- Jorge Da Silva - http://www.jorgedasilva.blog.br -

UMA NEGRA NA TRIPULAÇÃO

. (NOTA PRÉVIA. Post editado e atualizado em 13 out 09 )

Meados da década de 1970. Ao entrar num avião de empresa norte-americana, o negro brasileiro é acometido de um tipo interessante de estranhamento: na tripulação havia negros e negras. Estranhou porque jamais vira alguém de sua cor trabalhando em avião de empresa brasileira. “Natural”. Dali em diante ficou mais atento. Concluiu: No Brasil, por alguma razão, ser tripulante de avião comercial não era coisa para negros/as. Mais intrigado ficou depois de saber que os afro-americanos não passavam de 12% da população, percentual muito inferior aos cerca de 50% dos auto-declarados afro-brasileiros (há patrícios que detestam essa palavra…)

No Brasil eram tempos do discurso-dogma da “democracia racial”, do que muitos apresentavam provas cabais: “A empregada come na mesa com a gente”; “O meu maior amigo é um negro”; “Quem não gosta de uma mulata?”, e por aí afora. Januário Garcia costumava dizer: “Temos o racismo que deu certo”. Preto gozador! Nessa época, os negros (até então admitia-se que os houvesse no Brasil…) contavam com a solidariedade da maioria dos não-negros. Se, por exemplo, uma negra era barrada no elevador social, confundida com a empregada, armava-se o maior estardalhaço. Indignação de todos os lados, e da mídia. “Que absurdo!”, diriam. Todos contra o que Stokeley Carmichael chamou de “racismo individual”, ou “aberto”.

Julho de 2009. Pela primeira vez o passageiro negro entra num avião de empresa aérea de país da África subsahariana, a TAAG angolana, com destino a Luanda. Não devia estranhar, mas estranhou. Quase todos os tripulantes eram negros/as.

Setembro de 2009. De novo em viagem ao exterior, entrou num avião brasileiro. Não devia estranhar, mas estranhou. Uma negra na tripulação (negra, sim, e não uma parda-coringa: aqui, branca; ali, negra). Alvíssaras! Uma, ao menos; melhor do que nenhuma, ou nenhum.

Volta no tempo. Junho de 1999. O negro passageiro viaja em avião brasileiro com destino a Paris, na companhia de dois colegas acadêmicos brancos. Pergunta-lhes, dias depois, se tinham notado que ele era o único negro no avião. Não tinham. “Natural”.

Ainda setembro de 2009. De novo em viagem ao exterior (como viaja!…), entrou num avião de bandeira brasileira. Nenhuma negra na tripulação, ou negro… Nem ao menos uma, ou um… “Natural”.

Estados Unidos, Angola e Brasil. Bons exemplos da distinção entre o “racismo individual” e o “racismo institucional”, nas palavras de Carmichael. E acrescento um terceiro tipo: racismo estrutural. No país do Norte, a presença de negros/as na tripulação dos aviões se deve, em boa medida, às políticas de ação afirmativa lá adotadas desde a década de 1960. Em Angola, ao fato de os negros (pretos retintos e mestiços escuros) constituírem mais de 95% da população. No caso do Brasil, pergunte-se: a que se deveria a ausência de negros/as nos nossos aviões, o mesmo raciocínio valendo para inúmeros outros setores?

Tristeza. Muitos dos não-negros que se mostravam solidários aos negros (em casos de racismo individual), inclusive na Academia e na mídia, agora se colocam como adversários figadais, raivosos, da luta dos negros por igualdade institucional e estrutural. E ainda alegam que fazem isso para evitar o racismo no Brasil… Estranho. Triste; muito triste.

Obs. Sobre o conceito de Ação Afirmativa (não é o mesmo que cotas), ver http://www.jorgedasilva.com.br/artigo/21/acao-afirmativa,-o-que-e?-seria-o-mesmo-que-cotas?- [1]

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