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Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

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UM MILHÃO DE MORTOS NO BRASIL. ARMAS OU PESQUISAS?  

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(NOTA PRÉVIA. Republico postagem abaixo, do último domingo, 28/08, em vista da continuidade da matança brasileira (de brasileiros…), em especial do RJ).

ARMAS OU PESQUISAS? UM MILHÃO DE MORTOS?

28 de agosto de 2016

Matéria de Época Negócios (16/08) revela que o ministro da Justiça criticou os investimentos em pesquisa na área da segurança pública. Lê-se ali: “Moraes defende menos pesquisa e mais ‘equipamentos bélicos’ em novo governo”. A afirmação foi feita na ‘Cidade da Polícia’, no Rio, o que empresta sentido ao que falou, devendo-se levar em conta ainda que o ministro, até recentemente, foi secretário da segurança de São Paulo, dirigente maior das polícias Civil e Militar. Talvez não falasse a mesma coisa a moradores da ‘Cidade de Deus’. A sua fala, portanto, guarda coerência com o pensamento da maioria dos profissionais do setor. Como se sabe, é conhecida a aversão dos policiais a estudos e pesquisas externos. Para os policiais, sobretudo os mais graduados, os acadêmicos, chamados de “policiólogos”, nada entendem do labor policial e só sabem criticar, uma crítica que fazem aos acadêmicos às vezes procedente.

Acontece que essa polarização estanca qualquer possibilidade de avanço ― em benefício, não desta ou daquela instituição, deste ou daquele governo, e sim da população. Ora, se os policiais têm aversão às pesquisas acadêmicas; se as próprias autoridades não as valorizam, corre-se o risco de cair no velho círculo vicioso, interminável, do “mais do mesmo”, como alguém já disse. Por que não fazer uso das pesquisas? Será que não têm utilidade?

É possível que o ministro tenha enfatizado a questão das armas em função das reclamações dos policiais (os bandidos armados de fuzis). Com experiência no setor, talvez também valorize os estudos sobre a polícia brasileira. De qualquer forma, não posso deixar de mencionar que a sua fala trouxe-me à mente a posição do governador Beto Richa, do Paraná, para quem, quando, em 2012, se pretendia exigir curso superior para o exercício policial, foi contra, tendo declarado à Rádio CBN: “Uma pessoa com curso superior muitas vezes não aceita cumprir ordens de um oficial ou um superior, uma patente maior”. Richa não queria um policial reflexivo. Por quê? As pesquisas também levam à reflexão…

Com relação a mais armas e equipamentos para a polícia, a proposta do  ministro conforma-se ao cenário de “guerra” atual (sem que se pense na mudança do cenário…). Mas não custa lembrar que a aposta nas armas, em que também apostam os traficantes e bandidos outros, mostra um quadro macabro, como revela o Mapa da violência 2016: homicídios por armas de fogo no Brasil:O país contava [2005] com um total de 15,2 milhões em mãos privadas:  • 6,8 milhões registradas; • 8,5 milhões não registradas; • dentre estas, 3,8 milhões em mãos criminosas.” […] “entre 1980 e 2014, morreram perto de 1 milhão de  pessoas (967.851), vítimas de disparo de algum tipo de arma de fogo.”  (p.12)

Bem, o ministro também falou que vai investir em “equipamentos para inteligência”. Quem viver, verá…

 

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8 comenários to “UM MILHÃO DE MORTOS NO BRASIL. ARMAS OU PESQUISAS?  ”

  1. Tema controvertido, de difícil consenso nesta sociedade caracterizada por forças centrífugas a espalharem seus segmentos segundo ideologias e dogmas que de unificadores nada têm, estamos longe da “humanidade comum” unida por um mesmo escopo. Nem digo difícil, prefiro dizer impossível buscar um consenso, já que as pesquisas do mundo acadêmico são reducionistas, assim como os “pesquisadores” são aqueles que a mídia seleciona segundo seus interesses ideológicos, ou seja, sempre os mesmos, o que faz com que a categoria policial, principalmente, desconfie de seus bons propósitos. Agora mesmo tivemos o exemplo de acadêmicos exaltando as UPPs por mero interesse ideológico, sem atentarem para alguma metodologia a sustentar seus efusivos discursos. Num clima tão assim desfavorável vale a opinião de quem ocupa o poder sempre e sempre, ficando de fora da discussão os que vivenciaram a atividade de segurança pública na teoria e na prática. Sobre a vivência, sugiro a leitura de Manuel Garcia Morente, professor de Filosofia, já de domínio público. A questão, como bem esclarece o mestre Jorge da Silva, que não costuma ser ouvido como o são alguns “especialistas” ideólogos da esquerda, resume-se a apontar o problema para ver se esses academicistas das palavras mortas, como os critica Tomazio Aguirre, decidam finalmente discutir a questão da segurança pública considerando o Direito Administrativo, a Teoria Geral da Administração, em especial ao Planejamento Organizacional e a Teoria de Sistemas, dentre outras ferramentas da TGA, para se chegar a uma possível solução distanciada dos “achismos” postos no mundo para tumultuar. É o que penso, caro mestre, respeitável especialista em segurança pública. Por sinal, o único que conheço!

  2. jorge disse:

    Caro compadre, como sempre, preciso e generoso. Você tem razão. Talvez a segurança pública seja a área que possui o maior número de “especialistas” do Brasil: economistas, jornalistas, cineastas, políticos, e por aí vai.

  3. ARTHUR disse:

    Em determinadas áreas,o poder coercitivo estatal se obriga a ser contingencial,devido à princípios de paridade das armas, questões jusnaturalísticas e soberania.

    Já em outras,o poder coercitivo estatal ,formula-se reativo. Haja vista que,
    o conceito de cidadania abrange contrair direitos e obrigações na vida civil.
    Embora, o poder estatal coercitivo,apresenta-se somente nos espaços públicos e em áreas de conurbação ,atua na defesa de territórios. Sendo de maior dificuldade ,devido pelo fato de que na ausência DE LIDE denota que a sociedade está com seus interesses ameaçados da mesma forma.

  4. Leila Maria Vasconcellos disse:

    Uma verdadeira tragédia coronel Jorge da Silva.
    O número de homicídios no Brasil é tão grande que fica fácil banalizá-lo.
    Não posso postar a música de Chico Buarque a coisa aqui está preta , pois com essa onda do todo politicamente correto ,posso ser execrada por meus pares. Ficaria assim a COISA POR AQUI ESTÁ TÉTRICA.
    Dois dias após sua postagem: Ivanir Linhares Fernandes Filho, de 49 anos, coronel da Polícia Militar, foi EXECUTADO a tiros na manhã de uma Quarta-Feira do dia 31 de agosto no município de Maricá .

  5. jorge disse:

    Pois é, cara Leila. Além do mais, o coronel Linhares, filho, era, para mim, como se fosse um parente, filho que era de um grande amigo. o coronel Linhares, pai.

  6. José Medina disse:

    Desde de 1500 a sociedade só responsabilizou a polícia, pela criminalidade, nunca os governos corruptos que criam todo esse distúrbio social, parece que povo não sabe porque não temos educação de qualidade, saúde, segurança, etc. porque o ministro quer apenas compra armas e porque existem obras faraônicas, privatizações, terceirizações, etc.?

  7. jorge disse:

    Elites irresponsáveis.

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