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Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

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PASSAGENS DE ÔNIBUS, PROTESTOS E CORTINA DE FUMAÇA

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No início, as explicações sobre os protestos no País variaram bastante. Para uns, os manifestantes protestavam apenas contra o aumento das tarifas; para outros, contra os aportes bilionários de dinheiro público para obras de nenhum interesse da maioria da população, caso dos estádios de futebol, em contraste com a falta de investimentos em transporte de massa, em saúde, educação, saneamento etc. Na contramão, houve mesmo quem tentasse desqualificar o movimento, atribuindo as ações a grupos com motivação política ou a baderneiros sem causa. Aqui e ali, porém, surgia alguém falando em indignação com velhas mazelas nacionais.

Hoje está claro: o aumento das passagens nada mais foi do que o estopim de uma revolta “contra tudo”, como resumiu a Folha de São Paulo. O indício do sentimento coletivo foi notado na abertura da Copa das Confederações, no Mané Garrincha, quando a presidente Dilma foi vaiada junto com o presidente da FIFA Joseph Blatter. Este chegou ao cúmulo da arrogância ao passar um pito nos torcedores brasileiros.

Embora de forma difusa, as manifestações dão um claro recado à classe política, e lhe encomendam uma nova pauta, cujas prioridades não coincidem com as que têm sido perseguidas por ela.

O recado. O povo não aguenta mais tanta corrupção, sobretudo a dos poderosos (municipais, estaduais e federais, em diferentes instituições), e bem assim de poderosos empresariais, partícipes de esquemas de superfaturamentos, aditivos e que tais. O povo não aguenta mais a desfaçatez com que notórios vilões ostentam riqueza e poder, como a debochar de quem trabalha duro e sofre em alagados, em arremedos de hospitais, em escolas caindo aos pedaços.

A pauta. Tentando interpretar o divulgado na mídia, pode-se dizer que os manifestantes reprovam o fisiologismo e a forma como os parlamentos se movem, no interesse dos seus integrantes; pedem investimentos maciços em saúde, educação e nos sistemas de transporte de massa, e nenhum em trem-bala e obras faraônicas com financiamento público; que os recursos materiais e humanos do poder público sejam distribuídos de forma equânime, e não em função dos interesses particularistas das camadas com mais poder e voz na sociedade; que haja o fortalecimento das estruturas de combate à corrupção, para o que, por exemplo, os parlamentares devem retirar de pauta a PEC 37, a chamada PEC da Impunidade (a que retira do MP o poder de investigar a alta corrupção); que os Governos reduzam os gastos supérfluos e a máquina burocrática (o Governo Federal possui inacreditáveis 39 ministérios…); que se acabe com a possibilidade de, no Judiciário, seus integrantes receberem “atrasadinhos” de “auxílios” passados; que a luta contra a insegurança priorize o valor vida; que se cobre dos governantes, e não só da polícia, que esta seja empregada no marco dos direitos civis; que se diversifique o perfil da população carcerária. Etc.

As autoridades estão aturdidas. Não compreendem o motivo de a população não estar cumprindo o script que lhe estava prescrito. Como pode protestar contra uma coisa tão boa, “arenas” de futebol de primeiro mundo! Ora, o Brasil não é o país do futebol!?

Em síntese, os protestos são um grito por mudança. De uma sociedade autoritária, desigual e opaca para uma “sociedade decente”, como recomendaria Margalit. Esperemos que as autoridades, de todas as esferas e poderes, tenham entendido o recado, já que muitas delas, ao que parece, tinham a Copa e as Olimpíadas como uma cortina de fumaça, cortina que as redes sociais dissiparam.

 

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2 comenários to “PASSAGENS DE ÔNIBUS, PROTESTOS E CORTINA DE FUMAÇA”

  1. Carine disse:

    Os movimentos estão deixando um legado de suma importância para a sociedade. A “Primavera Ocidental” chegou com toda força, e finalmente os brasileiros abandonaram a inércia frente à insatisfação com a classe política. VIVA A DEMOCRACIA!!!

  2. jorge disse:

    Prezada Carine,
    É isso mesmo. Quem sabe, agora, a nossa classe política se toque.

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