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Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

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PARA NÃO ESQUECER.: FORÇAS ARMADAS, A VIOLÊNCIA E O PAPEL DO ‘ESTABLISHMENT’

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Parece obsessão.  Desde sempre, setores do establishment do Rio de Janeiro (conjunto dos poderes econômico, midiático, cultural e da área pública), vivem pensando nas Forças Armadas como solução para “acabar” com a violência do Rio. Simples. Em alguns momentos, pediram intervenção federal na segurança e decretação pelo presidente da República de Estado de Defesa na cidade.

Embora, a despeito de todo empenho da polícia, se continue a assistir à escalada da violência e à expansão das facções do mercado das drogas (sim, mercado…) e ao domínio de milícias; embora a espiral de vítimas de balas perdidas em tiroteios não pare de subir (só neste mês de janeiro, foram 32 casos, como registra O Globo, 31/01/2015); embora o crescente número de policiais assassinados tenha virado rotina, e as cifras de roubos (assaltos) aumentem de forma exponencial, com o medo coletivo chegando ao paroxismo, o establishment continua a insistir em mais do mesmo, como se as políticas antidrogas e de segurança não precisassem de alteração. Faltaria apenas o emprego maciço do Exército. Nem pensar em políticas alternativas à “guerra às drogas”. Ora, a quem interessa a continuidade dessa “guerra”? Vamos pensar nisso.

Para refrescar a memória, e para alertar os mais jovens.

Em novembro de 1994 desencadeou-se no Rio de Janeiro a chamada Operação Rio, em duas etapas, I e II (emprego das Forças Armadas contra a criminalidade), num “arranjo” entre o Governo Federal e o do Estado, pois não foi decretado Estado de Defesa nem intervenção federal. (Aliás, como o atual emprego no Complexo da Maré, que não acabou com o tráfico ali, e onde um jovem cabo do Exército foi morto por traficantes).

Os acontecimentos que antecederam e que marcaram as Operações Rio I e II foram registrados pela mídia, com realce para o jornal O Globo (entre 02/09/94 a 30/06/95). A simples leitura de títulos de matérias então publicadas por esse veículo pode dar ideia do que se passou, o que é feito adiante. Fica claro que o establishment, por intermédio da mídia, adotou atitudes que correspondem a fases nítidas, desde o ‘apelo’ inicial’ e o ‘atiçamento’, passando pela ‘racionalização dos desacertos’ e chegando à ‘desilusão’, deduzida da retirada de pauta do assunto, sem explicação…

Abaixo, 36 títulos, parte dos oitenta comentados em texto que publiquei em 2003. A contextualização e o conteúdo das matérias encontram-se no referido texto (link ao final):

– 2 set 1994: – “Uê desafia a polícia”; 11 nov 94: “Militares entram em prontidão domingo”; – 18 nov 94: “Exército monta cerco ao Rio”; 19 nov 94: “Exército bloqueia o tráfico em cinco favelas”; – 20 nov 94: “Traficante resiste e fere soldado” / “Mangueira e Dendê ocupados” / “Fuzileiros entram em ação”; – 21 nov 94: “Tráfico da Mangueira comemora saída do Exército com foguetório”./ “Exército prende 19 mas encontra pouca droga”; – 23 nov 94: “General diz que comando do tráfico está em Miami”; – 24 nov 94: “CNBB defende ação do Exército” / “Objetivo dos militares é evitar o ´Cartel do Rio´ “; – 25 nov 94: “Exército cerca Complexo do Alemão” / “Comando decide não revistar mais crianças”; – 26 nov 94: “Exército ocupa o Morro do Borel” / “General Senna lidera 2 mil soldados no combate ao tráfico no morro mais violento do Rio” / “Comandante militar escapa de ser baleado durante o cerco”; – 27 nov 94: “Exército impõe toque de recolher e leva bandeira do Brasil ao Borel”; – 1º jan 95:“Exército fará obras sociais nas favelas do Rio”; – 27 jan 95: “PM ganha reforço de 705 soldados do Exército”;  – 1º fev 95: “PM usará estratégia das Forças Armadas”; – 21 fev 95: “Exército voltará às ruas do Rio”; – 22 fev 95: “Exército vai patrulhar áreas turísticas, túneis e bancos”; – 24 fev 95: “Militares estão de volta às ruas do Rio com 32 patrulhas”; – 3 mar 95: “Exército caçará matadores de policiais”; – 4 mar 95: “Exército voltará a ocupar morros”; – 19 mar 95: “Marcello pode usar o estado de defesa contra a violência”;  – 24 mar 95: “General garante volta do Exército às ruas”; – 26 mar 95: “Polícia Federal vai ajudar o Exército na Operação Rio II” – 28 mar 95: “Exército põe 1.200 homens de prontidão”; – 30 mar 95: “Forças Armadas vão patrulhar também o interior do estado”; – 31 mar 95: “Exército pede tempo para mobilizar tropa”; – 3 abril 95: “Traficantes atiram dentro de área da Aeronáutica”; – 4 abril 95: “Exército está nas ruas”; – 5 abril 95: “Marinha e Aeronáutica entrarão em ação”; – 6 abril 95: “Exército fará ação social nos morros”; – 17 abril 95:“Exército vigia praias e Maracanã no Domingo”; – 25 abril 95: “General: Violência chegou ao máximo” / “Para Marcello, Exército na praia foi ´escorregão´”; – 27 abril 95: “César diz que o Rio enfrenta Guerra Civil”; – 29 abril 95: “Operação Rio II tem seu primeiro grande confronto com o crime”, / “Vaia no Exército expõe preconceito social dos banhistas”; – 3 maio 95: “Cardeal pede a militares reunião sobre segurança”; – 5 maio 95: “Grande Rio tem 27 mortos numa só noite”; – 9 maio 95: “Polícia enfrenta tráfico e mata 14”; – 15 maio 95: “Número de PMs mortos no estado já chega a 45 este ano”; – 14 jun 95: “Apreendidas três toneladas de maconha em favela”; – 21 jun 95: “Refugiados invadem casa de cardeal e fazem dois reféns”; –  30 jun 95: “Exército ajuda fiscais a interditar depósito ilegal de camelôs”.

E daí?

Uma pergunta: Por que, hoje, o establishment não pede intervenção federal na segurança pública e decretação de Estado de Defesa no Rio?…

Link do texto acima referido: http://www.jorgedasilva.com.br/artigo/52/antes-da-rio+20.-para-nao-esquecer-o-papel-da-midia-na-operacao-rio/).

 

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