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Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

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PRAIAS… E FUTEBOL, SAMBA E CARNAVAL (Republicação, de 21/05/2013)

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Com o bordão “Não se misture com essa gentalha, Tesouro”, a Dona Florinda do seriado “Chaves” recomenda ao filho Kiko que não se misture com os vizinhos da vila. Diz isso de forma arrogante e raivosa. Vem-me à mente a “Vila” do Rio de Janeiro, onde há Florindas e Kikos que, embora nutram o mesmo desprezo por seus vizinhos mais pobres, apresentam-se amistosos, fingindo desejar-lhes todo bem do mundo. Não se cansam de falar em confraternização e integração social, do que seriam exemplos o carnaval, o futebol e a praia.

O carnaval e as escolas de samba, de origem essencialmente portuguesa e africana, surgem realmente no seio popular, não se devendo esquecer, porém, de que nas primeiras décadas da República os foliões e os sambistas, procedentes em maioria dos morros e da periferia, foram alvos de implacável perseguição das “forças da ordem”.

O futebol, trazido da Inglaterra junto com o rugby por pessoas da elite, era praticado apenas por círculos dessa camada, até que, depois que os clubes de regatas do Rio o incorporaram, popularizou-se e se tornou paixão nacional, diferentemente do rugby (o da bola oval), que segue esporte amador.

A praia, “bem de uso comum do povo”, como reza a Constituição, é espaço acessível a qualquer cidadão, insuscetível de particularização ou apropriação privada. Tem sido igualmente decantada como espaço democrático, de união e de mistura social, se bem que a banda Ultraje a Rigor atrapalhou essa racionalização: “Nós vamos invadir a sua praia”. Lembram?

Na verdade, o carnaval e as escolas de samba não são mais tão populares como antes, bastando dizer que a maioria dos moradores das “comunidades” que abrigam as escolas está barrada no baile, com exceção do mestre-sala e porta-bandeira, de alguns passistas de samba no pé, dos integrantes da bateria e da ala das baianas. O carnaval e as escolas viraram negócio. E só…

O futebol vai deixando o seu lado popular, a não ser na várzea, de onde sai a maioria dos craques. O povão, aos poucos vai sendo barrado no baile dos estádios. Nem dentro nem fora, já que também o espaço externo passa a ter dono. Futebol é negócio…

Quanto à praia, ademais daquelas apropriadas em lugares aprazíveis e distantes, e do crescente loteamento da areia em praias de áreas nobres (exclusividade de quiosques, com puxadinhos, barracas etc.), não tardará que, em nome da ordem, alguém decida concretizar o sonho de cercá-las, cobrar ingressos e, finalmente, privatizá-las. Bastaria desafetá-las ou conseguir um parlamentar disposto a apresentar uma PEC para mudar a Constituição. A praia vira um grande negócio…

E o povo? Ora, o povo, o povo… Massa é massa, já diria Le Bon. E finalmente – amarga ironia –, as Florindas e Kikos da nossa “Vila” exibiriam de forma explícita o seu elitismo e o seu preconceito: “Não nos misturemos com essa gentalha!”. É o que está acontecendo. Como sempre.

PS 1.  Fico imaginando como seria viver numa cidade totalmente privatizada.

PS 2. Não sei por que estou dizendo essas coisas. Não sou pobre.

maio 21st, 2013

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5 comenários to “PRAIAS… E FUTEBOL, SAMBA E CARNAVAL (Republicação, de 21/05/2013)”

  1. José Medina disse:

    A cleptocracia ou crime organizado, privatiza tudo onde tem dinheiro e destrói toda a ideologia do povo, até mesmo o esporte e lazer e toda Nação.

  2. Caro coronel-professor-sociólogo-escritor e tudo-de-bom Jorge Da Silva, vejo que nessa questão (dos arrastões nos fins de semana nas praias do Rio) a Polícia Militar carioca tenta fazer uma prevenção, mas, geralmente, fere os direitos constitucionais e humanos das pessoas.
    Agir preventivamente é papel institucional da PM; escolher quem pode ir à praia, é ferir a Constituição Federal. A PMRJ, novamente, fica numa linha tênue. Se se omitir, é criticada; se age, leva pau do mesmo jeito. Há de procurar um meio termo, ou o termo legal, conforme sugere a capa do jornal Extra desta quarta-feira (23/09): a Constituição Federal e o Código Penal Brasileiro.
    A situação de momento no Rio me faz lembrar dos ‘rolezinhos’, em que a polícia impedia jovens (e negros) de periferia irem aos famosos (mas dos brancos) shoppings centers pelos País afora.
    Estariam a Polícia e o Município do Rio iniciando uma “limpeza étnica” para preparar a cidade Maravilhosa para receber turistas brancos e de olhos azuis para os Jogos Olímpicos de 2016?
    Creio que desta vez Beltrame exagerou. A Constituição Federal tem de ser respeitada. Ela é de toso: Negros, pobres, brancos e ricos.

  3. jorge disse:

    Caro Elimar,
    O amigo tem razão. O que me preocupa é que a decisão não é da PM. Quando o próprio governo e as autoridades da segurança estimulam os PMs a agirem “a despeito da Lei”, estamos perdidos. Tenho pena dos PMs, pois as mesmas autoridades que os empurram para o desrespeito à Lei são as primeiras a tirar o corpo fora em caso de ações consideradas violentas, ajudando a execrar publicamente os policiais azarados. Covardes!

  4. Eron disse:

    Complicado. Que haja punição, dentro dos critérios legais, para aqueles que se deslocam até a praia com intuito de vandalizar. Mas daí retirar o cidadão dos ônibus com o pretexto que “são grupos com potencial de gerar vandalismo” é algo que gera discriminação. E a grande pergunta é, quem são essas pessoas e qual é o critério legal para as ações? Não querer que os mesmos cheguem até as praias da zona sul, é isso? Lamentável…

  5. jorge disse:

    Caro Eron,
    A África do Sul aboliu o Apartheid (a segregação dos negros). O Brasil (ou melhor, a sociedade carioca) quer implantá-lo de vez.

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