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Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

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A ÉTICA DO CONGRESSO E A ÉTICA DO POVO

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Mais uma vez, os brasileiros em geral se indignam com as escolhas dos congressistas, sem compreender, no entanto, que a discrepância entre a ética destes e a da sociedade faz sentido. Uma das razões para isso é, sem dúvida, o fato de o Brasil continuar sendo descrito pelo establishment como um país democrático e homogêneo, mas funcionar, no interesse dos fragmentos poderosos de sempre, ao contrário disso. Basta ver a colcha de retalhos (e não carta de princípios) produzida pelos constituintes de 1988.

Em sociedades ditas primitivas, de ontem e de hoje, não existem constituições nem leis escritas, e sim normas de convivência costumeiras, repassadas à comunidade de geração em geração. Não é assim na maioria das sociedades contemporâneas, embora não nos devamos esquecer de que os primeiros códigos escritos só aparecem na história da humanidade no segundo milênio a.C.

Hoje em dia observam-se, de um lado, aquelas sociedades, milenares e mais homogêneas – como a inglesa ou a japonesa –, em que costumes compartilhados pela maioria do povo estão na base do sistema social, e, de outro, aquelas ainda em formação e fragmentadas – como a brasileira –, cujo sistema social se estrutura basicamente em torno do objetivo de acumulação econômica e de poder a qualquer custo. Nenhuma incoerência, portanto, que a ética dos congressistas patrícios (há exceções) seja oposta à compartilhada pelos brasileiros em geral. Quando o senador Renan proclama que “ética é responsabilidade de todos”, é preciso saber a que ética se refere.

Em suma, o que está em jogo no Brasil é um conflito inconciliável de éticas, problema para o qual a solução, no interesse geral, é valorizar a ética da maioria do povo. Para começar, deveríamos colocar no centro do sistema social o valor vergonha. Caso contrário, vamos ficar com a segunda parte da célebre frase atribuída a Apparício Torelly (ou a Stanislaw Ponte Preta?): “Restaure-se a moralidade ou nos locupletemos todos”.

 

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5 comenários to “A ÉTICA DO CONGRESSO E A ÉTICA DO POVO”

  1. Adilson da Costa Azevedo disse:

    Caro Jorge,

    Quando o presidente do Congresso disse que “ética é responsabilidade de todos” significa que ele não está incluído nesses “todos”. A demonstração disso foi a sua fala emblemática: “Ética é meio e não fim”. Como a ética é meio, de forma lógica, está implícito que se pode chegar ao fim sem ética. Portanto é possível atingir os seus objetivos sem essa noção da ética “tradicional”. Somente possuem o valor vergonha, as pessoas que pensam em ética como componente imprescindível em todas as etapas do comportamento humano, seja como cidadão, parlamentar, governante, estudante etc. As exceções a que você se refere de políticos éticos, ficam como gatinhos miando pelos cantos do território dos leões, cujos gritinhos são abafados pelos rugidos estridentes de leões poderosos. Meu caro mestre, você representa um dos últimos otimistas de plantão. No entanto, ficou provado com os últimos acontecimentos no Congresso Nacional: o que estava ruim, piorou.

  2. jorge disse:

    Caro Adilson,
    Renan parece ser admirador de Maquiavel: “Os fins justificam os meios”.
    O Congresso piorou, concordo, mas ainda tem muito para piorar. Até que as “exceções” se rebelem e joguem lama no ventilador.

  3. Maria Cristina Ramos Costa disse:

    “Ou se restaura a moralidade ou nos locupletemos todos”

    A frase já foi apontada como sendo de Oswald de Andrade. Entretanto, credito-a a todos os demais que se avocarem como seu autores.
    Fica no ar como restaurar a moralidade, se a imoralidade aqui nessas plagas é um verdadeiro câncer em todos os campos da sociedade?
    A Sociedade brasileira não pode reclamar;
    Se não vejamos,
    Nepotismo? No serviço público, sempre se “dá o jeitinho brasileiro”. O conceito de patrimonialismo é histórico na sociedade brasileira.
    Em “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda, colocava tais questões.
    E ainda, quando se trata de corrupção?
    Não dar nota fiscal.
    Não declarar Imposto de Renda.
    A compra de dissertações e teses, diplomas de graduação e pós-graduação (inclusive mestrado e doutorado) e também, de gabaritos de vestibular.
    Tentar subornar o guarda para evitar multas.
    Falsificar carteirinha de estudante.
    Dar/aceitar troco errado.
    Roubar TV a cabo.
    Furar fila.
    Comprar produtos falsificados.
    No trabalho, bater ponto pelo colega.
    Falsificar assinaturas
    “Aceitar essas pequenas corrupções legitima aceitar grandes corrupções”.
    A meu ver, o Congresso Nacional é a cara e a genética da sociedade brasileira.
    E agora JORGE DA SILVA? E AGORA? Para onde correr?

  4. Maria Cristina Ramos Costa disse:

    Coronel Jorge ,

    “Ou se restaura a moralidade ou nos locupletemos todos”

    A frase já foi apontada como sendo de Oswald de Andrade. Entretanto, credito-a a todos os demais que se avocarem como seu autores.
    Fica no ar como restaurar a moralidade, se a imoralidade aqui nessas plagas é um verdadeiro câncer em todos os campos da sociedade?
    A Sociedade brasileira não pode reclamar;
    Se não vejamos,
    Nepotismo? No serviço público, sempre se “dá o jeitinho brasileiro”. O conceito de patrimonialismo é histórico na sociedade brasileira.
    Em “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda, colocava tais questões.
    E ainda, quando se trata de corrupção?
    Não dar nota fiscal.
    Não declarar Imposto de Renda.
    A compra de dissertações e teses, diplomas de graduação e pós-graduação (inclusive mestrado e doutorado) e também, de gabaritos de vestibular.
    Tentar subornar o guarda para evitar multas.
    Falsificar carteirinha de estudante.
    Dar/aceitar troco errado.
    Roubar TV a cabo.
    Furar fila.
    Comprar produtos falsificados.
    No trabalho, bater ponto pelo colega.
    Falsificar assinaturas
    “Aceitar essas pequenas corrupções legitima aceitar grandes corrupções”.
    A meu ver, o Congresso Nacional é a cara e a genética da sociedade brasileira.
    E agora JORGE DA SILVA? E AGORA? Para onde correr?

  5. jorge disse:

    Cara Maria Cristina,
    A amiga tem razão. É realmente uma questão cultural. Mas não podemos desistir. Há milhões de brasileiros que se indignam com esse quadro (não só dos desvios dos congressistas), e se comportam com responsabilidade. A educação (na casa e na escola) pode fazer a diferença. É nisso em que acredito.

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