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Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

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OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA. E VIOLÊNCIA URBANA

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No dia 5 de janeiro de 2007 realizou-se na Universidade Federal Fluminense importante debate sobre “criminalidade, violência, políticas públicas e o trabalho da imprensa”. O debate foi organizado pelo Observatório da Imprensa, sob a responsabilidade do jornalista Mauro Malin, com o apoio dos professores Roberto Kant de Lima (UFF) e Jorge da Silva (Uerj), e contou a participação do promotor público do RJ Astério Pereira dos Santos e dos jornalistas Jorge Antônio Barros, do jornal O Globo, Sérgio Torres, da Folha de S. Paulo, André Luiz Azevedo, da TV Globo, do próprio Mauro Malin e dos professores mencionados. (Obs. O inteiro teor do debate encontra-se no Observatório da Imprensa, no link ao final).

Permito-me uma breve apreciação pessoal. Algo que ficou claro é que as subjetividades envoltas nos discursos sobre a violência e na divulgação dos fatos enviesam a compreensão da realidade. Como se sabe, tanto os discursos quanto a divulgação dos fatos são afetados por preferências, interesses, identidade social etc. Mais ou menos no sentido do que os criminologistas procuram explicar com a distinção entre insegurança objetiva (o risco de alguém ser efetivamente vitimizado em determinado lugar ou momento) e insegurança subjetiva (o medo de ser vitimizado, até mesmo onde e quando não haja risco algum). Depreende-se desde logo que o papel da mídia é fundamental para que haja equilíbrio entre uma coisa e outra; para que não haja exacerbação do medo nem minimização dos riscos.

A advertência procede, pois é comum observar-se uma polarização interessante, que se inverte ao sabor do momento político, na base do seguinte maniqueísmo: “totalmente contra ou totalmente a favor”. Assim, fora do governo ou contra ele, empenho-me em amplificar os fatos que julgo negativos (ou os invento). No governo ou a favor dele, em qualquer setor de atividade, empenho-me em invisibilizar fatos idênticos ou, na impossibilidade de fazê-lo, jogo luz em fatos que considero positivos (ou os invento). Fora do governo ou contra o mesmo, posso bradar contra a violência; no governo ou a favor dele, posso proclamar a paz em meio ao tiroteio.

O problema é que todos nós temos mais de uma inserção social. Nascemos em algum lugar, moramos e temos vizinhos no bairro tal, sendo natural que clamemos por mais segurança ali, ainda que em detrimento de outros lugares. Posso, como cidadão, achar que direitos humanos são uma panaceia, ou que bandido bom é bandido morto. Porém, na condição de alguém com alta responsabilidade social, como é o caso do jornalista, as coisas mudam de figura…

Bem, não quero dizer o que não foi dito no debate, razão pela qual transcrevo a introdução de Mauro Malin e convido o leitor a ler o inteiro teor do debate.

Disse Malin na introdução de “Debate Busca Raízes da Violência“:

“O leitor encontra aqui a edição da primeira parte desse debate. Nos próximos dias será publicada a segunda parte. [Clique aqui para ler a segunda parte do debate.] O tratamento do texto é trabalhoso porque se trata da transcrição quase literal de uma gravação. Evita-se assim incorrer nos vícios da edição que “adapta” falas até que elas se amoldem a uma concepção inicial do repórter ou do editor. Não se trata de encerrar a conversa, mas de iniciá-la diante do público leitor.
O jornalista não se limita a narrar os fatos como se fosse os olhos da sociedade. Ele os seleciona e os interpreta. Sempre. E na presente introdução não se foge à regra. O debate é transcrito de forma extensiva. Mas procuro aqui sintetizar as impressões que me deixou o encontro.

Se tudo “der certo”, dará errado

A mais abrangente, a que me parece mais relevante, não é nada animadora: se todas as “boas” medidas (medidas “corretas”, à luz do senso comum e das melhores intenções de autoridades, especialistas e homens da imprensa) ora propostas pelos governantes funcionarem, a crise social brasileira, da qual a criminalidade em larga escala é indissociável, pode piorar. Isso porque são medidas calcadas numa lógica repressiva. E essa lógica repressiva já deu demonstrações abundantes de que não melhora, mas piora a situação. A crise que se vive hoje é a crise do modelo repressivo, nunca abandonado. O abuso da repressão é antidemocrático, enfraquece a autoridade e alimenta a corrupção. Isso fica bem patente na primeira parte do debate.”

Se interessar, o inteiro teor do debate encontra-se no Observatório da Imprensa em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/posts/view/debate-busca-raizes-da-violencia

 

 

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3 comenários to “OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA. E VIOLÊNCIA URBANA”

  1. F. Cristina disse:

    Em todos os debates, seminários, simpósios realizados por especialistas em Segurança Pública o tema da ineficácia do modelo repressivo é abordada. Ótimo que os doutores estudiosos cheguem a esta conclusão. Realmente acredito que o conceito “violência gera violência” não é a solução para a complexidade do problema da segurança. Diante de tantas discussões sobre o assunto fico perplexa em constatar que muito se discutiu, ações foram tomadas pelas autoridades competentes e a insegurança continua às nossas portas.

  2. Jorge M. Endo disse:

    Penso em todas as medidas tomadas na área da Segurança Pública nos últimos 2 anos contra a violência da cidade do Rio de Janeiro, fico sem saber em que ponto estamos, de um lado a imprensa diz que o número de homicidos aumentou 6% em relação ao mesmo período e de outro as autoridades competentes dizem que o referido índice diminuiu. Na minha opinão, enquanto se avança na discussão das medidas contra a violência a imprensa e a Secretaria de Segurança Pública ainda não decidiram como irão apresentrar os números, ouseja, cada um tem a sua visão de uma realidade.

  3. José Marcos Pereira disse:

    Na verdade desde épocas remotas que os poderosos ditam as normas e governam em benefício próprio. Nos dias atuais, a imprensa tornou-se o meio mais poderoso de manipulação das massas e os seus gestores fazem parte da elite dominante. A isenção é improvável e a violência é um dos filões de ouro na veiculação das notícias. Será que há, realmente, interêsse em resolver o problema? Como muito bem diz o Prof. Jorge da Silva, a violência está intimamente ligada a desigualdade social. O resto é balela.

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