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Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

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PM. A GENI TAMBÉM É USADA COMO BOMBRIL

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IMPASSE na greve dos rodoviários de Porto Alegre. O prefeito tem criticado a PM (Brigada Militar/RS) por não estar, a seu juízo, reprimindo com rigor os piquetes e as depredações de ônibus pela cidade (mais de 20). Não entro no mérito, porém é curiosa a manchete do jornal Zero Hora de ontem (31/01/2014):

 “Prefeitura pedirá apoio a PMs para atuarem como motoristas de ônibus em Porto Alegre”

A proposta faz lembrar sugestão de comentarista midiático carioca há cerca de 30 anos, de se colocar PMs próximo aos postes de iluminação para evitar os frequentes roubos de fios de cobre. O prefeito de POA bate forte na Geni, mas quer utilizá-la como se fora aquele célebre produto “de mil e uma utilidades”. Os PMs substituiriam os motoristas, não estando claro se fariam isso fardados ou à paisana… Se à paisana, o prefeito certamente pedirá proteção da PM para os PMs feitos rodoviários ad hoc. E por aí vai, com a PM na berlinda.

Por igual, se se trata de garantir a segurança dos torcedores, dentro e fora dos estádios de futebol, mande-se a PM; se a população de rua e as cracolândias proliferam, que a PM suma com elas, de preferência com bombas de gás e balas de borracha; se se trata de “sem terra” ou “sem teto”, mande-se a PM para resolver o problema; se é para remover ocupações, posseiros e grileiros, idem; se é para “acabar” com o tráfico de drogas, mande-se a PM para as favelas, mas armada de fuzil; se é para “acabar” com rebeliões em presídios, idem; se é para impedir arrastões nas praias, que a PM vá de bicicleta ou triciclo, e os PMs de bermudas, mas armados; se é para ajudar em campanhas diversas, peça-se o apoio da PM; se é para reprimir manifestações de professores em greve, ou de bombeiros reivindicando melhores salários, que o governo mande a PM para impor a ordem; e se a manifestação for dos próprios PMs, chame-se a PM para reprimir os PMs. Se é para garantir a ordem em dia de eleição, mobilizem-se os PMs em prontidão geral; idem se é carnaval. Se é para garantir segurança nas escolas, mande-se a PM; se é para manter a ordem em manifestações e protestos contra aumento de passagens etc., mande-se a PM, mas com bombas de gás, de efeito moral e balas de borracha; se o problema são os rolezinhos em shoppings, chamem a PM para distinguir quem é quem. (E se, por acaso, os governos forem acusados de excessos ou de omissão, não há problema, é só atribuí-los à PM e aos PMs, e prometer punição exemplar). E pau neles: “Despreparados!” Se é para policiar as ruas, praças, vias expressas e outros logradouros públicos, cadê a PM para propiciar tranquilidade à população? Se os assaltos em ônibus aumentam, há quem pense em colocar PMs fardados viajando neles, como se PMs brotassem da terra. Se o número de assaltos e homicídios aumenta, onde estava a PM? E tome bosta na Geni!

O prefeito de POA afirma que se a PM não fizer a sua parte no caso da greve, recorrerá ao Governo Federal pedindo a Força Nacional. Ele parece não saber que a referida Força nada mais é do que a reunião episódica e eventual de PMs de diferentes estados, inclusive do RS. Força Nacional é PM.

O que, nesse contexto, causa espécie é o fato de a PM e os PMs virem assumindo candidamente o papel de Bombril, como se tivessem a obrigação de limpar a sujeira dos outros, que assistem de camarote à desqualificação da corporação e dos profissionais que mais trabalham e correm riscos no Brasil (sic). Pior, não reagirem quando lhes jogam bosta em cima ou lhes cospem na cara. Pior ainda: receber cusparadas e bosta dos que mais a usam.

Solução: acabar com a PM ou reconhecer o seu valor e democratizá-la?

…………

PS. Em postagem anterior, comparei a PM à Geni, e pedi desculpas a Chico Buarque pela comparação. Conferir em  http://www.jorgedasilva.blog.br/?s=geni

 

 

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7 comenários to “PM. A GENI TAMBÉM É USADA COMO BOMBRIL”

  1. Tania Coury disse:

    Sua comparação é perfeita.

    Infelizmente comparo a PMERJ a uma casa, sem laje e sem forro, onde o telhado está totalmente avariado, com telhas descasadas e rachadas. As colunas se esforçam para conter as paredes, úmidas e mofadas se esforçando para o teto não cair. O piso recebendo tudo de ruim que o telhado deixa passar além das lascas e excesso do mofo das paredes, está pisoteado, desgastado, sujo, feio.
    Por onde começar o conserto dessa casa, pelo piso?

  2. jorge disse:

    Cara Tânia, perfeita é a sua comparação. Concordo. É preciso consertar de cima para baixo.

  3. Atalla disse:

    Hoje, tenho uma visão diferente, quer seja pelas experiências adquiridas na profissão; na leitura de artigos produzidos por mestres como o nobre companheiro e, na leitura de alguns livros , que dissertam sobre a conjuntura atual. Acho que com esta base, me atrevo a dizer que tudo isso que estamos assistindo (não me chamem de louco- apenas cardiopata), tudo isso mesmo, faz parte ou compõem parcela de um planejamento global, no qual defenestrar a força de segurança que mais trabalha efetivamente contra o crime, atende um dos dos objetivo-meio para a implantação de uma revolução, na qual , traça mudanças radicais da sociedade, com enorme abrangência política , no concerto de muita nações. Perdoe-me a digressão, caro mestre, mas é o que eu sinto e não poderia me omitir, em expressar minha opinião, talvez e de certo modo incompreensível e nada pragmática, mas que faz um bem, enorme, ao meu combalido coração. É uma visão macro, onde está inserida, infelizmente uma corporação que muito amamos, apesar de seus muitos erros, cuja grande parcela para atender a influências da hora.

  4. jorge disse:

    Caro Atalla,
    É claro que a execração da PM tem objetivos inconfessáveis. Quanto mais fracas as instituições, melhor para os que simplesmente almejam o poder pelo poder.

  5. Adilson da Costa Azevedo disse:

    Caro Jorge,

    O PM não é visto como um profissional de segurança, sendo apenas empregado na atividade de segurança pública, o que é diferente. As lojas vendem coletes pretos com letras amarelas enormes escrito nas costas S E G U R A N Ç A. Esses coletes são usados por qualquer pessoa cujo requisito é ser grande ou/e forte. Esses “seguranças” “policiam” feiras, exposições, festas, solenidades etc. Dessa forma, em termos profissionais a imagem que passa não difere da PM, apenas um exerce uma atividade pública e o outro atividade privada de segurança. Ou seja, o senso comum é que qualquer pessoa pode exercer essa atividade, porque ser PM não é uma especialidade. Ninguém concordaria que o Estado pensasse em usar como motorista de ônibus professores, enfermeiros, funcionários da fazenda, agricultura etc. Todos essas profissões são bem demarcadas. Como não existe uma mìstica profissional na PM, fica indefinida a sua conceituação como profissão. Assim, a PM é usada como “bombril”, como já foi usada muitas vezes e continuará sendo usada. Essa não é a primeira vez que foi tentado o uso de PMs para motorista de ônibus. Isso o correu no Rio de Janeiro, há cerca de trinta anos, quando foi ventilada essa hipótese em greve de motoristas da antiga CTC. Também, o regime militar facilita o uso do PM como “bombril”, além do grande número de homens para emprego imediato. Enfim, essa é a minha visão sobre o assunto e aguardo a sua crítica e de outros intelectuais sobre o assunto.

  6. jorge disse:

    Caro Adilson,
    Você tem razão. E me fez lembrar do falso coronel do Exército na secretaria de Segurança. Chefiou oficiais PM, deu aulas, representou a secretaria (como se não fosse um coronel de mentirinha), e nenhum coronel PM notou que ele era um tremendo 171. Isto porque, como você diz, “ser PM não é uma especialidade”, de alto a baixo, com as exceções de praxe.

  7. Luiza Chermontt disse:

    Ai vai matéria de uma VERDADEIRA GENI Coronel Jorge da Silva
    http://odia.ig.com.br/noticia/rio-de-janeiro/2013-12-22/secretarios-da-seap-tem-salarios-que-chegam-a-r-37-mil-por-mes.html

    “Secretários da Seap têm salários que chegam a R$ 37 mil por mês
    No principal posto na hierarquia, o secretário César Rubens Monteiro de Carvalho recebe R$ 37,4 mil mensalmente”

    Folha- Estado de São Paulo- O Dia 22/12/2013

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