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Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

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OLIMPÍADAS NO RIO (V)

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 AP2.1 – UMA NOVA CIDADE?

 

Na seqüência de “posts” sobre as Olimpíadas de 2016 no Rio, tenho sustentado que as autoridades, em vez de aproveitarem a oportunidade para promover a integração social da “cidade partida”, como a viu Zuenir Ventura” há 15 anos, agem como se quisessem transformar a AP2.1* numa ilha à parte. Para demonstrar esse ponto, listei algumas evidências no “post” IV, em trecho que transcrevo:

 

 “…[…] tem-se dado prioridade a obras que vão beneficiar mais a Zona Sul e a Barra. […] o anúncio de se colocar “barreiras acústicas” de três metros de altura nas linhas Amarela e Vermelha para que, segundo o prefeito, o barulho não incomodasse os moradores das “comunidades” (sic). Não bastasse a sofreguidão com que as autoridades se movimentam para construir a linha Ipanema-Barra do metrô (enquanto os moradores dos subúrbios padecem horrores nos trens e estações da SuperVia), divulga-se que os estudos para a implantação do trem-bala ligando São Paulo ao Rio (custo: entre 18 e 34 bilhões de dólares), encontram-se bem adiantados”.

Agora é oficial: o Museu da Imagem e do Som será transferido da Praça XV para a Avenida Atlântica, em Copacabana. Ora, por que não para Madureira ou Vila Isabel, berços do samba e celeiros de renomados artistas?

Tijuca e Vila Isabel se transformaram em região conflagrada pela ação de facções criminosas. Tiroteios diários e mortes à luz do dia colocam os moradores em pânico. Há pouco mais de um mês, traficantes da área chegaram ao cúmulo da ousadia: abater um helicóptero da polícia, matando dois PMs. E continuam lá, impondo o terror inclusive no “asfalto”. Solução: instalar uma “Unidade Pacificadora” em Ipanema, no Morro Pavão-Pavãozinho-Cantagalo. E mais duas, prometidas para a Ladeira dos Tabajaras e o Morro dos Cabritos, também em Copacabana (e Lagoa). Quanto a estas últimas, o Sr. governador mandou um recado: “Já estou avisando para os traficantes irem embora para não haver mais problemas”. Pergunte-se: Irem embora para onde? Para os morros da Tijuca? Ou os do Alemão? Vão permanecer soltos?

Leio na coluna do Ancelmo (O Globo, 4 dez 09) que o governo do estado está contratando a empresa de consultoria do ex-prefeito de Nova Iorque, Rudolf Giuliani, com vistas à Copa do Mundo de 2014 e às Olimpíadas de 2016. Imagino que os especialistas da firma (e não o político Giuliani) vão aconselhar o governador e o prefeito a cuidarem da cidade como um todo, a fim de evitar o efeito bumerangue… De qualquer forma, há que perguntar: onde a empresa de Giuliani já realizou trabalho semelhante com sucesso? A matéria no Ancelmo nos dá conta de que, contratada para prestar serviços na Cidade do México por 4,3 milhões de dólares, não ajudou a mudar muita coisa. Na verdade, o “cacife” da empresa de Giuliani baseia-se na polêmica política de “Tolerância Zero” do ex-prefeito, a qual teria reduzido a criminalidade em Nova Iorque, o que sequer chega a ser meia verdade, como demonstrarei em “post” próximo. Adianto apenas, para reflexão, que lá, no período considerado, a criminalidade baixou nacionalmente. Mais: que Manhattan é uma ilha plana e que o Rio de Janeiro é uma cidade brasileira sui generis (mesmo para os padrões brasileiros) que em quase nada se parece com Nova Iorque. No fundo, vamos pagar a Giuliani para ele aprender.

Bem, retomando a idéia de que não podemos perder a oportunidade de promover a integração da Cidade (e desta com o seu entorno), e preocupado com as medidas que têm tido como foco prioritariamente a AP2.1, reitero a sugestão, para garantia da integração, de que o governador, o prefeito e o presidente do COB (e alguns empresários importantes, editores e colunistas dos principais veículos de comunicação) se mudem por um tempo da AP2.1 para a AP3, em especial para a Penha, Madureira ou Marechal Hermes.

* A AP2.1 (Área de Planejamento 2.1) inclui os seguintes bairros: Flamengo, Glória, Botafogo, Catete, Laranjeiras, Cosme Velho, Urca, Humaitá, Jardim Botânico, Leme, Lagoa, Copacabana, Gávea, Leblon, Ipanema, Rocinha, Vidigal, São Conrado. E possui uma população três vezes e meia menor do que a da AP3, por exemplo. (Sobre os bairros e a população das demais APs em que se divide o Município do Rio, ver o “post” IV, Integrar ou Apartar? (http://www.jorgedasilva.blog.br/?p=636).

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6 comenários to “OLIMPÍADAS NO RIO (V)”

  1. paulo fontes disse:

    Caro Coronel Jorge,
    Além das questões já colocadas, vejo com muita desconfiança a contratação do giuliani em 2009 para prestar serviços a futuro, qual seja em 2014 para a copa do mundo e 2016 para as olimpíadas.
    É no mínimo contrário aos princípios da conveniência,oportunidade e razoabilidade da administração pública,previstos na carta federal essa extemporânea contratação, por um governador que ainda vai disputar a reeleiçãoem 2010 e não sabe se será ou não eleito.
    O Ministério pÚBLICOTEM O DEVER DE EXIGIR EXPLICAÇÕES SOBRE ESSE CONTRATO!
    Saudações
    Paulo Fontes

  2. JÚLIO BRASIL disse:

    Gostei dos seus comentários em todos os aspectos. Esta nova fase do atual governo, ocupaçãode favelas através das UPP está muito longe de ser uma solução para a Segurança Pública. A política do confronto causou mais mortes do que redução dos crimes, com a inflexão para uma política de ocupação semelhante à política americana para o Iraque ou o Afeganistão, não vislumbro resultado diferente da desastrosa Guerra do Iarque!
    É notório que o pretendido pelo Governo do Estado é um cordão de isolamento que salvaguarde a Zona Sul e a Barra, áreas de turismo. Até porque o contingente para ocupar minimamente as áreas coflagradas seria de pelo menos uns 20.000 PMs, além dos atuais.
    Acho que contratar um “estranho” a realidade local é pagar atestado de inoperância, pois pelo pouco que já li sobre o tema: Segurança para o Rio já daria para catalogar em uma Enciclopédia.
    Existem profissionais sérios e competentes aqui que podem contribuir muito para minimizarmos o sofrimento do nosso povo.

  3. ROSÂNGELA SERAPHIM (ZANZA) disse:

    É muito lamentável o que o Estado do Rio de Janeiro esta passando, temos(não sei) um governador que foi e é a maior decepção que o Estado já teve e para provar isto esta trazendo de fora outro que pelo visto é muito parecido com o governador e o pior pagar com nosso dinheiro e assinando atestado de INCOPETÊNCIA. Me lembro muito bem da sua atuação nos governos passado, hoje Coronel Jorge, com a falta de segurança mudou ate nosso modo de viver, nossos filhos sofrem pois não podem ir a certos lugares até turísticos, até nossos parentes estamos deixando de fazer visitas, estamos trancados dentro de nossas próprias casas. Moro na Zona Oeste onde o abandono é muito grande, já sugeri que o governador o qual ninguém tem acesso à ele, que passasse um mês em cada bairro da Zona Norte, Leopoldina e Zona Oeste, ele não sabe a realidade do nosso Estado, sempre morou na Zona Sul, não sabe enfrentar dificuldade na vida.Falta pouco para ele dar lugar a outro Governador que com certeza pelo menos fazer voltar a nossa dignidade de sermos CARIOCAS. Gostaria muito que CABRAL nunca mais assumisse cargo político nenhum. E que seu comentário muito importante, faça com que as pessoas reflitam o que estamos passando.

  4. Paulo Roberto disse:

    As Olímpiadas do Rio não são verdadeiramente do “Rio”, mas, sim, da Zona Sul e Barra da Tijuca. Aliás, a “Cidade Maravilhosa” se reduz, cada vez mais, à algumas áreas determinadas: Zona Sul, Barra, partes do centro… Conversando com um casal de amigos meus que moram em Copacabana, descobri que eles jamais haviam saído deste eixo. Por que? Porque tinham medo. Confesso que, há uns dois anos atrás, quando estive na cerimônia de troca de comando do 16º BPM, me senti também bastante inseguro. Dois fatos principalmente me deixaram chocado: ver barricadas da Força Nacional em várias esquinas, com soldados apontando fuzis para as comunidades; e termos sido aconselhados a ir até o batalhão com a devida escolta, mas sem viaturas ostensivas ou policiais fardados.
    Me parece que a elite carioca vive a síndrome da negação. Fecha os olhos para a realidade, coloca um CD de Bossa-Nova, e finge que ainda está na Guanabara dos anos 50. “De frente pro mar, mas de costas pra Favela”. Eventualmente encontram a realidade num sinal de trânsito ou numa bala perdida. Infelizmente me parece que estes encontros tendem a ficar cada vez mais freqüentes, não importa quantas Olímpiadas ou Copas do Mundo possam haver aqui.

  5. Carol Peregrino disse:

    Caríssimo Cel.Jorge.
    Parabéns pelo texto.
    Goataria de todos os cariocas pudesem ler as suas reflexões. Como é impossivel isso acontecer, vou tratar de espalhar para aqueles que conheço essa sua, como sempre, brilhante reflexao.
    Grande abraço!

  6. Carol Peregrino disse:

    Caríssimo Cel.Jorge.
    Parabéns pelo texto.
    Goataria de todos os cariocas pudesem ler o que escreve. Como é impossivel isso acontecer, vou tratar de espalhar para aqueles que conheço essa sua, como sempre, brilhante reflexao.
    Grande abraço!

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