- Jorge Da Silva - http://www.jorgedasilva.blog.br -

TRAGÉDIA NOVA, ‘SCRIPT’ VELHO. CULPADOS EMBAIXO

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Mais uma tragédia. Novamente, buscam-se culpados, e não responsáveis. Ouve-se: “A culpa foi dos donos da boate”; “Foi dos músicos”; “Foi dos seguranças!”. Daí, prendem-se alguns “culpados” para dar uma satisfação provisória à opinião pública, e pronto. Com isso, o foco da questão é deslocado do setor público para o privado.

Há um mês, assim que a menina Adrielly faleceu vítima de bala perdida no Rio, o médico que tinha faltado ao plantão foi logo apontado como o único culpado. Também quiseram prendê-lo. Não tardou, porém, que viesse à tona a teia de irresponsabilidades, para dizer o mínimo, que explicava, não aquela falta, mas as faltas, dele e de outros. Uma bagunça organizada.

No caso da tragédia da boate Kiss, é sintomática a veemência com que as autoridades se apressam em apontar o dedo para este ou aquele “culpado”. Ninguém discorda de que há culpas na ponta, sobretudo dos donos, porém, tanto ou mais importante é identificar os responsáveis públicos, sejam órgãos ou autoridades individuais, pelas omissões e eventuais facilitações. Se é verdade que, numa casa de espetáculos com capacidade declarada de 900 pessoas, não havia saída de emergência, e que a única porta existente era estreita, a conclusão é que nem o Corpo de Bombeiros nem a Prefeitura faziam caso de normas técnicas universais de prevenção de incêndio e pânico, conhecidas até por leigos. E sequer realizavam vistorias regularmente (a não ser pro forma, se realizavam), contrariamente ao que alegou o prefeito: “A fiscalização da prefeitura é efetiva e rigorosa”.

Pelo menos desta feita, um prefeito, para safar-se, não diz que vai punir com rigor os de baixo, como é hábito dos nossos governantes e autoridades em geral. Desse fato resulta a conclusão de que, independentemente de punições individuais, é indeclinável a necessidade de tomar os acontecimentos para realizar um estudo de caso abrangente, profundo,  a fim de aferir as responsabilidades político-administrativo-gerenciais das autoridades e refletir sobre aspectos peculiares de nossas relações sociais. No caso concreto de Santa Maria, é preciso perguntar, por exemplo: qual a responsabilidade relativa do governo do estado e do comandante do Corpo de Bombeiros, e do prefeito e o setor encarregado da concessão dos alvarás e da fiscalização? E o papel do “jeitinho”, do qual muitos brasileiros ainda se orgulham?

Em suma, estamos falando de normas, laudos, vistorias, alvarás, pareceres, fiscalização e gerência, o que implica buscar responsáveis de cima para baixo, e não o contrário. Sem isso, é só esperar a próxima tragédia, de pouco ou nada adiantando punir culpados e mudar leis, no que muitos acreditam.

Nota. Esse critério – responsabilidade de cima para baixo – está contido no conceito de accountability.