- Jorge Da Silva - http://www.jorgedasilva.blog.br -

SEM MEDO DA LEI, E A NATURALIZAÇÃO DA MORTE NO BRASIL

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Manchete: “Dentista foi queimada viva em São Bernardo porque só tinha R$ 30”

No Brasil, poderoso mesmo é quem tem o poder de matar, ou de mandar matar. Tanto que se mata gente no País como se matam baratas, sem maiores riscos de os assassinos serem descobertos ou mantidos encarcerados. Bandido mata trabalhador, mata policial, mata outros bandidos; policial mata bandido certo ou incerto bandido; bala perdida mata cidadão e cidadã, e por aí vai. Mata-se, mata-se, mata-se. Tudo naturalizado! Ironia: há quem tenha medo de ser morto, mas é a favor da matança (dos “outros”, é claro), confiante na sua condição social ou em carros blindados e casas com muros e parafernália eletrônica. Ilusão e preconceito!

O principal problema da matança entre nós é a equação montada pela sociedade brasileira ao longo da sua história: matar pode (os “outros”); roubar não pode (a nós). Assim, o bem “vida” (dependendo de quem seja a vida) tem muito menos valor do que o bem “dinheiro”. Acontece que, se todos podem matar sem maiores riscos de encarceramento, apenas alguns podem “roubar” sem esses riscos, do que são exemplos os recorrentes escândalos de corrupção envolvendo os “de cima”. Daí, o horror pontual ante esta ou aquela morte mais escabrosa, como no caso da dentista queimada viva, em nada altera a equação.

Solução: inverter a lógica, ou seja, colocar a vida (de ricos e de pobres) como o principal valor a ser perseguido pelo sistema de controle social, no qual se inclui o subsistema de Justiça Criminal, com realce para a polícia. Não se trata de aumentar as penas, panaceia em que a maioria acredita, se a lógica do sistema permanecer a mesma, e se as brechas oferecidas de propósito pela própria lei não forem fechadas.

Aí está o impasse, numa sociedade que se diz sem preconceitos e igualitária, mas que é exatamente o oposto disso.