- Jorge Da Silva - http://www.jorgedasilva.blog.br -

CARTA ABERTA A HILDEGARD ANGEL

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Cara jornalista Hildegard Angel,

Não acreditei quando me contaram que a senhora apresentou sugestões estranhas no seu blog para conter arrastões nas praias da Zona Sul. Fui conferir. Era verdade: – “diminuir drasticamente a circulação das linhas de ônibus e de Metrô no fluxo Zona Norte – Zona Sul”; -“caso essa providência não alcance resultado, partir para um plano B radical: cobrar entrada nas praias de Leme, Copacabana, Ipanema, Leblon” […] “Preços módicos, naturalmente”. 

Dia desses, outra colunista, Danuza Leão, mostrava-se desiludida: “Ir a Nova York já teve sua graça, mas agora, o porteiro do prédio também pode ir, então qual a graça?”. E ainda outra, a jornalista Silvia Pilz, a qual, patroa de domésticas, mostrou desdém a pobres em seu blog no Globo, a pretexto de fazer graça.

Cara jornalista, não fiz caso das suas duas colegas, pois estou acostumado com discriminação partida de pessoas sem maior compromisso social. Porém, para mim, o sobrenome Angel está associado à luta pela democracia e pela igualdade. Soou-me como uma traição à memória da família. De qualquer forma, fiquei imaginando o que poderia tê-la levado ao que considero um ato falho. Certamente, a senhora não escreveu o ‘post’ atinando para o fato de que o mesmo poderia ser lido pelos círculos sociais a que pertencem as “hordas e hordas de jovens assaltantes e arruaceiros”, as quais, parece a sua conclusão, seriam procedentes da Zona Norte. Deve ter escrito e publicado o texto pensando no círculo de leitores do seu blog, que imaginava ser constituído apenas por moradores da “orla”. Erro de cálculo, sobretudo partido de uma figura pública, sem contar que algum infiltrado no seu blog poderia vazar para outros círculos o que não era para ser vazado.

Cara Hildegard Angel, todos sabemos que há grande diferença entre o que se conversa em privado no restaurante, em casa ou no clube e o que se deve afirmar publicamente. Em público, faça como a maioria dos que pensam como a senhora: finja que respeita o pobre. Melhor ainda, que gosta de pobre. Diga que foi mal interpretada; que não queria dizer o que disse; que sabe muito bem que as praias são “bens de uso comum do povo”, como estabelecem a Constituição e o Código Civil.

Perdoe-me a comparação, mas a leitura do seu texto trouxe-me à lembrança os bantustões da África do Sul e os ‘passes’ que os negros deviam portar para circular em Joanesburgo ou na Cidade do Cabo nos tempos do apartheid formal. Pense nisso.

Ainda bem que ninguém, tocado pelo seu texto, veio com a ideia de chamar forças federais para atuar nas praias contra os arrastões…

Em tempo: A propósito de arrastões, refiro pequeno conto publicado há vinte anos, “Arrastão em Ipacabana”. Link: http://www.jorgedasilva.com.br/conto/6/arrastao-em-ipacabana/ [1]

Obs. Não moro na Zona Sul.

Att.

Jorge da Silva