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Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

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DUNGA NÃO É AFRO

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Em entrevista, o técnico Dunga, nascido Carlos C. Bledorn Verri, reclamou das críticas que sofre: “Eu até acho que eu sou afrodescendente de tanto que apanho e gosto de apanhar. Os caras olham para mim e ‘Vamos bater nesse aí’, e começam a me bater, sem noção, sem nada. ‘Não gosto dele’, e começam a me bater.” Ante a repercussão negativa da afirmação, Dunga se desculpou em nota: “A maneira como me expressei não reflete os meus sentimentos e opiniões.”

A polêmica se instala, com a maioria das pessoas repudiando as suas declarações e algumas justificando as mesmas como gafe ou fruto da sua maneira de se expressar. E algumas outras execrando o cidadão Dunga a fim de posarem de antirracistas. De minha parte, não repudio nem justifico; apenas lamento. Lamento não as declarações, mas o fato de as coisas serem como são, pois Dunga verbalizou uma percepção (que não é só dele) do que significa ser afrodescendente no Brasil, apesar da estranha conclusão, sua, de que os afros gostam de apanhar. Na verdade, cutucou velha ferida, sem se dar conta de que o tema é proibido, tabu. Eis por que me recuso a entrar no coro dos que resolvem purgar a mazela nacional num único indivíduo. Ora, é óbvio que, no sentido em que o racismo é praticado entre nós, Dunga não é racista coisa alguma, o que já demonstrou ao longo de sua trajetória dentro e fora do campo.

Por linhas tortas, no entanto, Dunga oferece aos estudiosos da violência brasileira – física e simbólica – a oportunidade de reconhecer que o racismo institucional, estrutural (diferente de racismo individual, ou aberto) é marca forte da sociedade brasileira, não se compreendendo que os estudiosos e midiáticos consigam produzir milhares de análises sobre violência e crime abstraindo este fato. Pergunto: não seria o racismo estrutural, ‘percebido’ por Dunga, uma explicação para o fato de que, entre 2002 e 2012, o percentual de jovens brancos assassinados teve uma queda de 24,8%, e o de jovens negros (pretos + pardos do IBGE), uma subida de 38,7%? (Cf. Mapa da violência 2014: os jovens do Brasil).

 

 

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2 comenários to “DUNGA NÃO É AFRO”

  1. Adilson da Costa Azevedo disse:

    Caro Jorge

    O Tim Maia disse que no Brasil cafetão tinha ciúmes, prostituta se apaixonava e pobre era de direita. Podemos acrescentar essa lista para dizer que no país tem racismo, porém, não tem racistas.

  2. jorge disse:

    E acrescento: tem discriminação racial mas ninguém diz que foi discriminado.

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