foto de Jorge Da Silva

Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

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AS “CADÊAS SEGURAS” DE D. PEDRO E O MASSACRE DE MANAUS

5 de janeiro de 2017     6 Comentários, deixe o seu

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“As Cadêas serão seguras, limpas e bem arejadas, havendo diversas casas para separação dos Réos, conforme suas circunstancias, e natureza dos seus crimes”. (Art. 179, XXI, da Constituição do Império do Brazil de 1824, outorgada por Dom Pedro I, no auge do regime escravista).

Presos separados “conforme suas circunstâncias”… Note-se que em nenhum dos massacres acontecidos em presídios do país morreu algum preso dito especial, de “circunstância”. Logo, pode-se concluir que o sistema prisional, diferentemente do que se costuma afirmar, não está falido. Na prática, funciona em coerência com a estrutura social brasileira. Exemplo: o governador, em pendenga com o ministro da Justiça, afirma que, entre os 60 presos mortos, “não tinha nenhum santo”. Acrescento: nenhum preso de circunstância.

A posição do governo federal, 193 anos depois, faz lembrar Pedro I.

 

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MASSACRE EM MANAUS.  PRESOS. MISTURAR OU NÃO MISTURAR, EIS A QUESTÃO

4 de janeiro de 2017     2 Comentários, deixe o seu

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(Nota prévia. A propósito do massacre (mais um) do presídio em Manaus, republico postagem de 18/11/2012, por ocasião do escândalo do Mensalão, em que tentei mostrar que a República ainda não foi proclamada de fato).

 

PRESOS. MISTURAR OU NÃO MISTURAR, EIS A QUESTÃO

“As Cadêas serão seguras, limpas e bem arejadas, havendo diversas casas para separação dos Réos, conforme suas circunstancias, e natureza dos seus crimes”.  (Art. 179, inciso XXI, da Constituição do Império do Brazil de 1824, outorgada por Dom Pedro I em pleno regime escravista)

Dilema. Onde colocar os condenados a prisão na Ação Penal 470? Procede a dúvida. Afinal, salvo engano, em 123 anos de República, jamais um político condenado pelo Supremo passou um dia sequer na prisão. Interessante notar que, esgotados os argumentos técnicos, há quem se insurja contra a possibilidade de que “desiguais” sejam igualados em presídios comuns, mesmo que a sentença tenha transitado em julgado. Como se ainda estivéssemos na monarquia.

Certa feita, em visita à Academia do Sistema Prisional de Nova Iorque, tive dificuldade de explicar à diretora o significado da expressão “prisão especial”, pois, além do fato de naquele país não haver semelhante instituto, em inglês distingue-se entre prison (estabelecimento) e imprisonment (ato de prender ou estar preso), enquanto em português a mesma palavra, prisão, é comumente usada nos dois sentidos. Expliquei que a prisão especial não era necessariamente uma edificação especial, e sim um direito atado a determinados cidadãos em razão de atributos pessoais, como possuir curso superior. Ela espantou-se e, em tom de brincadeira, exclamou: “Então quer dizer que lá, se eu matar o meu marido não vou para uma prisão comum!”

Curioso que o tema da mistura de presos de circunstância com presos comuns volta à baila ao aproximar-se o final do julgamento. O ministro da Justiça (sic) descobre que as prisões brasileiras são “medievais”; o ministro Dias Toffoli segue-lhe os passos. Exumam racionalizações há muito enterradas, no que são acompanhados por não poucas pessoas, sobretudo políticos, juristas, advogados. Sem surpresas. Só me surpreendi mesmo com a posição do Dr. Walter Maierovitch, cujos comentários na rádio CBN costumam ser ponderados e técnicos, em crítica ácida ao ministro Joaquim Barbosa:

[…] “Nos nossos presídios, cá entre nós, seria uma temeridade colocar um Dirceu ou mesmo um Valério em cela coletiva sem segurança. Da mesma forma, os membros do Rural ficariam sob permanente risco de chantagens e lesões. Agora, com a declaração de Barbosa, Milton [Milton Jung], ele desconsidera o principio constitucional que garante aos presos a integridade física e moral. Está na hora, Milton, do Barbosa falar só nos autos, e não mais urbi et orbi, como fazem os papas.”

Ué! E a integridade física e moral dos presos “convencionais”, em maioria pés-de-chinelo? Tenho a impressão de que, no fundo, o que tem falado mais alto é o sentimento de classe (“Não se sabe o dia de amanhã!…”). Posso estar delirando, mas vejo clara ligação desse abismo social com a matança e os incêndios em São Paulo, Florianópolis e outras cidades, ordenados, dizem, por hóspedes das masmorras medievais recém descobertas pelos ministros Cardoso e Toffoli.

Será que ninguém entende que esse modelo monárquico-plutocrático de (in)justiça penal há muito exauriu-se, e que, 123 anos depois, é preciso proclamar de fato a República? Gente, não dá mais para manter a hierarquia social na base do porrete!

novembro 18th, 2012

 

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“NÃO VOU PAGAR O PATO”

21 de dezembro de 2016     2 Comentários, deixe o seu

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(NOTA PRÉVIA. Notam-se reações negativas ao fato de a Câmara não ter incluído no projeto de renegociação da divida dos estados algumas contrapartidas obrigatórias. O ministro da Fazenda declarou que o governo será rígido na renegociação. Republico, a propósito, postagem de 11 de dezembro).

QUEM VAI “PAGAR O PATO”?

Há um ano, no dia 1º de outubro de 2015, o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, lançou a campanha “Não Vou Pagar o Pato” em frente ao Congresso Nacional. Com um imenso boneco inflável de um pato na cor amarela, e centenas de patinhos infláveis espalhados no lago do Congresso, conclamava a população (na primeira pessoa…) a aderir à campanha. Era uma reação à decisão do governo Dilma de recriar a CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira). Scaf foi taxativo: “Todos nós estamos a favor do ajuste fiscal, mas ele deve ser feito com redução de despesas e desperdícios e não através de aumento de impostos. Nós não vamos aceitar a recriação ou criação de aumento de impostos que vá pesar, ainda mais, no bolso do brasileiro“. A campanha contou também com anúncios na mídia, tendo conseguido a adesão de mais de um milhão de assinaturas ao manifesto contra a medida. Já os que defendiam a CPMF alegavam que se tratava de um imposto de incidência reduzida; que evitaria comprometer políticas sociais, e que era importante instrumento contra a sonegação de impostos e a evasão de divisas do país (o Brasil é um dos campeões mundiais de sonegação e de evasão). Voltou também à discussão a proposta de taxação das grandes fortunas, prevista na Constituição. Finalmente, em abril deste ano, semanas antes do afastamento provisório da então presidente, o jornal Estado de São Paulo publicava: “Temer descarta recriação da CPMF e aumento de impostos se assumir”. Hoje, tramitam no Congresso a PEC do teto dos gastos e a da reforma da Previdência. Sobrou para os patinhos.

11 de dezembro de 2016

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QUEM VAI “PAGAR O PATO”?

11 de dezembro de 2016     4 Comentários, deixe o seu

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Há um ano, no dia 1º de outubro de 2015, o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, lançou a campanha “Não Vou Pagar o Pato” em frente ao Congresso Nacional. Com um imenso boneco inflável de um pato na cor amarela, e centenas de patinhos infláveis espalhados no lago do Congresso, conclamava a população (na primeira pessoa) a aderir à campanha. Era uma reação à decisão do governo Dilma de recriar a CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira). Scaf foi taxativo: “Todos nós estamos a favor do ajuste fiscal, mas ele deve ser feito com redução de despesas e desperdícios e não através de aumento de impostos. Nós não vamos aceitar a recriação ou criação de aumento de impostos que vá pesar, ainda mais, no bolso do brasileiro“. A campanha contou também com anúncios na mídia, tendo conseguido a adesão de mais de um milhão de assinaturas ao manifesto contra a medida. Já os que defendiam a CPMF alegavam que se tratava de um imposto de incidência reduzida; que evitaria comprometer políticas sociais, e que era importante instrumento contra a sonegação de impostos e a evasão de divisas do país (o Brasil é um dos campeões mundiais de sonegação e de evasão). Voltou também à discussão a proposta de taxação das grandes fortunas, prevista na Constituição. Finalmente, em abril deste ano, semanas antes do afastamento provisório da então presidente, o jornal Estado de São Paulo publicava: “Temer descarta recriação da CPMF e aumento de impostos se assumir”. Hoje, tramitam no Congresso a PEC do teto dos gastos e a da reforma da Previdência. Sobrou para os patinhos.

 

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MANDADO DE BUSCA COLETIVA NA CIDADE DE DEUS APÓS A QUEDA DO HELICÓPTERO

26 de novembro de 2016     6 Comentários, deixe o seu

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Dois dias após a queda do helicóptero que matou quatro policiais militares na Cidade de Deus (ver a postagem “Quem matou os PMs do helicóptero?”, abaixo), lia-se na mídia que a juíza Angélica Costa autorizara “buscas coletivas” naquele bairro. Os moradores fizeram protestos, exigindo respeito, e a Defensoria Pública impetrou habeas corpus coletivo contra a medida. Lê-se hoje, 26/11, no Globo: “Polícia não poderá fazer buscas coletivas na Cidade de Deus”.  Sobre o tema, transcrevo trechos da postagem de dois anos e meio atrás (EXÉRCITO NA MARÉ), após o que concluirei.

 

EXÉRCITO NA MARÉ (26/03/2014)

Uma notícia contida em chamada de primeira página de O Globo de hoje, 26/03, sobre a ocupação militar da Maré chamou a minha atenção: “Os militares devem atuar com mandados coletivos de busca, que permitam que qualquer casa seja vasculhada”. […] “Forças têm mapa da Maré, diz procuradora” […] “Representante do Ministério Público Militar afirma que tropas contarão com mandados de busca coletivos”. A revelação partira da procuradora do MP militar Hevelize Jourdan. Segundo os repórteres que assinam a matéria, “a possível expedição pela Justiça Militar dos mandados coletivos, explicou a procuradora, deve-se à dificuldade de localizar endereços em meio ao aglomerado de casas erguidas em becos, sem numeração definida”.

Fiquei preocupado por dois motivos: primeiro, pelo tamanho do bairro da Maré (bairro desde 1994) e pelas afirmações da procuradora, e segundo, pelas complicações constitucionais e legais. Explico-me.

A população do conjunto de comunidades que compõem o bairro da Maré é de 130 mil moradores. Para que se tenha ideia, dos 5.570 municípios brasileiros, 5.350 possuem população inferior à da Maré, incluídos os do Estado do Rio de Janeiro. […] Com relação aos mandados de busca, não sei se mudou, mas tanto o Código de Processo Penal comum (CPP) quanto o Código de Processo Penal Militar (CPPM) vedam ao juiz, sob pena de abuso de poder, a expedição de mandados genéricos, coletivos (o bairro da Maré possui cerca de 40 mil domicílios…). O CPP exige que o mandado indique, “o mais precisamente possível, a casa em que será realizada a diligência”, e o CPPM, além de exigir o mesmo, manda o executor exibir e ler o mandado.

Bem, é possível que a posição da procuradora reflita as representações distorcidas sobre aquele e outros locais similares. Ela não deve ter lido o GUIA DE RUAS MARÉ 2012. Saberia que todas as ruas possuem CEP, e a quase totalidade das casas possui numeração (vale a dica para os repórteres…).

[…]  Não sei por que estou preocupado com esses detalhes. Não moro na Maré.

Concluo

Não há como não se indignar com a audácia das facções, as quais, além de infernizar a vida dos moradores, festejam a morte de chefes de família, como no caso dos quatro PMs do helicóptero. Tal fato justifica o uso de toda força estatal contra elas. Isso é uma coisa. Outra bem diferente é não distinguir traficantes de trabalhadores, mandando (a juíza mandou…) a polícia vasculhar suas casas. A magistrada repete a argumentação da procuradora do caso da Maré, de 2014: “medida excepcional” (sic). Com certeza, ela não mandaria fazer busca coletiva se houvesse a notícia de que os traficantes tivessem invadido um condomínio elegante das proximidades e se escondido ali.

E uma pergunta: se a juíza e a procuradora do MP federal não se basearam em qualquer dispositivo constitucional ou legal para justificar o mandado coletivo (figura inexistente no ordenamento jurídico brasileiro), como a OAB, a Associação Juízes pela Democracia, a mídia e todos os que dizem lutar pela promoção da cidadania se manifestam em relação a esse tipo de decisão? Por que se calam?…

Obs. Link para o inteiro teor de EXÉRCITO NA MARÉ: http://www.jorgedasilva.blog.br/?p=5257

 

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QUEM MATOU OS PMs DO HELICÓPTERO?  Ou ENTRE CULPADOS E RESPONSÁVEIS

21 de novembro de 2016     6 Comentários, deixe o seu

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Mais quatro PMs mortos na malfadada “guerra às drogas”, contra traficantes da ponta da linha. Desta vez, na “comunidade” Cidade de Deus. Morreram quatro chefes de família: o major Rogério Costa, o capitão Schorcht, o subtenente Camilo e o sargento Rainha. Somam-se a eles mais de 100 policiais mortos só neste ano no RJ. A espiral da morte (não só de policiais, mas de traficantes, supostos traficantes, pessoas inocentes de comunidades por balas perdidas, e pessoas do “asfalto” em diferentes situações) coloca o Brasil em 1º lugar no ranking mundial da matança, em números absolutos, conforme relatório de 2014 da Organização Mundial da Saúde – OMS. Em 2012, teriam sido assassinadas no Brasil 64 mil pessoas.

No caso da queda do helicóptero, o foco tem sido deslocado para se saber se a aeronave foi derrubada por traficantes ou caído em razão de alguma pane ou outra causa. Em qualquer das hipóteses, porém, não basta apontar a causa ou eventuais culpados. O helicóptero estava em operação numa “guerra” que não foi inventada pela polícia. Mais que tudo, é preciso identificar os “responsáveis” pela concepção desse modelo macabro de abordagem da questão das drogas tornadas ilícitas, e pelo quadro geral de descontrole da segurança. É preciso identificar os orquestradores da matança.

Não há dúvida: a queda do helicóptero e as mortes dos PMs se transformarão em estatística daqui a alguns dias, enquanto os policiais serão incitados à retaliação. E então, novos PMs aumentarão o panteão dos heróis mortos, depois de sepultados com honras militares, como lenitivo para suas famílias e a família policial militar. Bola de neve.

Uma discussão necessária sobre essas questões pode começar por uma indagação: que setores, além dos “comerciantes” de drogas da ponta e do andar de cima, lucram com a continuidade de uma “guerra” que, sabidamente, não terá vencedores nem vencidos? Guerra conveniente…

 

 

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‘BOMBANDO’ NO RIO RIO, A CAPITAL DA “REPÚBLICA QUE NÃO FOI”. E O POVO “BESTIALIZADO”

16 de novembro de 2016     7 Comentários, deixe o seu

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A principal causa da queda da monarquia dos Pedros foi a abolição da escravatura no ano anterior, 1888. O golpe que a derrubou é descrito por José Murilo de Carvalho em O Rio de Janeiro e a República que não foi. Lê-se ali que o povo, “bestializado”, pensou que se tratava de uma parada militar. Seguiu-se a mudança de nome, de Império do Brazil para República dos Estados Unidos do Brasil, sem que a mudança do continente (o nome) correspondesse a grande mudança de conteúdo (corpo e alma), pois a sociedade continuou afetada pela “arrumação” social de antes. Ainda hoje, 127 anos depois, o Brasil pena para livrar-se da tradição oligárquica. Os “donos do poder”, para usar expressão de Faoro, continuam vendo-se como barões, condes, príncipes e princesas, achando natural ocupar palácios, tanto em nível federal quanto estadual e municipal, refestelando-se em banquetes pagos pelos cidadãos; tendo à disposição frotas de veículos luxuosos, jatinhos e helicópteros, usados até para passear com a família. Mas viram suas iniciativas contra a liberdade de imprensa frustradas, e assistem, perplexos, à desenvoltura dos cidadãos nas redes sociais, com seus milhares de smartphones. Daí, mensalões, lava-jatos, foro privilegiado, doleiros, delação premiada, superfaturamentos, aditivos, embargos são temas que caem no domínio do populacho, passando a fazer parte da nova gramática social. A “desarrumação” da ordem que se observa no Brasil, e em especial no Rio de Janeiro, é sinal de que o povo não assiste a tudo “bestializado”. A República vai sendo proclamada de fato, com ou sem tornozeleira. De forma dolorosa, lamentavelmente.

 

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CONTRA O PACOTE DO GOVERNO DO RJ E CONTRA A BADERNA NO INTERIOR DA ALERJ

8 de novembro de 2016     7 Comentários, deixe o seu

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Participei, como integrante do Conselho Técnico da Associação dos Militares Estaduais – AME/RJ, da elaboração da Carta Aberta divulgada ontem, dia 07, contra as medidas do governo para, supostamente, enfrentar o caos nas finanças do estado. Aliás, caos que não foi provocado pelos funcionários nem pela população. Muito pelo contrário.

O governo culpa a queda dos royalties do petróleo. Ora, além da decisão temerária de comprometer royalties virtuais, incertos, o governo renunciou à receita de ICMS de R$ 151 bilhões nos últimos seis anos, segundo o MP estadual, cifra superior aos royalties não recebidos.

Se a queda dos royalties fosse a causa do caos, como explicar que o Espírito Santo, estado também importante produtor, não tenha quebrado? Ali, só em 2015, foram perdidos R$ 433 milhões. Porém, segundo explicou a secretária de Fazenda, o orçamento de 2015 já previra a continuidade da queda: “Ajustamos o orçamento prevendo essa queda. É preciso aprender a lição. Essa renda é finita, e não deve ser usada como despesa permanente. Quando você tem essa queda muito forte, fica sem fonte para pagar o custeio”. Enquanto isso, no Rio, assistia-se à farra de royalties futuros, e ao oba-oba de autoridades e empreiteiros sob o mote do “legado olímpico”. Uma festa.

Na reunião em que se elaborou a Carta Aberta acima referida, decidiu-se conclamar os integrantes da PM e do CBM (de folga, à paisana e desarmados), em apoio aos funcionários em geral, que comparecessem à ALERJ para, de forma pacífica e ordeira, tentar sensibilizar os deputados para o absurdo do que pretendia o governo, o principal responsável pelo caos.

Lamentável a baderna no interior da ALERJ. Abominável. Os responsáveis por tais atos (quebra-quebra no plenário, destruição de gabinete e subir em cima da mesa diretora) devem ser identificados, não se descartando, no entanto, que esses atos possam ter partido de agentes infiltrados para desqualificar o movimento.

De qualquer forma, a Carta chama a atenção para a gravidade da situação, com a possibilidade de comprometimento da ordem pública, o que implicaria (concluo eu) a necessidade de intervenção federal.

Obs. Chamar as medidas do governo de plano de “austeridade” soa como perversa ironia, pois o termo é sinônimo, dentre outros, de seriedade, integridade, incorruptibilidade, virtude.

 

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A FALTA QUE FAZ O ‘MINISTÉRIO DO VAI DAR MERDA’

5 de novembro de 2016     4 Comentários, deixe o seu

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(Nota prévia. Transcrição de postagem do Facebook.)

 

Car@ amig@s do Face, perdoem-me o uso de palavra chula, mas não consegui me conter. Faz ou não faz falta?

A FALTA QUE FAZ O MINISTÉRIO DO VAI DAR MERDA
Chico Buarque teria afirmado certa feita que, na formação do ministério de qualquer governo, seria necessário incluir o Ministério do Vai dar Merda. Vejam a falta que faz. O governo já tinha decidido enviar ao Congresso a Proposta de Emenda Constitucional (PEC ) sobre o teto dos gastos (a ser votada na Câmara e no Senado). Eis que o ministro da Educação, com pressa incontida, insistiu para que o governo aproveitasse a onda e reformasse os currículos escolares. No início, o governo hesitou, porém, ante a insistência do ministro, cogitou enviar ao Congresso um Projeto de Lei (que, como tal, também teria que ser discutido e votado no Congresso antes de entrar em vigor). Mas a pressa do ministro da Educação era muita. Insistiu para que o governo, em vez de Projeto de Lei, emitisse Medida Provisória (as MPs entram e vigor imediatamente…). E aí, misturou-se o amargo com o azedo. Resultado: centenas de escolas ocupadas por estudantes no Brasil inteiro; escaramuças entre estudantes e a polícia; greves; adiamento de provas do ENEM, e por aí vai. Se, em vez de misturar as duas coisas, o governo consultasse o ministro do Vai dar Merda, teria ouvido: Já vai dar merda sem misturar; se misturar vai dar muito mais merda.

 

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A SABEDORIA DE TOM JOBIM. FLUXO E REFLUXO DA VIOLÊNCIA NO RIO DE JANEIRO (REPUBLICAÇÃO)

22 de outubro de 2016     2 Comentários, deixe o seu

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(Nota prévia.  Republico postagem de seis anos atrás (04 de junho de 2010), em complemento às duas anteriores, abaixo)

Corre a lenda: o maestro Antônio Carlos Jobim teria afirmado certa feita que só haveria justiça social no Rio quando todas as pessoas morassem em Ipanema. Ironia do mestre. Talvez quisesse chamar a atenção para o fato de que a cantada-em-prosa-e-verso harmonia da sociedade carioca era, e é, um exercício de auto-ilusão, ou manifestação da síndrome de avestruz, ou outra coisa. Ora, como esquecer que a organização sócio-espacial da cidade é herança do longo período (quase quatro séculos) em que a mesma conviveu com o maior e mais duradouro regime escravista da história moderna no mundo? De toda coerência, ao contrário, é concluir que a hierarquia dos tempos monárquico-oligárquicos permaneceu enquistada na sociedade, e que urge investir na integração social da cidade como um todo.

O Fluxo

Com a expressão fluxo e refluxo, tenho em mente certo deslocamento da violência. Parto do contexto de quatro ou cinco décadas atrás, quando ela não despertava o interesse dos grandes jornais, pois era tida como circunscrita à periferia, em particular à Zona Norte. Tema importante só quando a vítima, ou o autor, pertencesse à chamada “classe média” da Zona Sul, como, por exemplo, em casos como o da morte da jovem Aída Curi, vítima de tentativa de violência sexual e jogada do alto de um edifício na Avenida Atlântica em 1958, ou o do crime do Sacopã em 1952, também na Zona Sul, do qual foi acusado um oficial da Força Aérea, o então tenente Bandeira. Fora daí, a indiferença, pública e privada, certamente porque vítimas e autores dos crimes violentos (assassinatos, roubos a mão armada, tiroteios e facadas) eram, em maioria, oriundos do mesmo estrato popular, e os crimes, praticados no seu espaço. A criminalidade só era tema importante em jornais que circulavam na periferia (jornais dos quais, na expressão em voga, “saía sangue, se espremidos”), como o Luta Democrática, do lendário deputado da Baixada Fluminense Tenório Cavalcanti. Aquela violência “distante” virara motivo de chacota em programas humorísticos de rádio e televisão. Em tom jocoso, o apresentador do programa “Patrulha da Cidade”, Samuel Correia, se referia a Duque de Caxias, já então violento município da Baixada, como “a terra onde a galinha cisca pra frente”. Com o tempo, a violência do crime se espraiou, atingindo as áreas consideradas nobres. A segurança, então, passa a ocupar as páginas e as telas, e torna-se prioridade pública, para a qual são canalizados grandes recursos governamentais. E muito discurso. Esse foi o fluxo de lá para cá.

O Refluxo

Ultimamente, ao observador atento não escapará o fato de que, a toda evidência, os acontecimentos criminais estão voltando a se concentrar naqueles espaços onde antes eram, de certa forma, admitidos (agora incluída também a Zona Oeste). Pelo menos é o que se depreende da leitura dos jornais e do noticiário da TV e do rádio, que nos dão conta de assaltos, assassinatos, bondes de traficantes, arrastões, ataques a policiais etc. que vêm ocorrendo com crescente freqüência nesses espaços. Ou a violência refluiu para o lugar de onde tinha vindo ou estamos diante do que os criminologistas chamam de segurança subjetiva (se não falo nela, é como se não existisse; se falo, existe…). Não tardará que, em algum programa de TV ou rádio, um apresentador ou humorista volte a fazer graça com a célebre frase de Samuel Correia.

Em suma, se a violência reflui para a periferia, resta saber se isso ocorre por um movimento espontâneo ou provocado. Certo é que, com o fluxo, tivemos uma espécie de socialização da violência. Restava a socialização da segurança, o que não aconteceu. E a oportunidade de integração vai-se perdendo diante da força da tradição… Na verdade, aparentemente, o que Tom Jobim queria dizer é que a solução era, não que todos fossem morar em Ipanema, e sim que Ipanema, metáfora, se deslocasse para a periferia. Esse é o verdadeiro desafio. Utopia? Pode ser, mas utopia mesmo é imaginar a possibilidade de manter a violência represada num dique distante, guarnecido pela polícia, sem risco de rompimento ou do efeito bumerangue.

junho 4th, 2010

 

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