- Jorge Da Silva - http://www.jorgedasilva.blog.br -

MÉDICO AZARADO E A DIFERENÇA ENTRE CULPA E RESPONSABILIDADE

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NATAL. O neurocirurgião Adão Crespo faltou ao plantão no hospital, no mesmo dia em que, coincidentemente, a menina Adrielly dos Santos, dez anos, foi atingida na cabeça por bala perdida. Inicialmente, o médico faltoso alegou que pedira demissão, o que não foi confirmado; depois, que vinha faltando há mais de um mês por discordar das escalas, e que tinha avisado ao seu chefe imediato, Dr. José Renato, que não compareceria ao plantão. A culpa seria deste. Dias depois, Adrielly tem morte cerebral.

Ora, independentemente de se identificar o culpado do ponto vista criminal no caso específico, tarefa a cargo da polícia, permanece a questão das responsabilidades pelo controle e fiscalização dos plantões em geral, para o que algumas perguntas aguardam respostas: (a) E se o fato (a bala na cabeça da menina) não tivesse ocorrido, e a ausência do neurocirurgião não tivesse vindo a público? (b) O que fizeram ou deveriam fazer, em face da falta ao plantão: o chefe imediato do Dr. Adão Crespo; o médico-chefe do plantão no dia; o diretor do hospital; e o secretário de Saúde? (c) Tinham eles, antes do infausto acontecimento, tomado alguma providência em relação à falta? (d) O que eles fazem ou devem fazer nos casos de faltas ao plantão, uma das principais reclamações daqueles que dependem dos hospitais públicos? (e) As escalas são para valer ou afixadas só para “o inglês ver”?

Lamentavelmente, mais uma vez o infausto episódio expõe uma das principais mazelas da nossa sociedade, a do exercício de autoridade sem responsabilidade. Todos querem mandar, ter poder, chefiar, dirigir, porém quando as coisas erradas vêm à tona, esgueiram-se da responsabilidade apontando o dedo para algum subordinado azarado. Há outros plantonistas que faltam e dão sorte… Vê-se, porém, que o corporativismo da classe tem limites.

Atribuir, em coro, todas as culpas ao neurocirurgião faltoso é meio conveniente para absolver os responsáveis pelo descontrole e a falta de fiscalização dos hospitais. Curioso que até o fato de uma menina de dez anos ser atingida por um tiro na cabeça em pleno Natal é esquecido, como se isso fosse natural. O problema, então, não teria sido o tiro, e sim o atendimento no hospital.

Que em 2013 haja mais responsabilidade por parte das autoridades e menos execração de eventuais “culpados”, não só na saúde, mas em todos os setores públicos.