- Jorge Da Silva - http://www.jorgedasilva.blog.br -

HASTEAMENTO DA BANDEIRA. COMPLEXO DO LINS, OUTROS COMPLEXOS E O EQUILIBRISTA CHINÊS

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LINS. Domingo, 6 de outubro. Mais um “complexo de favelas” dominado por traficantes de drogas é ocupado pela PM, com hasteamento da Bandeira Nacional e tudo. Curiosamente, desde que, em 1994, o Exército hasteou a Bandeira do Brasil no alto do Morro do Borel para simbolizar a conquista do território ao inimigo, a PM resolveu imitá-lo. Tem repetido o ato, com solenidade e pompa, e com grande luminosidade jogada pela grande mídia de forma acrítica. Como se tratasse de uma guerra convencional contra um país inimigo, em que fosse necessário tomar posições estratégicas para ganhar a guerra. Foi assim em várias “comunidades”: no Lins, em Manguinhos, Rocinha, Borel (hasteamento de novo em 2010), Vidigal, Alemão, Penha, Andaraí, Cerro Corá, Jacarezinho. E haja complexos a merecer a “honraria”: Complexo da Covanca, de Antares e Rola, de São Carlos, Caju, Cidade Alta, Camará, Chapadão, Dezoito, e por aí vai. Tudo sem contar outros “complexos” críticos, igualmente dominados por traficantes, existentes em cidades da Região Metropolitana e mesmo do interior, obrigando a esforço sobre-humano a polícia do estado. Ocorre que mal um local crítico é ocupado, aparece outro, tão ou mais crítico, a demandar pronta intervenção da tropa, como aconteceu no caso do Lins, cuja ocupação para instalação de UPPs fez com que a ocupação da Maré (dez mortos em junho) fosse adiada para o ano que vem. Em suma: favelas e complexos demais.

Esse quadro faz lembrar o equilibrista chinês. Como se sabe, ele tem que correr para lá e para cá, a fim de manter todos os pratos girando. Não pode deixar nenhum cair e espatifar-se, pois isto redundaria no descontrole de toda a fileira de pratos. Se compararmos a tarefa do equilibrista chinês com o desafio colocado à polícia, esta parecerá aquele, correndo para lá e para cá. Então, com tantos complexos a ocupar e pacificar, antes de chegar ao último (se é que o número deles é finito) vários poderão ter caído, obrigando a começar tudo de novo, num processo interminável.

Será sempre assim, enquanto o modelo da chamada “guerra às drogas” for a ultima ratio no Brasil; enquanto o mercado de drogas consideradas ilícitas (sim, mercado) estiver fora do controle estatal; enquanto traficantes de todos os quilates e a indústria de armas continuarem enriquecendo com esse arranjo macabro, com gente morrendo como barata.

Há quem naturalize a situação, atribuindo o problema ao domínio de traficantes – assunto a ser resolvido pela polícia –, e não ao abandono histórico desses lugares e à sua inacreditável quantidade. Considerados outros fatos recentes, como os protestos nas ruas, é preciso pensar se o Brasil não entrou numa fase de ajustar contas com o seu passado…

PS. Já ia esquecendo: em face dos complexos de favelas conflagrados, os policiais acabam sendo acionados como se fossem bombeiros.