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Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

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VIOLÊNCIA AUMENTA NO ESTADO E DIMINUI NA CAPITAL. FLUXO E REFLUXO…

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Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP/RJ) revelam que o mês de janeiro de 2013 apresentou, no Estado, aumento da letalidade violenta (somatório de vítimas de homicídios dolosos, lesões corporais seguidas de morte, latrocínio e autos de resistência), bem como de roubos de rua e roubos de veículo. No último dia 8, lia-se no jornal O Globo: “Após longo histórico de queda, homicídios dolosos têm o maior aumento mensal desde 2009  Total de casos teve, em janeiro, um aumento de 20,7% em relação ao mesmo período de 2012, passando de 324 casos para 391”.

Dois dias depois, lia-se no jornal: “Número de homicídios continua caindo na capital”  Programa de implantação de UPPs contribui para redução de 9% no total de casos, afirmam especialistas”.

Ou seja, aumento no Estado, mas queda na capital. Na mesma matéria, uma explicação para o aumento no Estado: “[…] O aumento verificado agora deveu-se a um acentuado acréscimo na quantidade de assassinatos na Baixada Fluminense, em Niterói e no interior”.

Na Baixada e em Niterói, os homicídios subiram 61% e 51%, respectivamente; e no interior, 10%.

Bem, o que explicaria esse quadro? E o que fazer para, em benefício de todos, modificá-lo? A propósito, para reflexão, reproduzo abaixo postagem publicada no blog em 4 de junho de 2010:

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FLUXO E REFLUXO DA VIOLÊNCIA NO RIO DE JANEIRO

Corre a lenda: o maestro Antônio Carlos Jobim teria afirmado certa feita que só haveria justiça social no Rio quando todas as pessoas morassem em Ipanema. Ironia do mestre. Talvez quisesse chamar a atenção para o fato de que a cantada-em-prosa-e-verso harmonia da sociedade carioca era, e é, um exercício de auto-ilusão, ou manifestação da síndrome de avestruz. Ora, como esquecer que a organização sócio-espacial da cidade é herança do longo período (mais de 3 séculos) em que a mesma foi capital do maior e mais duradouro regime escravista da história da humanidade? De toda coerência, ao contrário, é concluir que a hierarquia dos tempos monárquico-oligárquicos permaneceu enquistada na sociedade, e que urge investir na integração social da cidade como um todo.

O Fluxo

Com a expressão fluxo e refluxo, tenho em mente certo deslocamento da violência. Parto do contexto de quatro ou cinco décadas atrás, quando ela não despertava o interesse dos grandes jornais, pois era tida como circunscrita à periferia, em particular à Zona Norte. Tema importante só quando a vítima, ou o autor, pertencesse à chamada “classe média” da Zona Sul, como, por exemplo, em casos como o da morte da jovem Aída Curi ou o do crime do Sacopã. Fora daí, a indiferença, pública e privada, certamente porque vítimas e autores dos crimes violentos (assassinatos, roubos a mão armada, tiroteios e facadas) eram, em maioria, oriundos do mesmo estrato popular, e os crimes, praticados no seu espaço. A criminalidade só era tema importante em jornais que circulavam na periferia (jornais dos quais, na expressão em voga, “saía sangue, se espremidos”), como o Luta Democrática, do lendário deputado Tenório Cavalcanti. Aquela violência “distante” virara motivo de chacota em programas humorísticos de rádio e televisão. Em tom jocoso, o apresentador do programa “Patrulha da Cidade”, Samuel Correia, se referia a Duque de Caxias, então violento município da Baixada, como “a terra onde a galinha cisca pra frente”. Com o tempo, a violência do crime se espraiou, atingindo as áreas consideradas nobres. A segurança, então, passa a ocupar as páginas e as telas, e torna-se prioridade pública, para a qual são canalizados grandes recursos governamentais. E muito discurso. Esse foi o fluxo de lá para cá.

O Refluxo

Ultimamente, ao observador atento não escapará o fato de que, a toda evidência, os acontecimentos criminais estão voltando a se concentrar naqueles espaços onde antes eram, de certa forma, admitidos (agora incluída também a Zona Oeste). Pelo menos é o que se depreende da leitura dos jornais e do noticiário da TV e do rádio, que nos dão conta de assaltos, assassinatos, bondes de traficantes, arrastões, ataques a policiais etc. que vêm ocorrendo com crescente frequência nesses espaços. Ou a violência refluiu para o lugar de onde tinha vindo ou estamos diante do que os criminologistas chamam de segurança subjetiva (se não falo nela, é como se não existisse; se falo, existe…). Não tardará que, em algum programa de TV ou rádio, um apresentador ou humorista volte a fazer graça com a célebre frase de Samuel Correia.

Em suma, se a violência reflui para a periferia, resta saber se isso ocorre por um movimento espontâneo ou provocado. Certo é que, com o fluxo, tivemos uma espécie de socialização da violência. Restava a socialização da segurança, o que não aconteceu. E a oportunidade de integração vai-se perdendo diante da força da tradição… Na verdade, aparentemente, o que Tom Jobim queria dizer é que a solução era, não que todos fossem morar em Ipanema, e sim que Ipanema, metáfora, se deslocasse para a periferia. Esse é o verdadeiro desafio. Utopia? Pode ser, mas utopia mesmo é imaginar a possibilidade de manter a violência represada num dique distante, guarnecido pela polícia, sem risco de rompimento ou do efeito bumerangue.

 

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4 comenários to “VIOLÊNCIA AUMENTA NO ESTADO E DIMINUI NA CAPITAL. FLUXO E REFLUXO…”

  1. Emir Larangeira disse:

    Será que o refluxo tem data marcada? Não seria uma data qualquer após a Copa do Mundo e as Olimpíadas? Ou será que o tão escorregadio “cinturão de segurança” rebentará antes?

  2. jorge disse:

    O refluxo já está acontecendo, ou seja, a violência refluiu para a periferia (Zona Norte e Oeste da capital, Baixada, Grande Niterói e Interior). Você tem razão quanto ao cinturão arrebentar. Ele, ou melhor, o dique, vai arrebentar bem antes da Copa. Aliás, já está arrebentando.

  3. Adilson da Costa Azevedo disse:

    Caro Jorge,

    Creio que é preciso unificar os padrões estatísticos. Dessa forma, considerando como dado 100 homicídios por mês, se for diminuído para 10 homicídios, a redução seráde 90%. No entanto, se no mês seguinte passar para 30 homicídios, o aumento será de 200%, quando na verdade a redução seria de 70%. Isso parece conta do livro “O Homem que Calculava” de Malba Tahan, hoje em desuso. Dessa forma, na minha opinião essas estatísticas não deveriam ser manipuladas politicamente porque mascaram a realidade. A melhor referência é considerar os índices de homicídio por 100.000 pessoas. Quanto ao fluxo e refluxo a matéria é irretocável e as consequências surgirão em progressão geométrica. Nas estatísticas, nem tanto.

  4. jorge disse:

    Adilson,
    Você tem razão. Foi o que aconteceu quando o número de médicos num município do interior caiu 100%. Foram ver, e descobriram que havia apenas um médico, que morrera no ano anterior.
    Bem, há um livrinho antigo muito interessante, chamado “How to lie with statistics” (Como mentir com as estatísticas), que fala de problemas como esse que você aponta, com muitos exemplos reais. Na verdade, não ensina a mentir, e sim a desmascarar os mentirosos.

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