foto de Jorge Da Silva

Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

Ver perfil

Os conteúdos dos textos deste Blog podem ser usados livremente. Pedimos, no caso, que sejam consignados os devidos créditos, com a citação do autor e da fonte.

 



 

 

TRAGÉDIA NOVA, ‘SCRIPT’ VELHO. CULPADOS EMBAIXO

6 Comentários, deixe o seu

.

Mais uma tragédia. Novamente, buscam-se culpados, e não responsáveis. Ouve-se: “A culpa foi dos donos da boate”; “Foi dos músicos”; “Foi dos seguranças!”. Daí, prendem-se alguns “culpados” para dar uma satisfação provisória à opinião pública, e pronto. Com isso, o foco da questão é deslocado do setor público para o privado.

Há um mês, assim que a menina Adrielly faleceu vítima de bala perdida no Rio, o médico que tinha faltado ao plantão foi logo apontado como o único culpado. Também quiseram prendê-lo. Não tardou, porém, que viesse à tona a teia de irresponsabilidades, para dizer o mínimo, que explicava, não aquela falta, mas as faltas, dele e de outros. Uma bagunça organizada.

No caso da tragédia da boate Kiss, é sintomática a veemência com que as autoridades se apressam em apontar o dedo para este ou aquele “culpado”. Ninguém discorda de que há culpas na ponta, sobretudo dos donos, porém, tanto ou mais importante é identificar os responsáveis públicos, sejam órgãos ou autoridades individuais, pelas omissões e eventuais facilitações. Se é verdade que, numa casa de espetáculos com capacidade declarada de 900 pessoas, não havia saída de emergência, e que a única porta existente era estreita, a conclusão é que nem o Corpo de Bombeiros nem a Prefeitura faziam caso de normas técnicas universais de prevenção de incêndio e pânico, conhecidas até por leigos. E sequer realizavam vistorias regularmente (a não ser pro forma, se realizavam), contrariamente ao que alegou o prefeito: “A fiscalização da prefeitura é efetiva e rigorosa”.

Pelo menos desta feita, um prefeito, para safar-se, não diz que vai punir com rigor os de baixo, como é hábito dos nossos governantes e autoridades em geral. Desse fato resulta a conclusão de que, independentemente de punições individuais, é indeclinável a necessidade de tomar os acontecimentos para realizar um estudo de caso abrangente, profundo,  a fim de aferir as responsabilidades político-administrativo-gerenciais das autoridades e refletir sobre aspectos peculiares de nossas relações sociais. No caso concreto de Santa Maria, é preciso perguntar, por exemplo: qual a responsabilidade relativa do governo do estado e do comandante do Corpo de Bombeiros, e do prefeito e o setor encarregado da concessão dos alvarás e da fiscalização? E o papel do “jeitinho”, do qual muitos brasileiros ainda se orgulham?

Em suma, estamos falando de normas, laudos, vistorias, alvarás, pareceres, fiscalização e gerência, o que implica buscar responsáveis de cima para baixo, e não o contrário. Sem isso, é só esperar a próxima tragédia, de pouco ou nada adiantando punir culpados e mudar leis, no que muitos acreditam.

Nota. Esse critério – responsabilidade de cima para baixo – está contido no conceito de accountability.

 

6 Comentários, deixe o seu   |    Imprimir este post Imprimir este post    |   


6 comenários to “TRAGÉDIA NOVA, ‘SCRIPT’ VELHO. CULPADOS EMBAIXO”

  1. ediene disse:

    A inversão de culpa é um dispositivo utilizado, muitas das vezes, para provar o que não aconteceu. O noticiário de hoje apresenta muitas histórias de pessoas que morreram em Santa Maria por heroísmo. Salvaram suas vidas e retornaram à boate para salvar a vida dos demais. Muitos perderam suas vidas na adoção do gesto nobre. Amanhã certamente o noticiário perguntará por que os Bombeiros permitiram que as vítimas fizessem esse tipo de trabalho. E a culpa da tragédia será dos Bombeiros…

  2. jorge disse:

    Cara Ediene,
    Como eu disse na postagem, os acontecimentos devem servir para um estudo de caso. O próprio Corpo de Bombeiros há de retirar ensinamentos do ocorrido.

  3. Maria Lúcia Viveiro de castro disse:

    A Polícia Civil. Rio Grande do Sul argumentou que a boate estaria com o alvará de funcionamento vencido.O prefeito de Santa Maria, Cezar Augusto Schirmer, disse durante uma entrevista coletiva que já entregou todos os documentos que competia ao município para os delegados responsáveis pela investigação do incêndio na boate Kiss, que matou 234 pessoas no último domingo (27). Já o secretário de comunicação da Prefeitura de Santa Maria afirmou que a responsabilidade de fiscalização e do alvará de prevenção a incêndios é do Corpo de Bombeiros.
    O donos da boate não foram algemados, os músicos SIM ! Veja pois, o paradoxo da lei das algemas ?
    Sabe professor, dentro de uma semana a mídia vai oferecer ao povo, corpos desnudos de cavaludas bombadas no carnaval. Ai, todos se esquecem da triste tragédia. O ultimo a sair que apague a luz. Estamos em uma republiqueta chamada “BRAZIL”.

  4. jorge disse:

    Cara Maria Lúcia,
    É realmente muito triste. Nestas horas dá vergonha de ser brasileiro. E o pior é que transformam tudo, até a tragédia, em espetáculo.

  5. Adilson da Costa Azevedo disse:

    Caro Jorge,

    Essa tragédia que enlutou diretamente milhares de pessoas e provocou comoção no mundo inteiro, proporcionou ou proporcionará efeitos colaterais visíveis e invisíveis. Eis alguns:
    1-responsáveis posando de heróis e faturando politicamente com esse drama.
    2- “Fechamento” de milhares de estabelecimentos congêneres no país.
    3- Após o pagamento do “Custo Brasil” certamente milhares que foram fechadas serão abertas “provisoriamente”, pois como está muito próximo do carnaval não haverá tempo hábil para cumprimento das exigências legais.
    4- Valorização do “Custo Brasil”.
    5- Os responsáveis continuarão na irresponsabilidade.
    No entanto, nesta data recebi uma lição de ética muito emocionante que traduz o sentimento dos políticos no país.

    – A verdadeira ética não é parecer e sim ser. É estado de conduta, é uma visão cristã do agir correto e ter paz interior-

    Somente um Ghandi, um Luther King, um José Sarney poderia com tanta legitimidade nos dar essa direção.
    Obs: o autor da frase é o último.

  6. jorge disse:

    Caro Adilson,
    1. É, o custo Brasil vai aumentar, e muito. Já pensou, tantos estabelecimentos corrento para o licenciamento “com urgência”?
    2. É triste, mas é verdade. Só mesmo usando a ironia.

Envie o comentário


0/Limite de 1800 caracteres

Add video comment