- Jorge Da Silva - http://www.jorgedasilva.blog.br -

DROGAS. “ACOLHIMENTO” EM SÃO PAULO E NO RIO

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O Português é uma das línguas mais plásticas do mundo, a ponto de, além de ser possível empregar as palavras com sentidos sempre renovados, elas podem, não raro, dependendo do contexto e das reais intenções do emissor do discurso, ser empregadas com conotações opostas às usuais. Além disso, como a ordem das palavras é relativamente aberta, o idioma presta-se com facilidade a inversões lógicas, duplos sentidos, eufemismos e malabarismos verbais outros.

No Rio, há duas semanas, a mídia noticiava que, durante uma operação de “acolhimento”, um “menor” perdera a vida. Lia-se num periódico: “Menor morre atropelado na Avenida Brasil”. Tratava-se do menino Rafael Ribeiro, 10 anos, de um grupo de usuários de crack, que fugia dos guardas municipais, agentes sociais e PMs que corriam atrás dos drogados para “acolhê-los”.

Em São Paulo, na sequência da Ação Integrada Centro Legal e das operações policiais malsucedidas para acabar com a Cracolândia, o governador anunciava um programa de “internação involuntária”. Criticado por setores que taxavam a medida de ilegal e autoritária, alegou que ela só se aplicaria em alguns casos: “Os casos mais graves, que tá comprometendo a saúde e a vida das pessoas, já vai ter no cartório, presentes o juiz, o promotor e o advogado”.

Ontem, os jornais davam conta do resultado do primeiro dia do programa. Uma filha de 33 anos, certamente tocada pelas palavras do governador, dopou o pai viciado, de 62 anos, e o levou de carro para ser internado “involuntariamente”. Outros parentes fizeram o mesmo. Dependentes de drogas dirigiram-se por conta própria aos Centros de Referência buscando ajuda. Mas não havia “acolhida” para todos por falta de vagas e de estrutura.

Ontem também, coincidentemente, foi desencadeada no Rio nova operação na favela Parque União, na entrada do Complexo da Maré, “para recolhimento de viciados em crack”, conforme divulgou a rádio CBN. Desta feita, para evitar o que aconteceu com o menino Rafael, o trânsito na Av. Brasil foi bloqueado. Segundo a matéria, “66 adultos e dois menores foram recolhidos na ação”.

No caso de São Paulo, a racionalização evasiva do governador produziu um resultado com o qual ele não contava, conforme admitiu: “O que nos surpreende é que as famílias estão procurando. A mãe não desiste.” (O Globo de ontem, 23). Heureca! Bem, agora o governador se vê diante da obrigação de dar efetividade a um discurso com tintas humanitárias, usado com a clara intenção de justificar o recolhimento forçado dos dependentes renitentes das cracolândias. Como os jornais de hoje divulgam, anuncia abordar o tema como questão social complexa, de saúde pública (e não policial), o que vai implicar dotar o Estado de São Paulo, e não somente a capital (e muito menos o centro), de clínicas de reabilitação, comunidades terapêuticas etc. para acolher, sem aspas, os usuários problemáticos de drogas psicoativas, ilegais ou legais. Afinal, é governador do Estado…

Mas meu ponto não é propriamente o mérito das medidas. Que é preciso fazer alguma coisa com relação ao flagelo das drogas em geral, e do crack em particular, não há dúvida. Não é possível igualmente que a sociedade tenha que conviver com espetáculos deprimentes como os das cracolândias. Isso é uma coisa. O que pretendo mostrar, no entanto, é como a riqueza da língua portuguesa tem sido aproveitada na arena política. Um estrangeiro interessado em aprender Português ficaria perdido. Levaria tempo para entender que “acolher” pode significar prender ou recolher; que “menor” é sinônimo de criança pobre; que “involuntária” pode substituir a expressão “à força” ou a palavra compulsória. E igualmente não entenderia como seria possível manter dependentes de drogas “internados” contra a vontade sem que houvesse guardas, muros ou grades para impedir-lhes a saída, e sem que os mesmos fossem dopados com drogas diferentes das que apreciam.

Que o governador Alckmim cumpra realmente o que agora promete. Talvez ganhe muito mais, inclusive do ponto de vista político-eleitoral. E que sirva de exemplo para o Brasil inteiro, em especial para o Rio de Janeiro, onde Prefeitura da capital, Governo do Estado e sociedade civil parecem orientar-se pela lógica “acolhedora” do “recolhimento” e da internação “involuntária”. Vamos limpando”…

PS. Os verbetes dos dicionários brasileiros precisam atualizar-se. Por exemplo, a palavra ‘transparência’ tem sido empregada com o sentido de ‘opacidade’; ‘roubo’, com o de ‘malfeito’; ‘ética’, com o seu contrário; ‘suposto’, com o de ‘comprovado’; ‘público’, com o de ‘privado’; ‘recolhimento’, com o de ‘limpeza’.