvez quisesse chamar a atenção para o fato de que a cantada-em-prosa-e-verso harmonia da sociedade carioca era, e é, um exercício de auto-ilusão, ou manifestação da síndrome de avestruz, ou outra coisa. Ora, como esquecer que a organização sócio-espacial da cidade é herança do longo período (quase quatro séculos) em que a mesma conviveu com o maior e mais duradouro regime escravista da história moderna no mundo? De toda coerência, ao contrário, é concluir que a hierarquia dos tempos monárquico-oligárquicos permaneceu enquistada na sociedade, e que urge investir na integração social da cidade como um todo.

O Fluxo

Com a expressão fluxo e refluxo, tenho em mente certo deslocamento da violência. Parto do contexto de quatro ou cinco décadas atrás, quando ela não despertava o interesse dos grandes jornais, pois era tida como circunscrita à periferia, em particular à Zona Norte. Tema importante só quando a vítima, ou o autor, pertencesse à chamada “classe média” da Zona Sul, como, por exemplo, em casos como o da morte da jovem Aída Curi, vítima de tentativa de violência sexual e jogada do alto de um edifício na Avenida Atlântica em 1958, ou o do crime do Sacopã em 1952, também na Zona Sul, do qual foi acusado um oficial da Força Aérea, o então tenente Bandeira. Fora daí, a indiferença, pública e privada, certamente porque vítimas e autores dos crimes violentos (assassinatos, roubos a mão armada, tiroteios e facadas) eram, em maioria, oriundos do mesmo estrato popular, e os crimes, praticados no seu espaço. A criminalidade só era tema importante em jornais que circulavam na periferia (jornais dos quais, na expressão em voga, “saía sangue, se espremidos”), como o Luta Democrática, do lendário deputado da Baixada Fluminense Tenório Cavalcanti. Aquela violência “distante” virara motivo de chacota em programas humorísticos de rádio e televisão. Em tom jocoso, o apresentador do programa “Patrulha da Cidade”, Samuel Correia, se referia a Duque de Caxias, já então violento município da Baixada, como “a terra onde a galinha cisca pra frente”. Com o tempo, a violência do crime se espraiou, atingindo as áreas consideradas nobres. A segurança, então, passa a ocupar as páginas e as telas, e torna-se prioridade pública, para a qual são canalizados grandes recursos governamentais. E muito discurso. Esse foi o fluxo de lá para cá.

O Refluxo

Ultimamente, ao observador atento não escapará o fato de que, a toda evidência, os acontecimentos criminais estão voltando a se concentrar naqueles espaços onde antes eram, de certa forma, admitidos (agora incluída também a Zona Oeste). Pelo menos é o que se depreende da leitura dos jornais e do noticiário da TV e do rádio, que nos dão conta de assaltos, assassinatos, bondes de traficantes, arrastões, ataques a policiais etc. que vêm ocorrendo com crescente freqüência nesses espaços. Ou a violência refluiu para o lugar de onde tinha vindo ou estamos diante do que os criminologistas chamam de segurança subjetiva (se não falo nela, é como se não existisse; se falo, existe…). Não tardará que, em algum programa de TV ou rádio, um apresentador ou humorista volte a fazer graça com a célebre frase de Samuel Correia.

Em suma, se a violência reflui para a periferia, resta saber se isso ocorre por um movimento espontâneo ou provocado. Certo é que, com o fluxo, tivemos uma espécie de socialização da violência. Restava a socialização da segurança, o que não aconteceu. E a oportunidade de integração vai-se perdendo diante da força da tradição… Na verdade, aparentemente, o que Tom Jobim queria dizer é que a solução era, não que todos fossem morar em Ipanema, e sim que Ipanema, metáfora, se deslocasse para a periferia. Esse é o verdadeiro desafio. Utopia? Pode ser, mas utopia mesmo é imaginar a possibilidade de manter a violência represada num dique distante, guarnecido pela polícia, sem risco de rompimento ou do efeito bumerangue.

junho 4th, 2010

 

Imprimir este post Imprimir este post    |   




NOVO SECRETÁRIO DE SEGURANÇA NO RJ

19 de outubro de 2016     8 Comentários, deixe o seu

(Nota prévia: postagem publicada ontem, 18/10/16, na minha página do Facebook)

NOVO SECRETÁRIO DE SEGURANÇA NO RJ

Acabo de assistir, no RJTV, à entrevista do novo secretário de Segurança, Roberto Sá. Não sou dado a elogios (crítico contumaz que sou), mas não hesito em afirmar: sua lucidez, firmeza e humildade me impressionaram, como, pareceu-me, impressionaram a jornalista e o jornalista que o entrevistaram. Não fugiu das perguntas, e explicou, sem rodeios, como pretende enfrentar o desafio de reverter o quadro de insegurança da cidade e do estado. Pediu apoio dos policiais e da sociedade. Há de ter.

 

Imprimir este post Imprimir este post    |   




O MANIQUEÍSMO MIDIÁTICO EM TORNO DA SAÍDA DO SECRETÁRIO BELTRAME

14 de outubro de 2016     6 Comentários, deixe o seu

.

Em meio a elogios e críticas à segurança do Rio, o secretário Beltrame deixa o cargo. No centro da polêmica, as UPPs, consideradas um sucesso por uns, e um fracasso por outros, revelando o doentio maniqueísmo de nossa sociedade. Dificilmente se encontra uma análise que busque sopesar pontos positivos e negativos.  É preciso perguntar: até aqui, houve mais avanços ou retrocessos? Qual era o real objetivo? As premissas que orientaram a concepção do projeto se revelaram falsas ou verdadeiras?  Convenhamos: respostas a perguntas como essas não podem limitar-se ao terreno opinativo.

Em postagem do blog de três anos atrás (12/06/2013) me referi a um tipo de maniqueísmo na diferença com que setores da mídia do Rio e de São Paulo abordavam os mesmos fatos da segurança. É o que, de novo, se observa com relação à gestão de Beltrame e às UPPs. Vamos, primeiro, aos dados atuais:

Leio em manchete do jornal O Globo (12/10): “De saída, Beltrame diz que UPPs ainda são desafio /Roberto Sá assumirá o cargo e pretende reforçar policiamento nas ruas / Secretário de Segurança que implantou política de pacificação no estado há quase dez anos diz acreditar que projeto terá continuidade porque homicídios caíram e moradores aprovam o programa.”       

Em página interna, um gráfico baseado em dados do ISP, encimado por foto do secretário, mostra a queda de 51,3% dos homicídios nos últimos 10 anos, fechando com a taxa de 25,4 por 100 mil habitantes em 2015, o que seria fruto do programa das UPPs.

Já na Folha (folha.uol, 13/10), na coluna de Marco Aurélio Canônico, lê-se: “Beltrame deixa segurança do Rio com sensação de ter enxugado gelo / RIO DE JANEIRO O mais longevo dos enxugadores de gelo do Rio despede-se da função nesta semana. José Mariano Beltrame [..] deixa o cargo vendo a maior marca de sua gestão, as Unidades de Polícia Pacificadora, desmoronar.”

E em Veja (Veja.com, 11/10), coluna de Reinaldo Azevedo, lê-se: “Sub de Beltrame vai substituí-lo. Resolve? Depende! / Se a política de segurança pública for a mesma, tudo fica como está”. E segue Reinaldo, em meio a críticas mordazes: “Quem ocupará a pasta será Antônio Roberto Cesário de Sá, que também é delegado da Polícia Federal, como Beltrame. Mas ele tem outra experiência que pode ser importante para o cargo: foi policial militar. […] chegou a tenente-coronel. […] Estão usando só a tática do fusível queimado. Deu problema, veio a sobrecarga, o fusível — Beltrame — queimou, e é preciso substituí-lo. […] Como diria Einstein, só os loucos repetem os mesmos procedimentos esperando obter resultados diferentes. Se o hoje subsecretário, logo titular, mantiver a política de Beltrame, colherá os mesmos resultados. E o Rio continuará a viver o bangue-bangue nosso de cada dia.

Sobre taxas, o que dizer do fato de a Folha de São Paulo, no início deste ano (27/01/16), ter trazido em manchete de capa, com foto do governador Alckmin e do então secretário do setor, matéria sobre a segurança no estado, com base em dados da Secretaria: “SP registra a menor taxa de homicídios em 20 anos” […] “O índice fechou em 8,73 casos por 100 mil habitantes”. 

Transcrevo, então, trecho da postagem de três anos atrás, mencionada acima, após o que acrescentarei breve conclusão:      

“SEGURANÇA PÚBLICA E MÍDIA. ““NÃO VIROU MANCHETE, ACONTECEU””. / Interessante a disputa travada ultimamente entre a mídia do Rio e a de São Paulo […]  Casos de violência no Rio viram manchete em São Paulo, e quase não aparecem na mídia do Rio, e casos de violência naquela cidade viram manchete no Rio, e quase não aparecem na mídia de lá. O problema é que, na briga do mar com o rochedo (mídia de lá e mídia de cá) quem sofre são os mariscos (moradores de lá e de cá), vítimas da sonegação da informação e de informações enganosas. […] Importante mesmo, nesse contexto, será procurar saber o que “NÃO VIROU MANCHETE” na mídia das duas cidades. Aí estará a verdade.” 

Concluo. Será que, no Rio, ninguém notou que a taxa de homicídios de São Paulo em 2015 fechou em 8,73 por 100 mil, quase três vezes menor do que os 25,4 do RJ? Mais: que, no mesmo período de 10 anos, as taxas de lá caíram 60,4%, uma queda 9,1% maior do que a do Rio?

O novo secretário, Roberto Sá, oriundo da PM, conhece bem os misteres da ordem pública, conceito amplo, que não se circunscreve ao conhecimento penal. Tem condições de reverter a situação em que a segurança do RJ se encontra.

——–

Nota. Como os dados, tanto do RJ quanto de SP, são oficiais, o que sempre desperta desconfiança, recomendo, a quem não leu, a leitura do livro How to lie with statistics, de HUFF, Darrell. Apesar do título, o livro ensina a como se proteger de manipulações estatísticas.

 

Imprimir este post Imprimir este post    |