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Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

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VIOLÊNCIA. CEM ANOS DEPOIS, ÍNDIOS E NEGROS TEIMAM EM NÃO “DESAPARECER” DO BRASIL

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Há exatos 103 anos, no Congresso Universal de Raças, realizado em Londres em 1911, o Dr. João Batista de Lacerda, então diretor do Museu Nacional e representante oficial brasileiro no conclave, vaticinou: As correntes de imigração europeia, que aumentam a cada dia e em maior grau o elemento branco desta população, terminarão, ao fim de certo tempo, por sufocar os elementos dentro dos quais poderiam persistir ainda alguns traços do negro”. Concluiu que, em 100 anos, a população seria representada, na maior parte, pela “raça branca”, e que “o negro e o índio” teriam “desaparecido desta parte da América”. A seu favor, cumpre assinalar que era pensamento recorrente entre os intelectuais.

Há catorze anos, em 22 de abril de 2000, o governo resolveu promover uma efeméride em Porto Seguro – mesmo sítio em que foi celebrada a primeira missa – para comemorar os 500 anos do “descobrimento”. Uma oportunidade de mostrar ao mundo que, embora os conceitos de raça e cor não tivessem influência na estrutura social do País, o Brasil seria uma “democracia racial”, incolor. Sem se darem conta da gritante contradição, os organizadores pensaram numa confraternização “racial”. Era só convidar um grupo de negros de boa vontade para, do palanque, dizer que não havia diferenças raciais/de cor no Brasil, e um grupo de indígenas a caráter, como no quadro de Víctor Meirelles, para mostrar como os índios continuavam integrados nestas plagas. A “fábula das três raças”, como diria Roberto Da Matta, seria encenada ao vivo. Ora, como puderam conceber a ideia de os índios se apresentarem como felizes “brasileiros”, 500 anos depois, para comemorar a dizimação dos seus povos e o seu etnocídio? Ao contrário, indígenas não convidados aproveitaram o acontecimento para protestar, desconsiderando o pedido do ministro Rafael Grecca dias antes, que apelara aos seus sentimentos “patrióticos” (sic). A “festa” foi um fiasco, com muita violência.

Há três dias, no coração da capital da República, indígenas em protesto contra a não demarcação de suas terras, empunhando arcos e flechas, unidos a manifestantes anti-Copa, entraram em confronto com a tropa de choque e a cavalaria. Um PM levou uma flechada na perna e dois índios teriam sido feridos. Para completar, um órgão da imprensa cai em armadilha técnico-jurídica: “Uma pessoa foi presa e um índio apreendido”. Tudo isso depois de um juiz federal afirmar que religião de matriz africana não é religião.

Se vivo estivesse, João Batista de Lacerda talvez culpasse os índios e os negros por teimarem em não “desaparecer”… Problema mesmo é que, como vimos, ainda há muitos seguidores seus por aí.

Com certeza, grande parte da violência vivida pela sociedade brasileira hoje deriva da intolerância com “os outros”. No caso dos protestos, nem pensar no seu conteúdo. O que importa é contê-los a qualquer custo. Virou lugar comum dizer: “Protestos em ordem, sim; vandalismo, não”, como se fosse algo trivial distinguir uma coisa da outra. Até o nosso Fenômeno caiu nessa: “Tem que baixar o cacete nesses vândalos”. Há que perguntar: os indígenas, com arcos e flechas, seriam vândalos? Tem que sentar o cacete neles? E também nos professores, nos garis, nos rodoviários, nos sem-terra? (Ô Ronaldo, não se esqueça das suas raízes…)

E já lá se vão mais de cem anos.

Que pena!

 

 

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8 comenários to “VIOLÊNCIA. CEM ANOS DEPOIS, ÍNDIOS E NEGROS TEIMAM EM NÃO “DESAPARECER” DO BRASIL”

  1. Paulo Xavier disse:

    Cel Jorge da Silva.
    Durante a realização da 8ª Bienal do Livro de Campos dos Goytacazes, o ilustre desembargador Siro Darlan abordou este tema “discriminação racial” onde citou que “infelizmente ainda existe discriminação racial num país que é filho da África”.
    Disse que “estamos jogando bananas às nossas crianças” e que numa adoção, “as crianças brancas são as preferidas”.
    O senhor e o desembargador Siro Darlan estão cobertos de razão! Paulo Xavier ex-PM

  2. Emir Larangeira disse:

    Caro mestre, dentro desta ótica a flechada tem de ser sempre gratuita? E se fosse no olho, levando à morte a vítima, como no passado?…

  3. jorge disse:

    Caro Larangeira,
    Meu ponto é outro. A narrativa da Nação é esquizofrênica. Se, como desejou o Dr. João Batista de Lacerda (representando a elite brasileira em Londres), não haveria mais índios nem negros no Brasil em 100 anos, como explicar a presença de centenas de pessoas (sic) com arcos e flechas enfrentando a tropa, no coração da capital da República? Seriam atores? Preocupo-me com o que ouço par aí. Querem que os índios deixem de ser índios, e que se comportem educadamente. Amigo, torço pelos índios.

  4. jorge disse:

    Caro Paulo Xavier,
    Nessa questão da discriminação, tem muita gente saindo do armário.

  5. Lenin disse:

    Rápido e nada rasteiro! Parabéns, meu amigo. Reflexão oportuna, como sempre!

  6. jorge disse:

    Caro Lenin,
    Obrigado. O que eu acho estranho é que esse fato desapareceu dos estudos acadêmicos. É preciso relembrar.

  7. Emir Larangeira disse:

    No caso em questão (da flechada na perna, em inegável agressão) e em todos os demais semelhantes, mesmo não sendo contra os índios, torço pelo PM.

  8. jorge disse:

    Caro Larangeira,
    Torço pelos indígenas na sua luta histórica, e não a favor deles contra os PMs ou quem quer que seja, nem a favor dos PMs contra os índios. Sou a favor dos PMs por outras razões. Meu ponto foi trazer à baila algo que a elite acadêmica brasileira tudo faz para esconder, ou seja, o projeto racista de Nação (sic), na forma explicitada em 1911 em Londres pelo principal representante da elite intelectual brasileira, o Dr. João Batista de Lacerda. Se você voltar à postagem verá que o projeto investia no “desaparecimento” de índios e negros em cem anos. Ironia: 103 anos depois, índios empunhando arcos e flechas em pleno coração da capital da República mostram o ridículo do projeto. E os negros também não desapareceram.

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