- Jorge Da Silva - http://www.jorgedasilva.blog.br -

OLIMPÍADAS NO RIO. OPORTUNIDADE DE INTEGRAÇÃO SOCIAL IV

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INTEGRAR OU APARTAR?

No “post” do dia 12 de outubro, sugeri, com vistas a garantir a integração social do Rio de Janeiro, que o governador, o prefeito e o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro – COB se mudassem, respectivamente, do Leblon para a Penha, da Barra (ou da Gávea Pequena) para Madureira, e do Leblon para Marechal Hermes. Pelo menos até 2015. Reitero a sugestão, pois tudo indica que vamos perder a oportunidade de promover a integração da “cidade partida”, como se prometeu ao Comitê Olímpico Internacional – COI. Nos três “posts” anteriores, falei do ato falho de Gabeira, quando, em campanha na Zona Oeste, disse que o prefeito (ele, se eleito) não ia morar apenas no Rio. Mencionei o fato de que, passados os primeiros momentos, tem-se dado prioridade a obras que vão beneficiar mais a Zona Sul e a Barra. Falei do anúncio, após a escolha do Rio como sede, de se colocar “barreiras acústicas” de três metros de altura nas linhas Amarela e Vermelha para que, segundo o prefeito, o barulho não incomodasse os moradores das “comunidades” (sic).

Não bastasse a sofreguidão com que as autoridades se movimentam para construir a linha Ipanema-Barra do metrô (enquanto os moradores dos subúrbios padecem horrores nos trens e estações da SuperVia), divulga-se que os estudos para a implantação do trem-bala ligando São Paulo ao Rio (custo: entre 18 e 34 bilhões de dólares), encontram-se bem adiantados.

O problema é que muitos, como pareceu ser o caso de Gabeira, não sabem como se distribui a população do Rio de Janeiro (dados do IPP, com base no censo 2000); que a cidade foi dividida em cinco “áreas de planejamento” (APs), englobando um número xis de RAs, a saber:
AP1 – Portuária, Centro, Rio Comprido, São Cristóvão, Santa Tereza (população: 268.260):
AP2.1 – Botafogo; Copacabana; Leblon; Rocinha (população: 669.769):
AP2.2 – Tijuca , Vila Isabel (população: 327.709);
AP3 – Ilha do Governador; Vigário Geral; Penha; Ramos; Complexo do Alemão; Maré, Méier; Inhaúma, Irajá; Pavuna; Madureira; Anchieta (população: 2.353.590):
AP4 – Jacarepaguá; Recreio; Cidade de Deus; Barra da Tijuca; Freguesia (população: (682.051):
AP5 – Bangu; Realengo, Campo Grande; Senador Vasconcelos; Guaratiba (população: 1.556.505). Total: – 5.857.884

Se os que residem na AP2.1 levassem em conta que a mesma só possuía 669.769 moradores; e que as AP3 e AP5 somavam 3.910.095; e que na população da AP2.1 estão incluídos os moradores das comunidades da Rocinha, Vidigal, Pavão-Pavãozinho-Cantagalo, Chapéu Mangueira, Babilônia, Santa Marta e Tabajaras, talvez admitissem que boa parte de nossas dores é efeito bumerangue da lógica ”farinha-pouca-meu-pirão-primeiro”.

Quando falo em integração social, penso na violência que assola a cidade há mais de 20 anos e no abandono a que foram relegados os bairros das áreas consideradas não-nobres, sobretudo os das AP3 e AP5. E me preocupo com a fórmula escolhida para oferecer segurança e tranqüilidade à população: confronto armado e ocupação policial, com a transformação das favelas em Teatro de Operações (T.O., no jargão militar). Ora, uma coisa é o necessário rigor com que se deve reprimir traficantes e assaltantes; outra é atribuir-lhes a culpa de todas as nossas dores. Reducionismo conveniente, mas inconseqüente.

Em tempo: a integração estaria mais garantida ainda se alguns empresários importantes, editores e colunistas dos principais veículos de comunicação se mudassem da AP2.1 para a AP3. Quanto aos investimentos, sugiro deixar para um segundo momento o metrô Ipanema-Barra e o trem-bala (chega de bala!). Com o investimento da metade desses recursos na infraestrutura de transportes (com prioridade para os subúrbios!…), a cidade ficaria mais harmoniosa. Ia ficar um brinco.

É só admitir que a integração atende muito mais aos interesses dos moradores da AP2.1 do que aos dos moradores das demais áreas da cidade. Ou continuemos com a lógica do “farinha-pouca-meu-pirão-primeiro”. Mas sem esquecer do colete a prova de balas.

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