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Jorge Da Silva √© cientista pol√≠tico. Doutor em Ci√™ncias Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecn√≥logo em Seguran√ßa P√ļblica (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alem√£o, no Rio, serviu antes √† PM, corpora√ß√£o em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi tamb√©m secret√°rio de Estado de Direitos Humanos/RJ. √Č vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibi√ß√£o)).

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DROGAS. MUDEI DE OPINIÃO

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Nos meus tempos de Pol√≠cia Militar, achava que os usu√°rios de drogas deveriam ser reprimidos com o mesmo rigor que os traficantes. J√° no final da carreira, tinha minhas d√ļvidas. Ora, por mais que os governos e a pol√≠cia se empenhassem (at√© as For√ßas Armadas foram empregadas no Rio de Janeiro), nada mudava, ou melhor, mudava para pior: mais traficantes, mais usu√°rios, mais tiroteios, mais mortes, mais comunidades subjugadas por ‚Äúcomandos‚ÄĚ, mais assaltos, mais ‚Äúbondes‚ÄĚ do mal em t√ļneis e vias expressas. Na verdade, o que faz√≠amos, ou melhor, o que fazemos n√£o passa de um constante ‚Äúenxugar gelo‚ÄĚ, express√£o que utilizei em texto que escrevi h√° mais de 15 anos.

Depois, confundindo usuários com dependentes, achei que os usuários necessitavam de cuidados médicos. Mais tarde, que só dependentes, e não usuários, careciam desses cuidados. Também sustentava que o álcool, que consumia e consumo, não era prejudicial se tomado com moderação, ao contrário da cocaína e da maconha, drogas que, para mim, eram coisas do demo, caminho inevitável para a degradação moral e mesmo para a morte.

Incomodavam-me as campanhas pela descriminaliza√ß√£o, legaliza√ß√£o etc., por dois motivos: primeiro, porque via nos discursos p√ļblicos dos seus defensores um incentivo ao consumo; e, segundo, porque temia, em caso de a liberaliza√ß√£o efetivar-se, que houvesse uma corrida desenfreada √†s drogas. Ficava imaginando pessoas tomadas pelo v√≠cio, tr√īpegas, olhos vermelhos, ca√≠das pelas cal√ßadas (ali√°s, como vemos muitos dependentes do √°lcool…).

Nas campanhas antidrogas, n√£o entendia que, ao mesmo tempo em que se falava em caminho sem volta, apresentavam-se pessoas que tinham, como diz o chav√£o, chegado ao fundo do po√ßo, mas que de l√° tinham voltado, tornando-se pessoas produtivas, exemplos de cidadania. Ora, concluiria um jovem usu√°rio: ‚ÄúSe √© assim, quando eu quiser, paro‚ÄĚ.

Chegam notícias de que em vários países, inclusive num dos mais repressivistas deles, os Estados Unidos, tem havido descriminalização do consumo, sobretudo da maconha, isentando de pena o usuário. E um dos meus temores diminuiu quando soube do que aconteceu em Portugal.

Em 2001, depois de muita polêmica, o parlamento português aprovou lei que descriminalizou o consumo e a posse para uso próprio de pequenas quantidades, não só de maconha, mas de todas as drogas. Como era de se esperar, houve protestos de toda parte, a maioria das pessoas acreditando que o consumo aumentaria de forma exponencial e que Portugal se transformaria num centro de viciados de toda a Europa.

N√£o foi o que aconteceu. Estudos recentes, inclusive do Escrit√≥rio de Drogas e Crime das Na√ß√Ķes Unidas (UNODC) revelaram que o consumo de maconha e coca√≠na diminuiu, sobretudo entre os jovens, e que o temor de que o Pa√≠s se transformaria num para√≠so das drogas era um exagero.

Tendo em vista que o objetivo da governan√ßa global com a ‚Äúguerra √†s drogas‚ÄĚ era chegar a um ‚Äúmundo sem drogas, e que esse objetivo, antes de ser uma utopia, √© redonda insensatez; e tendo em vista ainda os danos sociais resultantes da ‚Äúguerra‚ÄĚ, mudei de ideia em rela√ß√£o aos meus tempos de PM (j√° no final da carreira tinha minhas d√ļvidas): as drogas psicoativas (il√≠citas e l√≠citas) s√£o uma quest√£o social importante, e n√£o ‚Äúcaso de pol√≠cia‚ÄĚ. Para come√ßar, fa√ßo coro com aqueles que, no Brasil, advogam em favor da descriminaliza√ß√£o do uso da maconha. Por√©m, por que n√£o estudar melhor o modelo portugu√™s?

Bem, e o que colocar no lugar da repressão? Prefiro uma combinação de educação, família, valores e tratamento para quem o desejar.

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5 comenários to “DROGAS. MUDEI DE OPINI√ÉO”

  1. A sabedoria implica em evoluirmos e refazermos os nossos conceitos atrav√©s dos tempos. Compartilho desta id√©ia, pois como faz parte da sabedoria popular, “tudo que √© proibido √© mais excitante”. No caso das drogas, a proibi√ß√£o estimula o esp√≠rito transgressor dos jovens que, ao experimentarem se exp√Ķe √† depend√™ncia gen√©tica. Com a descriminaliza√ß√£o das drogas para usu√°rios, aliados a maci√ßas campanhas educativas nas escolas e nos √≥rg√£os de comunica√ß√£o acredito que, como j√° acontece no caso do tabagismo, o seu consumo diminuira para n√≠veis suport√°veis.

  2. Bertha Milagrisse disse:

    Professor Jorge da Silva

    EU SOU CARETA!

    Devemos reconhecer formalmente a presen√ßa da coca√≠na no dia-a-dia dos brasileiros. O ex-governador de S√£o Paulo, Cl√°udio Lembo, fez isso ao afirmar que na bandeja da burguesia tem muita coca√≠na. Quem mant√©m o traficante, somos n√≥s. Quem p√Ķe dinheiro na m√£o de grupos criminosos, somos n√≥s.
    Est√° mais que na hora de nos assumirmos consumidores volunt√°rios da coca√≠na sul-americana. √Č o primeiro passo para enfrentarmos o crime organizado sem ter o rabo preso.
    A coca√≠na tem, no Brasil, um papel social consistente. √Č companhia em festas concorridas, reuni√Ķes entre amigos, eventos de moda, saraus liter√°rios, encontros informais ou formais.
    Negócios são acertados e trabalhos são conquistados em torno de bandejas de cocaína. Cheirar é um meio para conquistar pessoas, cargos, mercados ou clientes. Muito diferente do tratamento midiático que o hábito recebe.
    M√©dicos cheiram, jornalistas cheiram, cineastas cheiram, operadores de mercado de capitais cheiram, pol√≠ticos e atores tamb√©m, assim como policiais militares e civis, bombeiros e funcion√°rios p√ļblicos. A classe m√©dia cheira. O uso da coca√≠na √© comum, amplo e informalmente aceito pela sociedade. Afinal, n√£o √© por acaso que temos esta eficiente rede de tr√°fico, em que o sistema que supostamente a investiga e pune n√£o s√≥ a aceita como tamb√©m beneficia-se com propinas e desvios. Consome-se muita coca√≠na no Brasil e ganha-se muito dinheiro com ela. Afinal, uma ilegalidade atrai outra – √© da natureza do crime.
    MACONHA? Ah! Esta, j√° rola do Leme ao Pontal, em plena luz do dia!

    Restam como t√≠teres dessa est√≥ria, “negrinhos desnudos” sendo abatidos como b√ļfalos selvagens na savana.

  3. B! disse:

    Também já pensei como vc em seus tempos na ativa e também fui mudando minha visão.

    O pacot√£o chamado “drogas” que se diz querer combater j√° √© apresentado de forma err√īnea, ao meu ver: Primeiro que obviamente tenta fingir que as anfetaminas, barbituricos, tabaco e alcool n√£o s√£o drogas tamb√©m, s√≥ que reguladas e legais. Segundo que juntar numa pol√≠tica e lei s√≥ subst√Ęncias t√£o diversas e desiguais como coca√≠na, maconha, crack, ecstasy (MDMA), LSD, etc, etc, s√≥ serve para a desinforma√ß√£o e posterior descr√©dito do cidad√£o q observe o mundo real.

    Explico.

    Sempre me falaram, e eu acreditava, q a maconha deixava a pessoa louca e violenta. Fui observando e tomando conhecimento de pessoas q utilizavam e eu já eram consideradas por mim como pessoas boas, sensatas, q nada combinavam com o q as propagandas me falavam. Comecei a estudar sobre a história desta droga (q cito por ser a droga ilegal mais usada e mais antiga), analisando sob a ótica da ciência e história. Vi que a proibição dela tinha muito um peso de interesses industriais e racismo, ou seja, controle social e busca pelo lucro (de forma anti-ética).

    Derrubada a primeira viserira e a consequencia: Se “eles” mentiram ou estavam errados sobre isso, o q mais estavam me manipulando sobre outras drogas?

    Imagine isso na cabe√ßa de um pr√©-adolescente e adolescente, fase da vida complicada q todos n√≥s passamos? Esse questionamento junto com o natural confronto do status quo q surge, diante da descoberta de uma “mentira do sistema”, pode acabar sem envolvimento de forma perigosa com v√°rias subst√Ęncias, gra√ßas em grande parte ao servi√ßo de desinforma√ß√£o das propagandas.

    Imagine se tratassemos legalmente da mesma forma o tabaco e o √°lcool? Claro q iriam surgir deturpa√ß√Ķes no mundo real decorrentes disso!

    Acho que urge não só nós, mas o mundo como um todo pensar em alternativas de como lidar com essa realidade, que sempre foi presente nas histórias das sociedades humanas, mas que só no século XX que surgiram os carteis armados até os dentes, justamente fruto de uma política que não condiz com a realidade.

    Este novo modelo, j√° defendido e pensado, deve ser feito com muito cuidado, estudo, visando a √©tica e a ci√™ncia (informa√ß√Ķes factuais, e n√£o propagandas) e sendo “calibrado” quando necess√°rio.

    √Č leg√≠timo o medo que as pessoas diante de uma proposta desta, por√©m temos bons exemplos pr√°ticos no mundo que o c√©u n√£o desaba, simplesmente se diminuem os danos. A Lei Seca deixou os EUA em frangalhos no come√ßo dos anos 30, com mortes e corrup√ß√£o. O problema foi resolvido quando relegalizaram o √°lcool. O cen√°rio √© o mesmo…

  4. Hendrik disse:

    Independente do envolvimento pessoal para com a quest√£o, se o mundo quiser lidar com a quest√£o das drogas de forma eficiente, √© imperativo que assuma uma postura menos ut√≥pica e mais pragm√°tica. O mercado ilegal de drogas movimenta trilh√Ķes por ano. H√° que se desviar esse dinheiro e a maneira mais eficiente √© desviar para um mercado legal, regulado.

  5. Marcelo disse:

    A meu ver deveria vender qualquer droga na farmacia(execeto crack, hero√≠na e crystal) como fazem com tarja preta, quem quiser usar deve pegar uma receita sem burocracias e comprar na farmacia, nisso colocar um imposto bem alto e essa renda usar na edu√ß√£o e sa√ļde, dinheiro esse que n√£o √© pouco visto o quanto os traficantes tem. Al√©m disso liberar geral qualquer planta e fungos afinal a natureza nos prov√™ isso, quem somos n√≥s pra pro√≠bir a natureza?
    Imagina o quanto o Brasil poderia melhorar, praticamente zerar gastos com repress√£o, lucro incalcul√°vel com o imposto das drogas, dinheiro esse que cobriria tranquilamente educ√£o e sa√ļde do pa√≠s, a meu ver n√£o existe caminho melhor. Liberem o natural, taxem os qu√≠micos! Temos capacidade de sermos o melhor pa√≠s do mundo… at√© quando vamos seguir a cabra-cega ???

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