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Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

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CINISMO AO CUBO, CRIMINALIDADE VIOLENTA E OS TRÊS MACAQUINHOS

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 (“Pensar em controlar o crime de rua enquanto o crime organizado viceja é ignorar as suas claras  conexões. […] Onde o crime do colarinho branco é aceito, os assaltos a residências, roubos e furtos devem ser esperados.” (Ramsey Clark, ministro da Justiça dos Estados Unidos na década de 1960)).

Fico imaginando o que não passaria pela cabeça dos “criminosos de rua” (convencionais), incluídos os que estão dentro dos presídios, ao assistirem à TV nos últimos anos, e crianças aprendendo com ladrões poderosos (não-convencionais), ao vivo e em cores, que vale a pena roubar, desde que se trate de milhões e que se saiba mentir com cara de anjo. Curioso mesmo é constatar que muitos dos respeitáveis senhores envolvidos em escândalos milionários bradam pelo endurecimento das penas quando se trata de criminosos de rua, falando até em pena de morte. Cínicos!

A teoria dos três macaquinhos sabidos incorporou-se em definitivo como valor ético em setores políticos e empresariais importantes. O “não vi, não ouvi, não falei” passou a ser adotado com desfaçatez de cima a baixo; da direita à esquerda…

O alerta de Ramsey Clark continua atual, e cabe como uma luva na sociedade brasileira. Que ninguém se iluda: a roubalheira dos poderosos é estímulo à roubalheira geral, e serve de justificativa para os criminosos saídos do populacho. E ninguém pense em ensinar a ética do trabalho e do estudo em meio a um quadro em que o que mais conta é a ética da esperteza, no mau sentido. Em que o honesto é considerado babaquara.

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8 comenários to “CINISMO AO CUBO, CRIMINALIDADE VIOLENTA E OS TRÊS MACAQUINHOS”

  1. Cel Wilton disse:

    Caro amigo Cel Jorge, o mais duro nisso tudo, para nós, já avôs, traçarmos os limites da decencia para nossos netos,e este é nosso dever maior, é que se nos reportarmos aos nossos referenciais éticos, enraizados ao longo de nossa formação, acabaremos tornando-os babaquaríssimos.Isso é muito doloroso. Por isso, pelo andar da carruagem, de vez em quando, dá vontade de virar homem bomba.Abraço, Cel Wilton.

  2. jorge disse:

    Caro amigo,
    O importante é não ficar calado. Cada um é homem-bomba a seu jeito. As grandes revoluções e guerras do mundo começaram com palavras. Creio muito mais na força delas do que na das bombas propriamente. Não sou homem-bomba, como você também não é, mas de vez em quando soltamos uns petardos…

  3. paulo roberto disse:

    Grande Professor Jorge, esse é o verdadeiro nó da segurança pública no Brasil. Numa democracia não há como estabelecer que o andar de cima pode tudo, e o andar de baixo não pode nada. A sociedade brasileira é criminógena em si mesma. Podemos traçar um paralelo instigante: nascido na pobreza e na ignorância tornou-se traficante, nascido na riqueza e altamente estudade tornou-se uma parlamentar corrupto ou um empresário corruptor. Ambos criminosos, mas só o traficante vai ser morto ou preso. Por que?

    Abs, PAulo Roberto

  4. jorge disse:

    Caro Paulo,
    Eu já disse em outro lugar: em algumas sociedades, o corrupto, quando flagrado com a mão na massa, suicida-se, com vergonha da família e dos amigos; em outras, é fuzilado por ofensa à honra da Nação; em outras, como o Brasil, o corrupto é que se apresenta indignado. Aqui, cristalizou-se uma certa lógica no mundo político: “Os corruptos de vocês são mais corruptos do que os nossos”. E vice-versa.

  5. adilson da costa azevedo disse:

    Caro jorge,

    O professor e procurador de justiça do Rio Grande do Sul Lenio Streck em entrevista ao jornal ” Tribuna do Advogado” editado pela OAB no mês de agosto, citou um trecho do livro de Honoré de Balzac, ILUSÕES PERDIDAS, escrito em 1840 criticando o sistema judiciário francês daquela época: “Para as galés vão os gatunos que roubam galinhas à noite nos quintais, ao passo que mal ficam alguns meses na prisão aqueles que arruinam famílias com falências fraudulentas; mas esses hipócritas sabem muito bem que condenando ladrões de galinhas, MANTÉM A BARREIRA ENTRE POBRES E RICOS, BARREIRA QUE, DERRUBADA, PROVOCARIA O FIM DA ORDEM SOCIAL(grifo meu), ao passo que quem cometeu falência fraudulenta, o esperto usurpador de heranças e o banqueiro que destrói um negócio em proveito próprio, só estão fazendo com que a riqueza mude de mãos.” Esclarece o mestre: “São palavras do Padre Herrera ao personagem Lucien no citado livro” e questiona: ” O que mudou de de lá para cá? Pouco”.
    Como se verifica é um texto muito atual e no Brasil agravada pela absoluta impunidade, raramente com algum figurão preso, mesmo por pouco tempo. Vamos aguardar o desfecho do julgamento do MENSALÃO, ao que parece, tendo ocorrido uma inversão de valores. A minha percepção é que as pessoas estarão julgando o STF e qualquer resultado que não leve ninguém a prisão, seja pela prescrição da pena em concreto ou substituição da pena em prestação de serviços, ou outra figura jurídica, o Supremo será “condenado”, porém, nós sabemos que só existe um culpado: O “sistema”. O que fazer?

  6. jorge disse:

    Caro Adilson,
    Não são os pobres que fazem as leis, que indicam os ministros (do Executivo e do Supremo), nem são os pobres que dominam a economia. Logo, não se pode esperar nada muito diferente do que disse Balzac e do que está aí. Ainda bem que, com todos os problemas e apesar de não estar totalmente fora do sistema, os meios de comunicação vêm contribuindo para expor as mazelas do sistema e as caras sujas de algumas “excelências”.

  7. Adilson da Costa Azevedo disse:

    Caro Jorge,
    O saudoso e irreverente cantor Dicró foi candidato a um cargo eletivo, e um eleitor fez a seguinte reclamação para ele: “Seu Dicró, na minha rua não tem água nem esgoto, quando chove fica cheia de buracos, quando não chove é poeira, o lixo não é recolhido, ficamos refens de criminosos… nesse momento Dicró interrompeu o seu interlocutor e disse: Ô meu filho! O que que você está fazendo aí? sai logo desse lugar! Na sua resposta se depreende que a solução para o pobre é tornar-se rico. A exposição das mazelas não tem ajudado muito, pois os escândalos vem sendo repetidos em todos os governos, com pouca eficácia, tudo permanecendo inalterado. Como dar oportunidade aos pobres? O voto muda pessoas mas não muda o “sistema”. Ou devemos aceitar que a única lei viável é a “Lei do Murici”? Ou nos conformarmos pelo determinismo histórico? Existem soluções?

  8. jorge disse:

    Caro Adilson,
    Acho que as coisas já foram muito piores. Não importa que os mensaleiros não tenham vergonha. Estão sentando na boneca, e isso é novo.

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