- Jorge Da Silva - http://www.jorgedasilva.blog.br -

O JUIZ, AS POLÍTICAS DE SEGURANÇA E O PM

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Preocupado com a violência estatal, o juiz João Damasceno, titular da 1ª Vara de Órfãos e Sucessões do TJ-RJ, inaugurou quadro em seu gabinete com uma gravura em que aparece um PM atirando de fuzil em um homem crucificado, como se fosse um militar romano atirando em Jesus Cristo (ver abaixo). A gravura é réplica da que foi publicada no jornal Extra, de autoria do cartunista Carlos Latuff. A decisão do magistrado de inaugurar o quadro em “um ato pela desmilitarização da política de segurança” provocou críticas, tanto por usar símbolo religioso quanto por menosprezar a PM. Reagindo, o juiz justificou-se, alegando tratar-se de uma metáfora: “o policial representa a violência praticada pelo estado”. Embora se reconheça que a militarização da segurança é um dos problemas dessa área, e que a polícia é a parte mais visível do sistema repressivo do estado, não se compreende tamanha simplificação, mesmo porque foi um juiz, e não um militar, quem sentenciou Cristo ao suplício na cruz. Nem por isso seria o caso de se trocar o uniforme do PM por uma toga, nem o fuzil por uma caneta, pois ficariam de fora o poder político e os setores que estimulam e legitimam a violência estatal, nos diferentes poderes e na sociedade civil. Aliás, este aspecto não passou ao largo da perspicácia do jornalista, que perguntou ao magistrado: A inauguração da imagem é uma crítica à política de segurança do governo do estado?. Estranhamente, o juiz Damasceno desconversou, voltando novamente o foco para a polícia. Aliás, tem sido assim no Brasil desde sempre. E é por essa razão que as coisas não mudam. Ou seja, em vez de se lutar contra a ideologia militarista que permeia a sociedade brasileira (a ideologia do confronto, da guerra, do inimigo…), prefere-se questionar unicamente a polícia. E fica tudo resolvido. Enfim, um jogo bem jogado… O que se lamenta é que pessoas esclarecidas não percebam que acabam, ainda que de boa fé, participando desse jogo.

PS. Dado curioso é que a gravura surgiu de uma conversa do magistrado com o cartunista.