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Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

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REDAÇÃO DO ENEM. CAMISA DE FORÇA OU LOTERIA?

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Interessei-me em saber o porquê de tanta ansiedade em face da prova de redação do ENEM por parte dos candidatos, mais do que com as outras provas. Interessei-me em função de ter tido contato com um grupo de candidatos que, às vezes, se reunia em minha casa. “O que será que eles querem?”, era a pergunta que motivava o seu estudo. Como, em dado momento da minha trajetória, na década de 1990, fui professor de redação no 2º grau da rede pública, ofereci-me para ajudar. Logo percebi que estava defasado. Não só ali, mas por toda parte os alunos não estudavam redação propriamente, e sim faziam treinamento em torno das palavras que deveriam iniciar cada parágrafo, o número e o tamanho dos mesmos e, acima de tudo, o que não deveriam escrever. Tudo mudado, e direcionado para o politicamente correto. A língua portuguesa deixara de ser o centro do processo. Fui conferir. Estava no Guia do Participante: A Redação no ENEM.

Divulgados os resultados da redação, acendeu-se novamente a polêmica. Levantam-se problemas, mais precisamente os ligados aos critérios de correção e às subjetividades envolvidas. Milhares de candidatos que se prepararam para o exame, inclusive redigindo textos sobre múltiplos temas, e que tiveram desempenho considerado bom durante a preparação, obtiveram nota muito aquém da expectativa. Resultados de alunos de base e conhecimento parecidos, e que estudaram juntos o ano inteiro foram absolutamente discrepantes. Sorte e azar?

Os que se consideram prejudicados solicitam revisão; uma simples revisão, e não vista de prova, mas o MEC nega. A justiça se manifesta a favor dos candidatos, mas o MEC recorre da decisão judicial, como se tivesse certeza da excelência dos seus critérios e da infalibilidade dos avaliadores, e consegue continuar com a opacidade do processo. Ora, por que não revisar as redações daqueles que o requererem, se não há problema algum em que as notas sejam mantidas? Seria para economizar trabalho?

Uma coisa é certa. Qualquer redação contém grande carga de subjetividade, o que é inerente à identidade social e às idiossincrasias do seu autor; e os avaliadores não são máquinas neutras. Na verdade, o esforço de objetivar a correção com base nas cinco competências indicadas no Guia pode ter tido efeito contrário, ou seja, o de produzir maior subjetividade. Alunos que saíram da prova de redação achando que tinham naufragado aparecem com pontuação alta, às vezes de 1000 pontos, e vice-versa. Normal, se os casos não tivessem recorrência de forma exponencial.

Cumpre admitir que alguma coisa não funcionou como esperado pelos técnicos. Uma hipótese que não deve ser descartada é a de que o “Guia do Participante” acabou constituindo-se numa camisa de força (aliás, por que um guia só para a redação?…). E os resultados da prova, uma verdadeira loteria. A principal competência, o domínio da norma culta da língua portuguesa, pesa apenas 20% do total.

PS. Não é choro de perdedor; o familiar que prestou o exame fez os 1000 pontos. Sorte.

 

 

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8 comenários to “REDAÇÃO DO ENEM. CAMISA DE FORÇA OU LOTERIA?”

  1. Ana Tereza disse:

    Excelente post. As redações dos vestibulares e concursos públicos atuais não valorizam o domínio da Língua Portuguesa e os bons argumentos do candidato. São quase contas matemáticas. Sai a subjetividade, entra uma construção rígida, com número de parágrafos ideal, palavras obrigatórias, e uma estrutura previamente montada nos cursinhos. Para completar, o Enem não permite a revisão, algo, no mínimo, inconstitucional. Os alunos não devem mais contar somente com seus estudos e inteligência. Agora devem contar também com a sorte. Lamentável!

  2. jorge disse:

    Ana,
    É isso mesmo. Não é só no ENEM que está acontecendo essa distorção, mas nos concursos em geral. Certamente, na concepção dos critérios para a elaboração das redações e a sua correção, as visões de técnicos em ciências exatas e de pedagogos têm prevalecido em relação à dos professores de Português.Estes não entenderiam nada de redação…

  3. emir disse:

    É assim que os regimes totalitários constroem suas cartilhas, ou seja, partindo primeiramente para a desconstrução da mente e depois enfiando nelas as ideologias que interessarem aos seus fins de poder eterno. Em outras palavras, “lavagem cerebral” a longo prazo…

  4. jorge disse:

    Caro Larangeira,
    Boa observação. Eu não quis, na postagem, aludir a dois pontos que também me incomodaram: o autoritarismo do MEC e a clara ideologização contida no tal Guia.Basta lê-lo com atenção para perceber isso.

  5. Adilson da Costa Azevedo disse:

    Caro Jorge,

    A sua análise foi perfeita. Como você tão bem observou, o mesmo acontece com os concursos públicos, nos quais a meta é reprovar. Para isso, além dos critérios subjetivos, estabelecem charadas e “pegadinhas”, nas quais o aleatório é quem decide quem vai passar. No entanto, deve ser acrescentado no rol de dificuldades que na atualidade cada dia que passa as pessoas lêem menos. Esse processo atinge principalmente a maioria dos jovens, os quais lêem pouco, mas, são craques na internet, que preenche quase todas as exigências escolares com informações rápidas e pontuais. Sem dúvida, a internet é uma ferramenta extremamente útil, porém, quando não usada adequadamente ocasiona males irreversíveis. Quanto a sorte, você há algumas décadas ensinou-me que ela ocorre toda vez que a competência se encontra com a oportunidade.

  6. jorge disse:

    Caro Adilson,
    Você levantou um ponto interessante: a falta de leitura dos jovens. Perfeito. Será que os técnicos do ENEM não sabem disso? Se sabem, por que, desde que o exame foi lançado em 1998, só propõem temas sociais aparecidos no noticiário (trabalho infantil, desmatamento, abusos dos meios de comunicação, violência urbana, movimento imigratório etc.)? Essa é uma clara indução a que os jovens, na escola, NÃO leiam um Machado de Assis, um Lima Barreto, um Carlos Drummond de Andrade, uma Raquel de Queiroz, um Joel Rufino dos Santos. O que fazer, se há até professores que acham caretice ler Machado de Assis?

  7. Paulo Xavier disse:

    Hesitei em postar este comentário, mas vamos lá. Durante a minha trajetória profissional fora da PM, desde 1983, convivi com pessoas de diversos níveis culturais, sociais e de várias regiões do meu país e até do exterior. Nesse período vi de tudo que se possa imaginar, tive até superior hierárquico, profissional de nível superior que me pedia para fazer relatórios, planilhas e outros documentos, face à sua dificuldade, principalmente na língua pátria, em elaborar esses documentos. Aí, eu me perguntava: Como esse moço conseguiu entrar numa faculdade?

  8. jorge disse:

    Caro Paulo Xavier,
    Talvez, sorte.

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