foto de Jorge Da Silva

Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

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QUEM MATOU OS PMs DO HELICÓPTERO?  Ou ENTRE CULPADOS E RESPONSÁVEIS

21 de novembro de 2016     6 Comentários, deixe o seu

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Mais quatro PMs mortos na malfadada “guerra às drogas”, contra traficantes da ponta da linha. Desta vez, na “comunidade” Cidade de Deus. Morreram quatro chefes de família: o major Rogério Costa, o capitão Schorcht, o subtenente Camilo e o sargento Rainha. Somam-se a eles mais de 100 policiais mortos só neste ano no RJ. A espiral da morte (não só de policiais, mas de traficantes, supostos traficantes, pessoas inocentes de comunidades por balas perdidas, e pessoas do “asfalto” em diferentes situações) coloca o Brasil em 1º lugar no ranking mundial da matança, em números absolutos, conforme relatório de 2014 da Organização Mundial da Saúde – OMS. Em 2012, teriam sido assassinadas no Brasil 64 mil pessoas.

No caso da queda do helicóptero, o foco tem sido deslocado para se saber se a aeronave foi derrubada por traficantes ou caído em razão de alguma pane ou outra causa. Em qualquer das hipóteses, porém, não basta apontar a causa ou eventuais culpados. O helicóptero estava em operação numa “guerra” que não foi inventada pela polícia. Mais que tudo, é preciso identificar os “responsáveis” pela concepção desse modelo macabro de abordagem da questão das drogas tornadas ilícitas, e pelo quadro geral de descontrole da segurança. É preciso identificar os orquestradores da matança.

Não há dúvida: a queda do helicóptero e as mortes dos PMs se transformarão em estatística daqui a alguns dias, enquanto os policiais serão incitados à retaliação. E então, novos PMs aumentarão o panteão dos heróis mortos, depois de sepultados com honras militares, como lenitivo para suas famílias e a família policial militar. Bola de neve.

Uma discussão necessária sobre essas questões pode começar por uma indagação: que setores, além dos “comerciantes” de drogas da ponta e do andar de cima, lucram com a continuidade de uma “guerra” que, sabidamente, não terá vencedores nem vencidos? Guerra conveniente…

 

 

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‘BOMBANDO’ NO RIO RIO, A CAPITAL DA “REPÚBLICA QUE NÃO FOI”. E O POVO “BESTIALIZADO”

16 de novembro de 2016     7 Comentários, deixe o seu

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A principal causa da queda da monarquia dos Pedros foi a abolição da escravatura no ano anterior, 1888. O golpe que a derrubou é descrito por José Murilo de Carvalho em O Rio de Janeiro e a República que não foi. Lê-se ali que o povo, “bestializado”, pensou que se tratava de uma parada militar. Seguiu-se a mudança de nome, de Império do Brazil para República dos Estados Unidos do Brasil, sem que a mudança do continente (o nome) correspondesse a grande mudança de conteúdo (corpo e alma), pois a sociedade continuou afetada pela “arrumação” social de antes. Ainda hoje, 127 anos depois, o Brasil pena para livrar-se da tradição oligárquica. Os “donos do poder”, para usar expressão de Faoro, continuam vendo-se como barões, condes, príncipes e princesas, achando natural ocupar palácios, tanto em nível federal quanto estadual e municipal, refestelando-se em banquetes pagos pelos cidadãos; tendo à disposição frotas de veículos luxuosos, jatinhos e helicópteros, usados até para passear com a família. Mas viram suas iniciativas contra a liberdade de imprensa frustradas, e assistem, perplexos, à desenvoltura dos cidadãos nas redes sociais, com seus milhares de smartphones. Daí, mensalões, lava-jatos, foro privilegiado, doleiros, delação premiada, superfaturamentos, aditivos, embargos são temas que caem no domínio do populacho, passando a fazer parte da nova gramática social. A “desarrumação” da ordem que se observa no Brasil, e em especial no Rio de Janeiro, é sinal de que o povo não assiste a tudo “bestializado”. A República vai sendo proclamada de fato, com ou sem tornozeleira. De forma dolorosa, lamentavelmente.

 

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CONTRA O PACOTE DO GOVERNO DO RJ E CONTRA A BADERNA NO INTERIOR DA ALERJ

8 de novembro de 2016     7 Comentários, deixe o seu

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Participei, como integrante do Conselho Técnico da Associação dos Militares Estaduais – AME/RJ, da elaboração da Carta Aberta divulgada ontem, dia 07, contra as medidas do governo para, supostamente, enfrentar o caos nas finanças do estado. Aliás, caos que não foi provocado pelos funcionários nem pela população. Muito pelo contrário.

O governo culpa a queda dos royalties do petróleo. Ora, além da decisão temerária de comprometer royalties virtuais, incertos, o governo renunciou à receita de ICMS de R$ 151 bilhões nos últimos seis anos, segundo o MP estadual, cifra superior aos royalties não recebidos.

Se a queda dos royalties fosse a causa do caos, como explicar que o Espírito Santo, estado também importante produtor, não tenha quebrado? Ali, só em 2015, foram perdidos R$ 433 milhões. Porém, segundo explicou a secretária de Fazenda, o orçamento de 2015 já previra a continuidade da queda: “Ajustamos o orçamento prevendo essa queda. É preciso aprender a lição. Essa renda é finita, e não deve ser usada como despesa permanente. Quando você tem essa queda muito forte, fica sem fonte para pagar o custeio”. Enquanto isso, no Rio, assistia-se à farra de royalties futuros, e ao oba-oba de autoridades e empreiteiros sob o mote do “legado olímpico”. Uma festa.

Na reunião em que se elaborou a Carta Aberta acima referida, decidiu-se conclamar os integrantes da PM e do CBM (de folga, à paisana e desarmados), em apoio aos funcionários em geral, que comparecessem à ALERJ para, de forma pacífica e ordeira, tentar sensibilizar os deputados para o absurdo do que pretendia o governo, o principal responsável pelo caos.

Lamentável a baderna no interior da ALERJ. Abominável. Os responsáveis por tais atos (quebra-quebra no plenário, destruição de gabinete e subir em cima da mesa diretora) devem ser identificados, não se descartando, no entanto, que esses atos possam ter partido de agentes infiltrados para desqualificar o movimento.

De qualquer forma, a Carta chama a atenção para a gravidade da situação, com a possibilidade de comprometimento da ordem pública, o que implicaria (concluo eu) a necessidade de intervenção federal.

Obs. Chamar as medidas do governo de plano de “austeridade” soa como perversa ironia, pois o termo é sinônimo, dentre outros, de seriedade, integridade, incorruptibilidade, virtude.

 

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A FALTA QUE FAZ O ‘MINISTÉRIO DO VAI DAR MERDA’

5 de novembro de 2016     4 Comentários, deixe o seu

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(Nota prévia. Transcrição de postagem do Facebook.)

 

Car@ amig@s do Face, perdoem-me o uso de palavra chula, mas não consegui me conter. Faz ou não faz falta?

A FALTA QUE FAZ O MINISTÉRIO DO VAI DAR MERDA
Chico Buarque teria afirmado certa feita que, na formação do ministério de qualquer governo, seria necessário incluir o Ministério do Vai dar Merda. Vejam a falta que faz. O governo já tinha decidido enviar ao Congresso a Proposta de Emenda Constitucional (PEC ) sobre o teto dos gastos (a ser votada na Câmara e no Senado). Eis que o ministro da Educação, com pressa incontida, insistiu para que o governo aproveitasse a onda e reformasse os currículos escolares. No início, o governo hesitou, porém, ante a insistência do ministro, cogitou enviar ao Congresso um Projeto de Lei (que, como tal, também teria que ser discutido e votado no Congresso antes de entrar em vigor). Mas a pressa do ministro da Educação era muita. Insistiu para que o governo, em vez de Projeto de Lei, emitisse Medida Provisória (as MPs entram e vigor imediatamente…). E aí, misturou-se o amargo com o azedo. Resultado: centenas de escolas ocupadas por estudantes no Brasil inteiro; escaramuças entre estudantes e a polícia; greves; adiamento de provas do ENEM, e por aí vai. Se, em vez de misturar as duas coisas, o governo consultasse o ministro do Vai dar Merda, teria ouvido: Já vai dar merda sem misturar; se misturar vai dar muito mais merda.

 

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A SABEDORIA DE TOM JOBIM. FLUXO E REFLUXO DA VIOLÊNCIA NO RIO DE JANEIRO (REPUBLICAÇÃO)

22 de outubro de 2016     2 Comentários, deixe o seu

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(Nota prévia.  Republico postagem de seis anos atrás (04 de junho de 2010), em complemento às duas anteriores, abaixo)

Corre a lenda: o maestro Antônio Carlos Jobim teria afirmado certa feita que só haveria justiça social no Rio quando todas as pessoas morassem em Ipanema. Ironia do mestre. Talvez quisesse chamar a atenção para o fato de que a cantada-em-prosa-e-verso harmonia da sociedade carioca era, e é, um exercício de auto-ilusão, ou manifestação da síndrome de avestruz, ou outra coisa. Ora, como esquecer que a organização sócio-espacial da cidade é herança do longo período (quase quatro séculos) em que a mesma conviveu com o maior e mais duradouro regime escravista da história moderna no mundo? De toda coerência, ao contrário, é concluir que a hierarquia dos tempos monárquico-oligárquicos permaneceu enquistada na sociedade, e que urge investir na integração social da cidade como um todo.

O Fluxo

Com a expressão fluxo e refluxo, tenho em mente certo deslocamento da violência. Parto do contexto de quatro ou cinco décadas atrás, quando ela não despertava o interesse dos grandes jornais, pois era tida como circunscrita à periferia, em particular à Zona Norte. Tema importante só quando a vítima, ou o autor, pertencesse à chamada “classe média” da Zona Sul, como, por exemplo, em casos como o da morte da jovem Aída Curi, vítima de tentativa de violência sexual e jogada do alto de um edifício na Avenida Atlântica em 1958, ou o do crime do Sacopã em 1952, também na Zona Sul, do qual foi acusado um oficial da Força Aérea, o então tenente Bandeira. Fora daí, a indiferença, pública e privada, certamente porque vítimas e autores dos crimes violentos (assassinatos, roubos a mão armada, tiroteios e facadas) eram, em maioria, oriundos do mesmo estrato popular, e os crimes, praticados no seu espaço. A criminalidade só era tema importante em jornais que circulavam na periferia (jornais dos quais, na expressão em voga, “saía sangue, se espremidos”), como o Luta Democrática, do lendário deputado da Baixada Fluminense Tenório Cavalcanti. Aquela violência “distante” virara motivo de chacota em programas humorísticos de rádio e televisão. Em tom jocoso, o apresentador do programa “Patrulha da Cidade”, Samuel Correia, se referia a Duque de Caxias, já então violento município da Baixada, como “a terra onde a galinha cisca pra frente”. Com o tempo, a violência do crime se espraiou, atingindo as áreas consideradas nobres. A segurança, então, passa a ocupar as páginas e as telas, e torna-se prioridade pública, para a qual são canalizados grandes recursos governamentais. E muito discurso. Esse foi o fluxo de lá para cá.

O Refluxo

Ultimamente, ao observador atento não escapará o fato de que, a toda evidência, os acontecimentos criminais estão voltando a se concentrar naqueles espaços onde antes eram, de certa forma, admitidos (agora incluída também a Zona Oeste). Pelo menos é o que se depreende da leitura dos jornais e do noticiário da TV e do rádio, que nos dão conta de assaltos, assassinatos, bondes de traficantes, arrastões, ataques a policiais etc. que vêm ocorrendo com crescente freqüência nesses espaços. Ou a violência refluiu para o lugar de onde tinha vindo ou estamos diante do que os criminologistas chamam de segurança subjetiva (se não falo nela, é como se não existisse; se falo, existe…). Não tardará que, em algum programa de TV ou rádio, um apresentador ou humorista volte a fazer graça com a célebre frase de Samuel Correia.

Em suma, se a violência reflui para a periferia, resta saber se isso ocorre por um movimento espontâneo ou provocado. Certo é que, com o fluxo, tivemos uma espécie de socialização da violência. Restava a socialização da segurança, o que não aconteceu. E a oportunidade de integração vai-se perdendo diante da força da tradição… Na verdade, aparentemente, o que Tom Jobim queria dizer é que a solução era, não que todos fossem morar em Ipanema, e sim que Ipanema, metáfora, se deslocasse para a periferia. Esse é o verdadeiro desafio. Utopia? Pode ser, mas utopia mesmo é imaginar a possibilidade de manter a violência represada num dique distante, guarnecido pela polícia, sem risco de rompimento ou do efeito bumerangue.

junho 4th, 2010

 

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NOVO SECRETÁRIO DE SEGURANÇA NO RJ

19 de outubro de 2016     8 Comentários, deixe o seu

(Nota prévia: postagem publicada ontem, 18/10/16, na minha página do Facebook)

NOVO SECRETÁRIO DE SEGURANÇA NO RJ

Acabo de assistir, no RJTV, à entrevista do novo secretário de Segurança, Roberto Sá. Não sou dado a elogios (crítico contumaz que sou), mas não hesito em afirmar: sua lucidez, firmeza e humildade me impressionaram, como, pareceu-me, impressionaram a jornalista e o jornalista que o entrevistaram. Não fugiu das perguntas, e explicou, sem rodeios, como pretende enfrentar o desafio de reverter o quadro de insegurança da cidade e do estado. Pediu apoio dos policiais e da sociedade. Há de ter.

 

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O MANIQUEÍSMO MIDIÁTICO EM TORNO DA SAÍDA DO SECRETÁRIO BELTRAME

14 de outubro de 2016     6 Comentários, deixe o seu

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Em meio a elogios e críticas à segurança do Rio, o secretário Beltrame deixa o cargo. No centro da polêmica, as UPPs, consideradas um sucesso por uns, e um fracasso por outros, revelando o doentio maniqueísmo de nossa sociedade. Dificilmente se encontra uma análise que busque sopesar pontos positivos e negativos.  É preciso perguntar: até aqui, houve mais avanços ou retrocessos? Qual era o real objetivo? As premissas que orientaram a concepção do projeto se revelaram falsas ou verdadeiras?  Convenhamos: respostas a perguntas como essas não podem limitar-se ao terreno opinativo.

Em postagem do blog de três anos atrás (12/06/2013) me referi a um tipo de maniqueísmo na diferença com que setores da mídia do Rio e de São Paulo abordavam os mesmos fatos da segurança. É o que, de novo, se observa com relação à gestão de Beltrame e às UPPs. Vamos, primeiro, aos dados atuais:

Leio em manchete do jornal O Globo (12/10): “De saída, Beltrame diz que UPPs ainda são desafio /Roberto Sá assumirá o cargo e pretende reforçar policiamento nas ruas / Secretário de Segurança que implantou política de pacificação no estado há quase dez anos diz acreditar que projeto terá continuidade porque homicídios caíram e moradores aprovam o programa.”       

Em página interna, um gráfico baseado em dados do ISP, encimado por foto do secretário, mostra a queda de 51,3% dos homicídios nos últimos 10 anos, fechando com a taxa de 25,4 por 100 mil habitantes em 2015, o que seria fruto do programa das UPPs.

Já na Folha (folha.uol, 13/10), na coluna de Marco Aurélio Canônico, lê-se: “Beltrame deixa segurança do Rio com sensação de ter enxugado gelo / RIO DE JANEIRO O mais longevo dos enxugadores de gelo do Rio despede-se da função nesta semana. José Mariano Beltrame [..] deixa o cargo vendo a maior marca de sua gestão, as Unidades de Polícia Pacificadora, desmoronar.”

E em Veja (Veja.com, 11/10), coluna de Reinaldo Azevedo, lê-se: “Sub de Beltrame vai substituí-lo. Resolve? Depende! / Se a política de segurança pública for a mesma, tudo fica como está”. E segue Reinaldo, em meio a críticas mordazes: “Quem ocupará a pasta será Antônio Roberto Cesário de Sá, que também é delegado da Polícia Federal, como Beltrame. Mas ele tem outra experiência que pode ser importante para o cargo: foi policial militar. […] chegou a tenente-coronel. […] Estão usando só a tática do fusível queimado. Deu problema, veio a sobrecarga, o fusível — Beltrame — queimou, e é preciso substituí-lo. […] Como diria Einstein, só os loucos repetem os mesmos procedimentos esperando obter resultados diferentes. Se o hoje subsecretário, logo titular, mantiver a política de Beltrame, colherá os mesmos resultados. E o Rio continuará a viver o bangue-bangue nosso de cada dia.

Sobre taxas, o que dizer do fato de a Folha de São Paulo, no início deste ano (27/01/16), ter trazido em manchete de capa, com foto do governador Alckmin e do então secretário do setor, matéria sobre a segurança no estado, com base em dados da Secretaria: “SP registra a menor taxa de homicídios em 20 anos” […] “O índice fechou em 8,73 casos por 100 mil habitantes”. 

Transcrevo, então, trecho da postagem de três anos atrás, mencionada acima, após o que acrescentarei breve conclusão:      

“SEGURANÇA PÚBLICA E MÍDIA. ““NÃO VIROU MANCHETE, ACONTECEU””. / Interessante a disputa travada ultimamente entre a mídia do Rio e a de São Paulo […]  Casos de violência no Rio viram manchete em São Paulo, e quase não aparecem na mídia do Rio, e casos de violência naquela cidade viram manchete no Rio, e quase não aparecem na mídia de lá. O problema é que, na briga do mar com o rochedo (mídia de lá e mídia de cá) quem sofre são os mariscos (moradores de lá e de cá), vítimas da sonegação da informação e de informações enganosas. […] Importante mesmo, nesse contexto, será procurar saber o que “NÃO VIROU MANCHETE” na mídia das duas cidades. Aí estará a verdade.” 

Concluo. Será que, no Rio, ninguém notou que a taxa de homicídios de São Paulo em 2015 fechou em 8,73 por 100 mil, quase três vezes menor do que os 25,4 do RJ? Mais: que, no mesmo período de 10 anos, as taxas de lá caíram 60,4%, uma queda 9,1% maior do que a do Rio?

O novo secretário, Roberto Sá, oriundo da PM, conhece bem os misteres da ordem pública, conceito amplo, que não se circunscreve ao conhecimento penal. Tem condições de reverter a situação em que a segurança do RJ se encontra.

——–

Nota. Como os dados, tanto do RJ quanto de SP, são oficiais, o que sempre desperta desconfiança, recomendo, a quem não leu, a leitura do livro How to lie with statistics, de HUFF, Darrell. Apesar do título, o livro ensina a como se proteger de manipulações estatísticas.

 

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PAZ

10 de outubro de 2016     4 Comentários, deixe o seu

(NOTA PRÉVIA. Dois anos depois, em função do aumento dos tiroteios e da matança do Rio (hoje, tiroteios e mortes na Zona Sul, no Pavão e Pavãozinho, entre Copacabana e Ipanema, republico postagem de 03/10/14. Na época, queria chamar a atenção da sociedade para o exercício de auto ilusão em que vivia, e vive…).

PAZ

Revólver pistola tiro
Tiro tiro tiroteio
Morreu não morreu caiu
Levantou atirou correu
Matou não matou fugiu
Ficou não ficou morreu

Pistola tiro fuzil
Bala bomba bandido
Escola tiroteio escola
Polícia tiro pistola
Devaneio tiroteio não viu
Enterro chorou sorriu
Revólver pistola tiro

Favela viela pistola
Fuzil tiro escola
Demônios anjos arcanjos
Guerra na santa cidade
Mas paz no campo santo…

 

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VIOLÊNCIA E RACISMO. A QUEM INTERESSA A MATANÇA?

30 de setembro de 2016     4 Comentários, deixe o seu

 

(NOTA PRÉVIA: Transcrevo artigo publicado no jornal O DIA de hoje, 30/09 (OPINIÃO Artigos, p.13), escrito a propósito do relançamento ontem, 29/09, do livro nele referido, na livraria da Eduff, em Niterói).   

 

A QUEM INTERESSA A MATANÇA?

Há 18 anos, quando lancei a primeira edição do meu livro ‘Violência e racismo no Rio de Janeiro’ (Eduff, 1998), o mito racial dava os últimos suspiros, mas questioná-lo ainda podia levar o questionador à prisão por “incitar ao ódio ou à discriminação racial”.

A internet não se havia expandido, ao contrário de hoje, quando o número de smartfones ultrapassa 150 milhões, e as redes sociais se multiplicam. Redes há, porém, que desenvolvem novas formas de intolerância. No caso dos negros, presume-se que isso se acentua como resposta às políticas de cotas, introduzidas no Brasil em 2004, na UERJ.             

Depois que, em 2012, o Supremo declarou-as constitucionais, elas se expandiram. Atualmente, mais de 30 universidades as adotam, a despeito de forte reação. Outro ponto. Desde 2003 vigora a Lei 10.639, que alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação para incluir nos currículos escolares a temática “História e Cultura Afro-Brasileira”. Mas a lei não decola…

Sintomaticamente, os que lutam por igualdade racial são chamados de “racialistas”; os defensores de direitos humanos, de defensores de bandidos; as hordas de “menores” pobres da “periferia” ― fora da escola e ou nas ruas ― deixam de ser questão social e, sim, problema de polícia, para o que seria preciso reduzir-lhes a maioridade penal e mandá-los para as prisões de adultos.

O quadro atual, portanto, autoriza-nos a sustentar que a violência do Rio e as formas concebidas para contê-la carregam viés discriminatório, pois vitimizam em escala moradores de favelas e periferia. Além de traficantes e jovens policiais mortos na espiral macabra da “guerra às drogas”, pessoas inocentes também morrem nos tiroteios. Crianças ficam sem aulas, tendo que adotar estratégias para não serem atingidas, como deitar no chão da sala.

Tudo sem contar o medo coletivo, no “asfalto”. Mais: dados oficiais mostram que jovens negros são vítimas de homicídios numa proporção de 2,5 para cada jovem branco, sendo razoável concluir que a premissa levantada há 18 anos provou-se válida. Daí, em proveito dos brasileiros de todas as “cores”, cumpre reconhecer que uma das saídas é fazer hoje o que se deixou de fazer há 128 anos, com a Abolição da Escravatura.

 

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“TEM QUE MUDAR O GOVERNO PARA ESTANCAR ESSA SANGRIA”

20 de setembro de 2016     2 Comentários, deixe o seu

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(NOTA PRÉVIA. A propósito dos últimos acontecimentos, republico postagem de 3 de junho último)

 

A QUASE IMPLOSÃO DA LAVA-JATO E A MORALIDADE SELETIVA

O que mobilizou a opinião pública para apoiar o impeachment foi a indignação com os escândalos de corrupção, na conta dos governos do PT. Diante do clima de indignação geral, a oposição não quis esperar que surgisse fato ligando diretamente a presidente Dilma a atos corruptos, ainda que sob a teoria do “domínio do fato”. Não. Havia pressa em apear a presidente, o que fez com que se recorresse às chamadas “pedaladas fiscais” (aliás, que nada tinham a ver com o motivo da revolta da população). Concluiu a oposição que bastava o deputado Eduardo Cunha acolher o pedido de abertura do processo de impeachment. Seguiu-se a admissibilidade por parte do Senado.

Paralelamente, a caneta do juiz Sérgio Moro continuava a deitar tinta forte. Opositores do governo, que até aquele ponto imaginavam que a caneta do magistrado era partidária (tinha atingido principalmente figurões do PT), começaram a entrar em pânico, pois as “delações premiadas” de empreiteiros, doleiros, executivos de empresas estatais e políticos caídos em desgraça começaram a atingir cabeças coroadas de outros partidos. O que fazer? Eminente senador, um dos articuladores do impeachment, e que viria a ser nomeado ministro do Planejamento no governo interino, foi taxativo em gravação sem o seu conhecimento: “Tem que mudar o governo para estancar essa sangria” […] Um acordo para delimitar onde está.”Traduzindo: mudar o governo para implodir a Lava Jato e escantear o juiz Moro.

E o povo iludido na sua boa fé, achando que o impeachment era contra a corrupção, pela moralidade pública, por patriotismo. Mais triste ainda é ver pessoas sérias, mesmo diante desse enredo vergonhoso, minimizando-o como algo sem maior importância. Como se desonestidade fosse apenas roubar dinheiro. Ao povo, enfim, só resta uma alternativa: com ou sem impeachment, unir-se na luta contra qualquer tentativa de implodir a Lava Jato ou mudar a caneta de mão.

junho 3rd, 2016

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