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Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

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LA VAI A “GENI”, SEM SAÚDE, AJUDAR A SAÚDE

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Lê-se em O Globo (18/12/15) que o governo do estado, diante da crise na saúde do RJ, convocou pessoal de saúde da PM e do CB para “ajudar no atendimento em hospitais”, e determinou que a PM disponibilizasse refeitórios de três batalhões para que médicos e enfermeiros civis possam fazer as refeições. Nas circunstâncias, a medida é compreensível, mas alguém poderá imaginar que o sistema de saúde da PM não apresente graves carências, objeto de reiteradas reclamações da tropa (sem contar os desvios que redundaram na recente prisão de vários oficiais superiores…). De qualquer forma, não há dúvida de que os PMs, da saúde ou não, se desdobrarão para ajudar; aliás, como sempre. Uma coincidência: no final do ano passado, publiquei postagem em que, uma vez mais, comparei a PM à “Geni” (perdoe-me Chico!), mas acrescentei que ela (a PM), às vezes, é usada como “Bombril”, para o bem ou para o mal…  Reproduzo, na íntegra, a postagem de um ano atrás. Aí vai:

A PM E O RÉVEILLON. A “GENI” TAMBÉM É BOMBRIL?

Em postagem de 1º/fev/14, referi crítica do prefeito de Porto Alegre à PM (Brigada Militar/RS). Ele culpava a Corporação pelas depredações de ônibus durante greve dos rodoviários. Além de cobrar mais segurança para a circulação dos ônibus, uma das soluções aventadas por ele, segundo o jornal Zero Hora, foi que os PMs atuassem como motoristas dos coletivos. Ameaçou, caso a PM não resolvesse o impasse, recorrer à Força Nacional, talvez sem saber que a referida Força é um contingente de PMs, inclusive do seu estado. Se considerarmos que, há vinte e tantos anos, um jornalista do Rio deu a ideia de se deslocar PMs para guardar os postes a fim de conter a onda de furtos de fios de cobre, dá para entender o devaneio do prefeito.

Réveillon.  Lê-se em chamada de capa de O Globo (30/12/14): “Copacabana: PM terá efetivo 33% maior na virada”. Grande esforço da PM, do que muitos não se dão conta – assim como não se dão conta do sacrifício dos PMs – para que o evento transcorra em tranquilidade. Tudo somado ao esforço de não descurar da segurança geral da cidade e do estado, o que, por óbvio, acaba reduzindo folgas. Matéria do jornal O Dia (29/12/14) pode dar ideia deste ponto: um sargento do 32º BPM (Macaé), ao ver a escala do Réveillon, algemou-se a uma pilastra da unidade em protesto (foto divulgada na mídia). Não quero entrar no mérito, pois meu ponto é outro; porém, militar que é, foi preso.

Geni e Bombril. Em postagens anteriores, já comparei a PM à Geni, aquela do Chico que, tendo salvado a cidade, voltou a apanhar e receber cusparadas; e já a comparei ao Bombril, o das “mil e uma utilidades”. Com efeito, apesar da desvalorização, lá estão a PM e os PMs de prontidão no réveillon (em diferentes cidades), nos dias de carnaval e nas eleições. Presentes na segurança dos torcedores, dentro e fora dos estádios. Se a população de rua e as cracolândias proliferam, chamam a PM; idem para lidar com “sem terra” e “sem teto”. Se é para “acabar” com o tráfico de drogas da ponta, mande-se a PM. Idem no caso de rebeliões em presídios, nos arrastões nas praias, nas greves, nas manifestações e protestos contra o aumento de passagens etc. Se é para garantir segurança nas escolas e universidades, há quem chame a PM. Enfim, antes de tudo isso, compete à PM policiar, durante as 24 horas do dia, os 365 dias do ano, chova ou faça sol, os bairros, as ruas, praças, vias expressas e outros logradouros públicos. E por aí vai. Em todo o Brasil.

PMs não brotam da terra. O devaneio do prefeito de POA e a sugestão do jornalista do furto de fios de cobre mostram que há quem acredite que PMs brotam da terra ou que seja possível realizar algo como “o milagre da multiplicação dos PMs”, o que é reforçado pelo afirmado no parágrafo acima. Não fosse isso, como entender que, por exemplo, quando os assaltos em ônibus aumentam numa cidade com milhões de habitantes, haja quem proponha colocar PMs fardados nos ônibus, viajando para cima e para baixo? E que, se o número de roubos e homicídios aumenta, pergunte: “cadê a PM?” E exclame: “Despreparados!” E tome cuspe.

Como tem sido há anos, a virada de Copacabana vai ser um sucesso. São 33% de PMs a mais. De onde eles saíram? Quem sabe, desta vez, incluam os PMs nos agradecimentos. Não só pelo Réveillon, mas pelos serviços que prestam o ano inteiro. Ninguém discordará de que os PMs são os trabalhadores brasileiros com a maior carga horária de trabalho, menos direitos e que mais correm riscos, tanto no serviço quanto na folga (sic). (dezembro 30th, 2014)

 

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9 comenários to “LA VAI A “GENI”, SEM SAÚDE, AJUDAR A SAÚDE”

  1. Emir Larangeira disse:

    Pior é que a briosa continua sem-vergonha. E como a briosa, como organização, age através das pessoas que a integram, sem-vergonha são as pessoas.

  2. Cel Wilton disse:

    O Marechal de Ferro Floriano Peixoto em seu leito presidencial de morte falou ao ser denominado Consolidador da República: ” Consolidador da República são as Forças Públicas (Policias Militares) que com suas leais ações em todo o território nacional protegeram e protegem a republica dia e noite”. Sei não caro Jorge, a continuar sendo tratado como somos, talvez fosse melhor ter consolidado o Império.

  3. jorge disse:

    Caro irmão Wilton,
    Na verdade, o problema é que o Brasil ainda não é uma República verdadeiramente. Se fosse, a PM não seria usada como é. como se fosse a Geni. Proclamemos a República!

  4. Adilson da Costa Azevedo disse:

    Caro Jorge,
    A PM é sem dúvida uma das melhores instituições públicas do país. As suas imperfeições e falhas representam um percentual aceitável em face da complexidade de suas atuações. No entanto, de vez em quando surgem idéias de uso da PM fora de suas funções ou que extrapolam a sua capacidade. Qual a sua gênese? Será porque o PM não é uma profissão com correspondência no mundo civil e assim ser uma espécie de “auxiliar de serviços gerais”? Será que é pela facilidade de seu uso imediato em face dos instrumentos que possui por ser organização militar, cuja obediência é facilitada pelas ameaças de prisões, transferências, inquéritos, conselhos etc? Será que é por não ter a tradição de uma PM do RS ou de Minas, que mesmo no regime militar não admitiram comando externo, tendo sido repelida com veemência aquela tentativa do prefeito citada na coluna? Será que se o governo dos Estados citados quisessem vender os seus QGs teriam a mesma reação pífia da PM do Rio de Janeiro? Será porque há dificuldades de formação de liderança interna na PM que não consegue força para resistir a essas incursões políticas? Conclui-se que do jeito que a PM vem sendo empregada sem reação, corre um grande risco dela tornar-se uma “Geni” por tradição.

  5. jorge disse:

    Caro Adilson,
    Concordo plenamente. Note que só as praças reagem.

  6. Maria Fátima Maria Fátima Sudbrack disse:

    Senhor professor e coronel Jorge da Silva,

    Sou Pós doutora medicina legal e antropologia forense Humana na University of Sheffield – UK , Deontologia e antropologia.
    Aos 55 anos, tenho eu, 28 anos como servidora pública.
    Como cidadã da Cidade do Rio de Janeiro , me sinto envergonhada com o noticiário policial , onde lemos que ” Máfia da Saúde: Empresários faturaram mais de R$ 147 milhões em esquema” dentre esses denunciados vários membros do alto escalão da instituição PMERJ .
    Se me permite ? ONDE ESTÃO TODAS GENIS ? Meu caro colega , “Se todos fossem iguais a você”?
    Na verdade , a corrupção que assola o país, como uma epidemia para a qual não existe nem remédio nem vacina. Abraços ! Bom Natal !

  7. José Medina disse:

    A PM e o povo para sobreviverem, têm, que criar lei, para incriminar agente público, que ficou rico por si só; principalmente a grande autoridade. A PM do Antigo Estado do Rio de Janeiro, quem chegasse de carro era investigado, era uma maravilha. No último debate para governador, um repórter perguntou sobre mortes de PMs, simplesmente o candidato respondeu, que se morrer 30, colocaria mais 30. Isso é um absurdo, parecendo um monstro, sem nenhuma sensibilidade humana: Também os corruptos não têm, família e nem Nação. Por isso estamos numa guerra sem fim.

  8. jorge disse:

    Concordo, Medina.

  9. jorge disse:

    Cara dra. Maria Fátima,
    Obrigado pelo comentário. De fato, a amiga tem razão. Sinto-me envergonhado de ver oficiais da cúpula da PMERJ envolvidos em escândalos.
    Fui da cúpula da PM (chefe do Estado-Maior Geral e ordenador de despesas). Difícil acreditar que tiveram coragem de praticar atos tão abomináveis. Atos que acabam dando razão aos que tratam a PM como a Geni.

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