foto de Jorge Da Silva

Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

Ver perfil

Os conteúdos dos textos deste Blog podem ser usados livremente. Pedimos, no caso, que sejam consignados os devidos créditos, com a citação do autor e da fonte.

 



 

 

CHATUBA DE MESQUITA

4 Comentários, deixe o seu

.

Chacina. Seis adolescentes torturados e mortos por traficantes; dois outros jovens encontrados mortos dias depois, além dos assassinatos do cadete PM Jorge Augusto e do pastor Alexandre Lima pelos mesmos algozes. Tudo na mesma semana e no mesmo local, a “comunidade” da Chatuba e adjacências, na Baixada Fluminense.

Inobstante a pronta resposta da polícia, com a ocupação da área pelo Bope e o Batalhão de Choque, apoiados por blindados do Corpo de Fuzileiros Navais – e a rápida identificação e prisão dos primeiros suspeitos –, os moradores continuam a clamar por justiça e queixar-se do abandono da região e da falta de policiamento.

Não é problema novo. Mesmo antes da fusão dos Estados da Guanabara e Rio de Janeiro em 1975, a Baixada Fluminense já era considerada por muitos cariocas e fluminenses uma espécie de dormitório da cidade do Rio de Janeiro. Com certeza, até a chacina, a maioria sequer tinha ouvido falar no topônimo Chatuba. Pela TV, toma-se conhecimento de uma realidade tão próxima quanto distante. Um padrão, e não exceção: uma região deixada à própria sorte, dirigida por régulos ad hoc: traficantes e milicianos.

OS NÚMEROS. A secretaria de Segurança decidiu que a ocupação da Chatuba será permanente, medida que, por óbvio, não poderá ser estendida a outras “comunidades” da Baixada e de periferias da capital e de outras cidades do estado, igualmente oprimidas pelo tráfico. O cobertor é curto. A área da Baixada Fluminense é de 2.798 km2, ou seja, mais que o dobro da área do município do Rio de Janeiro, com uma população de 3.652.147 hab. (o município do Rio possui área de 1.224 km2 e população de 6.323.037 hab.), sem contar que a Região Metropolitana (Grande Rio + Grande Niterói) possui área em torno de 5.200 km2 e população superior a 12.000.000 hab.; e que o Estado possui área de 43.696 km2 e população de 15.989.929 hab. É só fazer as contas.

Como se vê, ademais da subjugação ao poder do tráfico e da precariedade de infraestrutura, saneamento e serviços, os problemas que afligem os moradores ultrapassam de longe as possibilidades de solução por meio de ocupações policiais, o que, para muitos, seria o bastante. Ora, ainda que se triplicassem os efetivos da polícia estadual, os problemas de fundo não seriam enfrentados. O que dizer, por exemplo, da aparente irracionalidade de se pretender resolver a grave questão social das drogas com a polícia e o sistema penal? Igualmente, o que dizer da naturalização da situação precária em que vivem os moradores de comunidades esquecidas como a Chatuba? Seria falta de recursos ou a distribuição particularista dos mesmos?…

 

4 Comentários, deixe o seu   |    Imprimir este post Imprimir este post    |   


4 comenários to “CHATUBA DE MESQUITA”

  1. Coronel Jorge da Silva,
    Estudos da ONU em 2010 revelaram dados alarmantes em relação ao contra de criminalidade nas Américas.Em números absolutos o Brasil está em 1º. Lugar, tendo 63.819 vítimas em 2011.O perfil das vítimas e as causas são, respectivamente, de jovens do sexo masculino (nos chamados homicídios intencionais), por armas de fogo, e as mulheres principalmente em consequência da violência doméstica. “Em nível mundial, 80% das vítimas e dos autores de homicídios são homens.
    Em 2011, 42% dos homicídios foram cometidos por armas de fogo (84% nas Américas e 34% na Europa)”.
    “O crime organizado, especialmente o tráfico de drogas, é responsável por um quarto das mortes causadas por armas de fogo nas Américas”.
    “Porquanto, 7,9 por grupo de 100 mil pessoas são assassinadas em nível mundial, a taxa de homens jovens vítimas é três vezes maior (21,1 por 100 mil)”.
    Brasil a taxa de assassinatos é de 22,7/100 mil habitantes, a Líbia, por outro lado, recente palco de conflitos étnicos entre exército e civis, a taxa é de apenas 2,9. Nos demais países árabes esse índice é ainda menor: 2 no Iraque: 1,8 na Jordânia e 1,2 no Egito.
    Outro indicativo dessa pesquisa é o papel do crime organizado e as gangues de rua que estão diretamente relacionadas ao número de mortes nas Américas.
    Do total de homicídios apontados pelo estudo, 36% são de responsabilidade dos países africanos.

    Que fazer?

  2. jorge disse:

    Cara Rita,
    Na lógica e no interesse dos guerreiros, se não houver guerras (incluída a “guerra às drogas”), o mercado de armas (internacional, local, legal e clandestino) se enfraquece. Para eles, as mortes são o tributo que se paga à paz.

  3. piancó disse:

    Caro amigo,
    Como voce bem relatou, seria impossível a PMERJ ocupar todos os espaços para dar segurança a toda população do nosso Estado.Somente quando vem a tona casos inacreditáveis, como o recente da Chatuba é que as autoridades de Segurança Pública procuram puxar o cobertor curto e tenta colocá-lo para cobrir outra comunidade que naquele momento está desamparada.O Estado não é proativo para solucionar problemas.A Polícia Civil cuja missão Constitucional é de investigação, não cumpre o seu verdadeiro papel. Aqui no Estado do Rio, se não me falha a memória, somente oito por cento dos delitos a investigação chega aos seus autores. Assim fica difícil combater a criminalidade na raiz.
    Abs Piancó

  4. jorge disse:

    Caro Piancó,
    É isso mesmo. A PM é estadual, mas parece que, para muitos, ela existe para policiar apenas a cidade do Rio de Janeiro. Bom que você se manifeste.

Envie o comentário


0/Limite de 1800 caracteres

Add video comment