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Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

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(Cont…) DE NOVO, COTAS NAS UNIVERSIDADES (II)

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(Nota. Esta postagem complementa a de mesmo título, cinco postagens abaixo).   

Assim que se noticiou, no dia 8 ago, que o Senado da República aprovara projeto estabelecendo cotas sociais e raciais para o preenchimento de 50% das vagas nas universidades e escolas técnicas federais, o jornal O Globo questionou a medida, em defesa do critério do mérito. Ocupou-se do tema nas edições seguintes. No dia 9 ago, publicou editorial com fortes críticas ao projeto, chamando os seus defensores de “racialistas”. No dia 13 ago, em manchete de primeira página e em letras garrafais, lia-se: “Nova lei dobra reserva de vagas nas federais do Rio”. Essa manchete passou a ideia de que todas as federais do Rio já reservam 25% das vagas para esse fim.

As divergências de opinião são da essência das democracias. Razões há, válidas, para que alguém seja a favor do projeto ou contra. Contra, os que defendem os critérios do mérito e da igualdade (“Todos são iguais perante a lei!”; “As oportunidades são iguais para todos!”). A favor, os que entendem ter o Brasil uma longa história de racismo estrutural (diferente de racismo individual). Estes dirão: “Dívida histórica!”; “Ação afirmativa!”; Cotas!”.

A rigor, são posições que não se excluem. O critério do mérito é o ideal, ou melhor, seria o ideal, não fossem tão díspares as condições da disputa entre os concorrentes. Pelo raciocínio meritocrata, na corrida pelas vagas nas universidades públicas (gratuitas e geralmente de boa qualidade), disputariam o mérito, numa raia, alunos saídos de tradicionais e caros colégios particulares, filhos de famílias com estrutura econômica e sócio-cultural consolidada, e na outra, alunos oriundos do ensino precário de escolas públicas igualmente precárias da “periferia” (o que pode explicar os indicadores negativos do IDEB), alunos em geral de famílias sem as mesmas vantagens e tradição.

COTAS NO ENSINO BÁSICO. Ainda bem que o jornal admite cotas sociais e defende a melhoria do ensino básico. Melhor ainda se defendesse que o poder público (federal, estadual e municipal) destinasse pesados recursos, incentivos e mais isenções fiscais para ampliar de forma substancial a presença de alunos negros e brancos pobres no ensino fundamental e médio de colégios como o São Bento, o Anglo-Americano, o Santo Inácio, o Instituto Abel, por exemplo.

Bem, o jornal também revelou que a Federação Nacional das Escolas Particulares prometeu recorrer à Justiça. Fica claro o recôndito motivo de muitos dos que são contra. E de o projeto educacional de Darcy Ribeiro, dos Cieps, ter sido tão guerreado. Nada a ver com mérito ou igualdade…

PS. A propósito da educação no País, remeto o leitor à carta de Sean a Scott Wilson. Clicar:

http://www.jorgedasilva.com.br/cronica/2/educacao.-carta-a-scott-wilson/

 

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12 comenários to “(Cont…) DE NOVO, COTAS NAS UNIVERSIDADES (II)”

  1. paulo roberto disse:

    Essa pretensão da Federação Nacional de Escolas Particulares é o cúmulo da desfaçatez. Há décadas esses estabelecimentos vivem e vicejam graças ao total descaso do Estado com o ensino público. Seus representantes dominam, estrategicamente, as Comissões de Educação dos Poderes Legislativos, e, por óbvio, não demonstram nenhum interesse real e concreto em melhorar a educação pública.
    E no momento em que se toma alguma medida que possa representar algum ganho para a população mais pobre, e causar o menor prejuízo aos donos de escola particular, surge todo um amor pela igualdade, pela meritocracia. Hipocrisia da pior qualidade.
    Nunca teremos um serviço público de qualidade enquanto aqueles que lucram com o caos financiarem campanhas eleitorais e dominarem os poderes constituidos. Seja na saúde, seja na educação.

    Se amam tanto a igualdade, decretemos a escola pública para todos compulsoriamente.

    Abs, PAulo Roberto

  2. jorge disse:

    E o engraçado é que até os empresários do setor educacional, sem contar as camadas que se beneficiam do tradicional modelo excludente brasileiro, articulam o discurso politicamente correto de que é preciso melhorar a escola pública. Caras de pau.

  3. Adilson da Costa Azevedo disse:

    Caro Jorge,

    Há cerca de dez anos foi inaugurado um Forum em Volta Redonda onde foram instalados os Juizados Especiais. Nessa oportunidade foi realizado um concerto de violinos, cujos músicos eram crianças negras da favela denominada de Nova Brasília. Esses meninos executaram peças de Bach, Beetoven e outros. Essa orquestra, com o apoio do município, foi organizada por uma maestrina negra que vencendo todas as barreiras conseguiu concluir o seu curso superior de música e ministrou todas as aulas para a formação dos meninos. Imagine se além das cotas nas universidades pudesse também ser ampliado um programa semelhante ao de Volta Redonda em todos os municípios brasileiros nas diversas áreas do conhecimento também com cotas? Como disse o compositor Beto Guedes “Sonhar já é alguma coisa, é melhor que não sonhar”.

  4. jorge disse:

    Caro Adilson,
    Cidadania, na sociedade brasileira, é algo que só se admite em doses homeopáticas, menores do que no padrão da “cidadania regulada”, como explicada por Wanderley Guilherme dos Santos. Nas áreas da educação e das artes, então, nada de políticas inclusivas de caráter abrangente. Admite-se, sim, esta ou aquela ação pontual, para um grupo reduzido de meninos ou meninas ali na “comunidade” X, de onde sairá um(a) vencedor(a), com foto, nome, sobrenome e história de vida, a ser apresentado(a) como mérito, não próprio, mas de alguma ONG, empresário ou da emissora, ou… “CIDADANIA!!!” O que você propõe é realmente um sonho, mas lhe asseguro que não é o sonho dos que não querem abrir mão da sua reserva de mercado. Bem, sonhemos!

  5. Caro Coronel Jorge da Silva,

    Sou a FAVOR das COTAS SIM!
    A questão é, enquanto não se tiver um ensino público de qualidade no país, os menos favorecidos não terão boas chances no mundo do trabalho.
    Pergunta-se: alguém sabe quanto custa a mensalidade da Escola de Magistratura? Alguém sabe quanto está custando um cursinho pra’ se passar pra’ Escola de Magistratura? Pois é…
    Pode um professor lecionar ao mesmo tempo num colégio particular e num colégio público e apresentar da mesma maneira, o mesmo conteúdo programático? Isto já não é Segregação?
    Por falar em SEGREGAÇÃO, infelizmente essa discussão está levando esse fenômeno às salas de aula, às redes sociais, pois os cotistas ganharam um ‘rótulo’. Agora, estão separados em ‘cotistas’ e ‘não cotistas’. Não era para acontecer isso!!! Jovens, adolescentes não deveriam ser incitados a tal DIVISÃO!!! Deveriam se preocupar em ESTUDAR! Que cada um faça a sua parte na sala de aula, sendo ‘cotista’ ou ‘não cotista’.
    Quanto à atualmente alguns negros serem bem sucedidos, sem precisarem de cotas… São exceções… Se formos analisar, talvez alguns deles, estudaram em colégios particulares, pois eram bem mais acessíveis aos ‘bolsos’ da população. E ainda, antigamente, o ensino público era de qualidade… Havia muito mais chance de sucesso. Há muito tempo, nosso ensino público vem decaindo…

  6. E ainda,

    Isto posto, defendo um sistema de cotas para que haja igualdade entre as classes.
    E quanto aos salários dos professores da Rede Municipal de Ensino 1º ao 4º ano? R$1.800,00
    Quanto aos salários dos professores dos Colégios de Aplicação das UERJ e UFRJ? Esses seletos profissionais percebem de 4 a 6 mil reais.
    Porque não falar do Colégio PEDRO II por onde vários notáveis da política nacional passaram?
    Pasmem: Um professor do referido “COLÉGIO PÚBLICO FEDERAL” com 20 anos de tempo de serviço recebem em suas contas aproximadamente 12 mil reais.
    Ora, ora, ora. Não é uma discrepância, um acinte a nossa inteligência e ao povo brasileiro?
    Diante deste pequeno resumo, como não defender as cotas??? COTAS para todos os professres da REDE PÚBLICA ESTADUAL E MUNICIPAL…

  7. Matheus disse:

    Sou completamente a favor!

  8. Matheus disse:

    É uma maneira de amenizarmos as diferenças e injustiças históricas!

  9. jorge disse:

    Concordo. Cotas também no ensino básico, no São Bento, Santo Inácio e congêneres.

  10. jorge disse:

    Eu também, embora não entenda que esta seja A SOLUÇÃO única.

  11. Raquel Santtana Lins e Souza disse:

    Ninguém fala dos salários dos miseráveis professores das redes estaduais e municipais de educação ?
    Só estamos nessa situação porque a classe de professores é desunida. Nós temos a faca e queijo na mão, pois somos formadores de opiniões. E que país é esse que se diz ser democrático e o voto é obrigado?
    COTAS SIM- SALÁRIOS JUSTOS PARA OS PROFESSORES !
    Ai meu DEUS ! Esqueci . Professores municipais e estaduais não são da ELITE DA EDUCAÇÃO . (Os pensadores )

  12. jorge disse:

    Cara Raquel,
    Acho que as coisas estão mudando. A obrigatoriedade de publicação dos salários do serviço público mostrou o absurdo de os professores e os profissionais da saúde ganharem três ou quatro vezes profissionais de outras áreas com as mesmas exigências de formação. As greves são uma prova disso.

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