- Jorge Da Silva - http://www.jorgedasilva.blog.br -

AP2.1 – UMA NOVA “CIDADE”? (II)… “PRINCIPADO DE MÔNACO?”

 

 

Em “post” de 05/12/09, AP2.1 – OLIMPÍADAS NO RIO (V)… UMA NOVA CIDADE? (http://www.jorgedasilva.blog.br/?p=786 [1]), chamei a atenção para a necessidade de se aproveitar as Olimpíadas e promover a integração social do Rio de Janeiro, pois é notório que, lamentavelmente, esta ainda é uma cidade fragmentada, como, há 15 anos, demonstrou Zuenir Ventura. Exemplos: os altíssimos níveis de violência (reconhecidamente dos mais altos do mundo) e os crescentes antagonismos subjacentes à dicotomia “favela / asfalto”. E mencionei o fato de que, após a escolha da cidade como sede das Olimpíadas, acentuou-se a tendência de olhá-la como constituída apenas dos espaços da Zona Sul (AP2.1); e agora, também, da Barra da Tijuca.

 

Embora tenha feito breve referência ao significado da sigla AP2.1, alguns  leitores do “blog” ficaram na dúvida. Explico-me. Para efeito das políticas governamentais, o Município do Rio é dividido em cinco “Áreas de Planejamento” (APs), cada uma englobando um número determinado de Regiões Administrativas (RAs) e bairros. Assim, grosso modo:

 

AP1 – Centro e adjacências (população: 268.260);

AP2 – Zona Sul e região da Tijuca (população: 997.478);

AP3 – Subúrbio (Leopoldina): população: 2.353.590);

AP4 – Subúrbio (parte da Zona Oeste): população: 682.051);

AP5 – Subúrbio (parte extrema da Zona Oeste: população: 1.556.505).

                                                               Total da população (censo 2000): – 5.857.884

 

A AP2 é subdividida em AP2.1 (Zona Sul) e AP2.2 (Região da Tijuca e Vila Isabel), sendo importante salientar que a AP2.1, segundo dados do último censo, possui apenas 669.769 habitantes, contra os 5.188.115 das demais APs. Quando se percebe que, com vistas às Olimpíadas, as autoridades têm voltado sua atenção (e recursos públicos) prioritariamente para a AP2.1 e Barra, tento mostrar que isso tem o efeito colateral de acentuar a divisão social da Cidade, cuja história mostra que esse vezo elitista (o de empurrar os problemas para a periferia e encostas dos morros) responde por boa parte dos problemas de hoje. Uma espécie de efeito bumerangue da ausência de políticas que resultem de uma visão estratégica da evolução da cidade como um todo. Basta lembrar que as políticas inauguradas pela República (demolição dos cortiços, como o “Cabeça de Porco”, em 1893; o “Bota-Abaixo” do período 1903-1906; as remoções de favelas das décadas de 1950, 1960 e 1970), visavam tão-somente ao embelezamento do eixo Centro – Sul, sem que o destino dos deslocados fosse levado em conta. Que se ajeitassem por aí. Deu no que deu.          

 

Os temas do momento são violência e desordem urbana. De novo, há quem só pense nos velhos métodos (demolições, remoções, cercas, muros e invasões da polícia), sem se curvar à irracionalidade de imaginar ser possível transformar a AP2.1 numa espécie de “Principado de Mônaco”, no qual os indesejáveis não entrariam sem passaporte. A não ser que o principado fosse constituído por todas as APs da Cidade, ou melhor, que correspondesse ao território de todo o Estado…  

 

Se há que haver invasão das favelas, que seja na forma anunciada pelo Governo Federal com o PAC. Uma “invasão” diferente, na forma como imaginei  em livro há doze anos:

 

Uma ‘invasão’ de serviços em larga escala: arruamentos (com algumas vias bem amplas), água, esgoto, limpeza urbana, boas escolas, postos de saúde e hospitais, segurança (para os moradores, e não contra eles), transporte etc. É óbvio que um empreendimento desse porte teria o custo de alguns bilhões de dólares, e não somente os cerca de US$ 300 milhões previstos para o Projeto Favela Bairro […] não sendo tarefa da qual possa desincumbir-se o governo municipal ou estadual. Se a situação presente reflete, em grande medida, erros de projetos político-econômico-sociais de caráter nacional (do período colonial, do Império e da República), há que ser resolvido com o empenho da instância nacional”. (DA SILVA, Jorge. Violência e racismo no Rio de Janeiro. Niterói: Eduff, 1988, p.75).  

 

Óbvio que a AP2.1 merece todo o cuidado. Afinal de contas, é um marco destacado da cidade, patrimônio nacional. Porém, como alguém já disse, o equilíbrio está no meio, e não nos extremos.  

 

Se os moradores da AP2.1 se engajarem numa proposta como esta (pedir às autoridades, por um tempo, recursos e atenção para a periferia), a cidade será integrada logo logo. Com alguns bilhões de reais (dinheiro não falta), as AP2.2, AP3, AP4 e AP5 vão ficar um brinco, como se diz, e também vão orgulhar os moradores da AP2.1. E com menos violência.  

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