- Jorge Da Silva - http://www.jorgedasilva.blog.br -

EXÉRCITO NA MARÉ (IV): A naturalização da morte no Brasil, e dúvidas

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A morte de uma pessoa na Maré em confronto com os militares foi noticiada como sendo a primeira (O Dia, O Globo, Veja, Estadão). Na capa de O Globo deste domingo, por exemplo (13/04), lê-se: “Na Maré, o 1º morto em confronto com o Exército” / “Jefferson Rodrigues da Silva, de 18 anos, foi morto a tiros por militares na Maré. O Exército diz que o jovem atirou contra a patrulha ao ser abordado. Revoltados, moradores da favela fecharam a Linha Vermelha por alguns minutos.”

No interior da matéria (p. 30), outra informação chama a atenção: “Quatro militares da Força de Pacificação que participaram do confronto se apresentaram na 21ª DP (Bonsucesso) para prestar depoimento. Eles estavam escoltados pela Polícia do Exército”.

Bem, sobre a naturalização da morte, há que perguntar: por que “o 1º morto? Por que não se noticiou um morto? Esperam-se mais mortos? Trata-se de espanto, lamento ou o quê? De contagem regressiva, digo, progressiva?

Dúvidas. Se realmente, como noticiado nos jornais, ‘o jovem atirou contra a patrulha ao ser abordado’ por militares do Exército em missão da Força, em área sob controle militar, e morreu no confronto, a ação estaria legitimada. Se as coisas não se passaram exatamente assim, como alegam moradores, as apurações, da PC e do Exército, dirão. Em qualquer das hipóteses, no entanto, há que perguntar: trata-se ou não de assunto da esfera militar? E o decreto da presidente autorizando a atuação das Forças Armadas no espaço que contém a Maré? Pelo que saiu nos jornais, não foi decretado Estado de Defesa, como admitido pela Constituição, o que certamente evitaria dúvidas, sobretudo no que concerne às restrições de direitos constitucionais, e protegeria os militares. (Penitencio-me se estiver errado, pois não consegui acesso ao texto do decreto).

Bem, inocente ou bandido, morreu mais um brasileiro na flor da idade, numa “guerra” sem sentido.  Há quem ache pouco.