- Jorge Da Silva - http://www.jorgedasilva.blog.br -

SEGURANÇA NO “ESTADO PARTIDO”. FUSÃO, DESFUSÃO E REFUSÃO

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A antes pacata Niterói virou um pandemônio depois da migração para a Cidade Sorriso de traficantes de favelas em que foram implantadas UPPs no Rio. O prefeito de Niterói pede a presença das Forças Armadas também na cidade, não só na Maré. Prefeitos de outras cidades reclamam, sobretudo do esvaziamento dos efetivos policiais de seus municípios.

Há muito a violência criminal tornou-se problema crônico e agudo. As UPPs são mais um esforço de livrar “comunidades” pobres do jugo de traficantes de drogas. O governo tem contado com o apoio da maioria da população e, fundamentalmente, da mídia. Inobstante o apoio, não têm sido poucas as vozes chamando a atenção para algumas vulnerabilidades: falta de investimentos maciços em políticas sociais; ausência de outros serviços; expansão apressada para atender a pedidos políticos; policiais inexperientes; migração de bandidos e sua concentração em comunidades sem UPPs etc. Tudo obscurecido pela desproporcional luminosidade jogada nos aspectos positivos. Daí o descontrole e a ousadia dos bandidos em atacar bases da PM e matar policiais. (E agora, atacar militares das Forças Armadas).

Ora, favelas dominadas por traficantes há às centenas, em todas as grandes cidades do Estado. PMs têm morrido também na Baixada, Niterói, São Gonçalo e no interior, mas quase invisíveis.

A reclamação dos prefeitos e da população da “periferia” procede. Somente nos últimos dez anos, de 2004 a 2014 (dados de um mês atrás), enquanto o efetivo da PM aumentou, o do 12º BPM (Niterói, que também cobre Maricá), foi reduzido de 1.025 integrantes para 862; o do 21º BPM, São João de Meriti, reduzido de 470 para 406; o do 7º BPM, São Gonçalo (segunda cidade mais populosa do estado, com 1.025.507 habitantes), caiu de 735 para 650, inferior ao efetivo da UPP Rocinha. O efetivo do 8º BPM, Campos, caiu de 1.470 para 1.110. Tudo sem contar que, além dos efetivos dos BPMs e das unidades especiais com sede na cidade do Rio, esta conta com o reforço de 9 mil e tantos PMs das UPPs.

Dentre outras razões para o abissal hiato, releva destacar duas: primeira, a que, sem dúvida, está na raiz do problema: a fusão dos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro, ocorrida em 1975, e, não menos importante, o ethos sociocêntrico da elite carioca. Explico-me.

É sabido que a fusão não foi bem assimilada por setores dos dois lados. Em diferentes ocasiões, surgiram movimentos pela “desfusão”, como o “Autonomia Carioca”, com página na internet e tudo, ocorrido entre 2004 e 2005, e que contou com o apoio de centenas de pessoas ilustres, dentre as quais o importante jornalista Merval Pereira, colunista do jornal O Globo e comentarista da TV e do rádio, que chegou a falar em “Estado da Guanabara II”. Daí que, se a “desfusão” formal, oficial, não aconteceu, é preciso indagar se ela não ocorre de maneira informal, oficiosa, hipótese que aventei em postagem de 10/02/2010, “A ‘Desfusão’, na Prática” (Cf. http://www.jorgedasilva.blog.br/?p=1229 [1]). A Copa e as Olimpíadas caíram como uma luva.

O ethos da elite carioca é a recôndita razão para isso. Afinal, a cidade possui em seu DNA a condição de ter abrigado a nobreza de dois impérios, o português e o do Brasil, não sendo trivial o fato – que tudo fazemos para esquecer – de que foi centro do mais volumoso e duradouro regime escravista da história moderna no mundo (perto de quatro séculos). Mais: na República, como capital da mesma e Distrito Federal, nela tiveram assento presidente e prefeito nomeado. Mais: mudada a capital para Brasília em 1960, vira Estado da Guanabara, um estado-cidade. E logo se decide também que o novo estado terá um único município, Rio de Janeiro, com o prefeito inicialmente indicado pelo governador.

Faz sentido, portanto, certa confusão que fazem os governantes entre os misteres do Estado do Rio e da cidade do mesmo nome.