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Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

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(Cont…) CORRUPÇÃO. PMs E A FALÁCIA PARALISANTE DAS “MAÇÃS PODRES” (II)

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(Nota. Esta postagem é republicada agora (foi postada originalmente no dia 26 de julho de 2010), em virtude do caso envolvendo PMs por ocasião do assalto ocorrido no dia 13 de agosto ao restaurante Brasa Gourmet, na Tijuca, em que eles foram filmados saindo do local do crime com a mochila de um dos assaltantes).

 

Um jovem, na flor da vida, morre atropelado. O atropelador estaria participando de um pega em local interditado à circulação de veículos. PMs liberam o carro do atropelador em fuga. Seu pai declara ter adiantado 1 mil reais dos 10 mil pedidos por eles para acobertarem o crime, e teria, junto com um outro filho, levado o carro a uma oficina, em plena madrugada, para ser lanternado com a máxima urgência. O dono da oficina, vizinho do pai do atropelador, inicia o serviço logo logo, como se fosse uma encomenda normal…

Corrupção. A população fica indignada, sobretudo com a atuação dos PMs. E questiona também a atitude do pai do atropelador, cujo filho, de 25 anos, ligou-lhe logo após o ocorrido, pedindo ajuda (para ele, filho…).

Temos aí mais um CASO a ser aprofundado, não apenas sob o ponto de vista criminal, no sentido da punição exemplar dos culpados. Tão ou mais importante será o aprofundamento da análise dos fatos sob a perspectiva sociológica. Ora, é óbvio que, confirmadas as acusações, a população espera que os PMs sejam liminarmente expulsos da Corporação, e condenados. E o atropelador fugitivo, condenado por homicídio (culposo ou doloso, como o digam as investigações); e seu pai, por corrupção ativa, adulteração de provas etc., sendo necessário também indagar sobre a responsabilidade do lanterneiro, dono da oficina. Mas não se deve parar aí. Cumpre que os especialistas se perguntem: estaríamos diante de um fato inusitado ou ele faz parte de como se desenvolvem as “relações” em nossa sociedade? E se o jovem atropelado e morto não fosse filho de quem era? E o comportamento da família (sic) do atropelador para livrá-lo da responsabilidade? Em se tratando dos PMs, estaríamos diante de um caso isolado, desvio individual de caráter de dois maus policiais, ou dos efeitos da chamada corrupção sistêmica, favorecida pelo próprio sistema social e pela forma como casos assim são encarados?

Corrupção. Talvez resolva o problema de muitos de nós, os bons, tomar o pai do atropelador e os PMs (acusados de corrupção ativa e passiva, respectivamente) como exceções à regra das relações sadias que norteariam as práticas públicas e privadas entre nós. As manifestações de indignação podem servir também para expiar culpas. De um lado, os bons, de dentro e de fora; de outro, umas poucas “maçãs podres”. “Podres” a posteriori”… Simples. Bom caminho para que as coisas permaneçam como são. No setor público, todos estariam isentos de culpa, exceto os dois PMs; na sociedade, à exceção do pai do atropelador, idem.

Em suma: a teoria das “maçãs podres” (de natureza meramente moralista-individualista) transforma-se em ótimo biombo para onde empurrar as verdadeiras mazelas da sociedade e das instituições. Com isso, foge-se da análise da corrupção sistêmico-organizacional, fenômeno social, a qual, se procedida, traria à baila responsabilidades e culpas outras. Uma falácia conveniente, com ser paralisante.

Se interessar, para uma análise meramente teórica sobre o tema da corrupção policial em particular, ir para o artigo de fundo “linkado” abaixo:

http://www.jorgedasilva.com.br/index.php?caminho=artigo.php&id=30

 

 


 

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7 comenários to “(Cont…) CORRUPÇÃO. PMs E A FALÁCIA PARALISANTE DAS “MAÇÃS PODRES” (II)”

  1. Paulo Xavier disse:

    Cel Jorge da Silva.
    O sistema sempre funcionou assim. Tivemos recentemente fatos graves envolvendo altas autoridades; pelo menos foi o que vi na mídia. O que aconteceu!? Nada. De repente pararam de tocar no assunto e caiu no esquecimento do povo.
    Sobre o caso dos PMs desse jovem no túnel, a PM agiu como determina a lei e o regulamento discilplinar e lavou as mãos, evitando assim uma cobrança maior e mais exposição negativa na mídia. Sobre os outros envolvidos no acidente e no desenrolar dos fatos, o processo é mais lento, depende de outros fatores e etc…etc…
    E como diz Lulu Santos “Assim caminha a humanidade/Com passos de formiga e sem vontade”.

  2. Marlene Ramos Calheiros disse:

    Coronel Jorge da Silva

    O senhor é conhecido como um coronel PM que. Está dentre um dos que tem um nível elevado de sabedoria e eloquência e Lucidez acadêmica em suas palestras e artigos. Os arapongas já devem ter revirado toda sua vida na busca de atitudes não libadas em sua brilhante carreira. Ai, essa TURMA ficam “caladinhos”, surdos e mudos. Sua carreira como policial e professor são fies ao que o senhor acredita e escreve.
    Contudo, a mídia releva uma loucura dentro da instituição PM e Brigadas Militares. Vide, pois, a notícia lamentável de hoje onde um ex comandante do BOPE e parado pela LEI SECA na Barra da Tijuca.
    Além da “carteirada” questionou os brilhantes dois sargentos e um cabo “TRABALHADORES FARDADOS”.
    Não houve jeito! Ficou sem a Carteira de habilitação e teve seu carro um PORSCHE 2012 apreendido. Ora, é difícil acreditar que um coronel da PM possa ser proprietário de um carro de luxo, um PORSCHE – cujo valor não é compatível de modo algum com seus vencimentos.
    A apuração deste fato com certeza nos levaria a esclarecer muitos fatos “obscuros”. A relação automóvel X renda é um dos mais simples parâmetros para esclarecermos e justificarmos a aquisição de qualquer BEM MATERIAL.
    Eis ai, um fato para seu brilhante artigo (CORRUPÇÃO. PMS E A FALÁCIA PARALISANTE DAS “MAÇÃS PODRES)
    Atenciosamente,
    Boa noite !

  3. jorge disse:

    Cara Marlene,
    Concordo com a sua observação sobre a “carteirada”. É exemplo de um velho mal da nossa sociedade, o “Você sabem com quem está falando?”, mas acho precipitado associar automaticamente a posse de um veículo caro com corrupção, pois não sabemos se o citado oficial possui outras fontes de renda. De todo modo, também acho que uma das formas de luta contra a corrupção é começar comparando os ganhos de alguém, em qualquer setor de atividade e em qualquer nível, com manifestações exteriores de riqueza incompatíveis com tais ganhos.

  4. Adilson da Costa Azevedo disse:

    Caro Jorge,

    Um ex-governador do Estado em determinado momento resolveu excluir policiais da chamada “banda podre”. As exclusões foram feitas de forma heterodoxa. Outros policiais que também pertenciam a esse grupo, ficaram “no sapatinho”, receosos daquelas exonerações sumárias. Coincidentemente, naquele período ocorreu uma significativa redução da criminalidade, conforme pode ser comprovada nas estatísticas da época. O secretário de segurança em exercício atribuiu a diminuição do índice de criminalidade a sua gestão. Creio que ele estava enganado.Na verdade, o fato de um simples policial envolvido de forma ativa ou passiva com o crime é multiplicador da criminalidade. Em qualquer empresa, os desvios de conduta são estimados em aproximadamente 3%. Imagine esse percentual aplicado na polícia, o efeito multiplicador na estatísca da criminalidade com o envolvimento desses policiais com o crime. Em virtude da forma da exclusão, esses policiais voltaram e também as estatísticas foram “normalizadas”.Para minorar esse problema não seria interessante a volta daquela política do ex-governador, agora de forma ortodoxa? Não seria importante o fortalecimento da seção de “Assuntos Internos” das polícias para empreender essa política?. Frank Serpico, o policial que foi ícone no combate a corrupção policial nos Estados Unidos na décade de 70, concluiu: “Para existir corrupção tem que haver permissividade de cúpula.” Você acredita nisso?

  5. jorge disse:

    Caro Adilson,
    Não sei a que cúpula Sérpico se referia, se ao poder político ou à cúpula da polícia. Concordo em que é muito importante o trabalho das corregedorias e o expurgo dos corruptos. O problema é saber, de antemão, quem são os corruptos e quem são os honestos, pois as corregedorias costumam atuar reativamente, pegando apenas os azarados, os incautos e os refratários aos “sistemas”. Com certeza, o número dos que caem nas suas malhas é bem menor do que o daqueles que, corruptos encobertos, passam por honestos (Demóstenes era honesto…). No caso de Sérpico, estamos falando de outro contexto social… Bem, embora entenda que a corrupção policial (e do judiciário) seja a pior de todas, às vezes fico matutando: como esperar uma polícia íntegra numa sociedade em que a corrupção é praticada em escala, em todos os níveis e em todos os setores, de cabo a rabo? E onde quem quer ser honesto é considerado babaca? (Obs. Se interessar, remeto o amigo a artigo que precisei escrever há 10 anos para encontro sobre o tema na Polônia: http://www.jorgedasilva.com.br/artigo/30/corrupcao-policial-e-a-teoria-das-

  6. Adilson da Costa Azevedo disse:

    Caro Jorge,

    Li novamente o seu texto sobre a corrupção e a “teoria das maçãs podres”. Trata-se de um trabalho acadêmico em que você problematiza a corrupção e sugere as possíveis políticas de correção. No entanto, apesar da importância do conteúdo de todo o texto, destaco o que considerei crucial quando você faz uma exposição macro da corrupção, fazendo a seguinte ressalva: “Este fato não pode ser usado para justificar a corrupção policial, porém a luta contra ela implica a conscientização ético-moral da população em geral, e, mais que tudo, dos jovens.” O seu texto se fosse escrito há 20, 30, 100 anos anos estaria atual. Sobre o tema enquanto você viver(espero que voce chame Niemeyer de “meu garooooto’!!!!) esse trabalho poderá ser apresentado em qualquer simpósio sobre o assunto em virtude de que não terá modifcações a serem feitas. O grande problema é quem detem o poder de promover as mudanças que você sugere, se locupleta do sistema vigente, já estando até naturalizado com esse seu “direito” . Com esse óbice, o que fazer para que o seu texto daqui a 50, 100 ou 200 anos não permaneça atual?

    Obs. Sugiro aos ilustres visitantes do Blog que (re)leiam esse trabalho de Jorge da Silva sobre o tema que de forma técnica e simples dá uma visão global sobre a corrupção no Brasil.

  7. jorge disse:

    Adilson,
    A minha esperança é que mais pessoas falem sobre essa enganação das maçãs podres. Demóstenes era uma maçã boa que só falava em expurgar as maçãs podres; de repente, azarado, virou maçã podre. Por essa lógica, até que outros Demóstenes se descuidem, o Congresso só terá maçãs boas. E ninguém mexe na corrupção sistêmica,propiciada pelo toma-lá-dá-cá OFICIALIZADO entre empresas contratantes e o poder público etc. etc.

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