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Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

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POR TRÁS DAS MORTES DA PM FABIANA E DA MENINA BRUNA

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Dois fatos tristes abalaram o Rio de janeiro na semana finda: a morte da PM Fabiana durante ataque de traficantes à base da UPP Nova Brasília, no Complexo do Alemão (23/07), e a morte da menina Bruna, de 10 anos, em tiroteio entre traficantes e PMs do Bope, no Morro da Quitanda, em Costa Barros, Zona Oeste (27/07).

Logo após a divulgação do ataque à UPP, a sociedade se perguntava, perplexa, como tal fato pôde acontecer, pois se acreditava que a maioria dos traficantes tivesse sido expulsa do local, ali ficando apenas alguns remanescentes. Para as autoridades da segurança, era ponto de honra, e é, prender os autores da afronta. Além disso, tratou-se de reforçar o policiamento daquela área. No calor da emoção, não faltou quem falasse em retaliação e na volta do Exército. E quem sugerisse colocar blindagem nas bases das UPPs e nas viaturas a fim de melhor proteger os policiais. Outros se ocuparam de críticas, reclamando dos coletes distribuídos aos policiais, que não resistiriam a tiros de fuzil etc. Enfim, como se esses fossem os reais problemas…

Em se tratando do evento do qual resultou a morte da menina Bruna, parece que a única coisa que interessa à mídia é saber se o tiro fatal partiu dos policiais do Bope ou dos traficantes. Repete-se o velho filme: os moradores acusam os PMs, e estes, os traficantes. Saber de onde partiu o tiro vira o cerne da questão. O tiroteio em si é tomado como algo natural, contingência do esforço da polícia pela pacificação. Se a perícia concluir que o tiro que matou Bruna partiu dos traficantes, mais razão para aumentar a repressão; se concluir que partiu dos PMs, o diagnóstico será o de sempre: despreparo. E pronto. Como se esses fossem os reais problemas…

Ora, a PM Fabiana foi morta com um tiro de fuzil de assalto cal. 7,62 (de combate); e a menina Bruna, ao que tudo indica, também. E não se deve esquecer de que o poderio dos traficantes provém do promissor mercado mundial de drogas (e de armas…). Portanto, não estamos falando propriamente de UPPs e traficantes, e sim desses mercados, o que realmente está por trás das mortes da PM Fabiana e da pequena Bruna. No que tange às drogas em particular, o problema é a forma como as mesmas vêm sendo tratadas, desde que, na década de 1960, os norte-americanos decidiram deflagrar o que chamaram de “war on drugs”. A receita macabra com a qual convivemos hoje, portanto, resulta da combinação desses dois ingredientes: “guerra às drogas” e proliferação de armas.

Há que perguntar: quantas Fabianas e Brunas mais terão que morrer (já morreram milhares) para que os céticos brasileiros se convençam de que a “guerra total” concebida pelos nossos irmãos do Norte nasceu falida? No mundo inteiro, o consumo e o tráfico só fazem aumentar, assim como a matança. Será que pensam que é assim por um mandamento divino? Na verdade, é ilusão imaginar que é possível conciliar o objetivo da pacificação com o da malfafada guerra, de nada adiantando transformar traficantes em atalho. Pior, atribuir à polícia o trabalho de Sísifo.

Bem, começa outra semana. Vamos mudar de assunto, até que novas tristes mortes voltem à pauta… Em tempo, cito interessante nota da coluna de Ancelmo Gois, de O Globo:

“De volta ao morro… 
Aliás, por falar em UPPs, Martinho da Vila, depois de dez anos, subiu o Morro dos Macacos, na sua Vila Isabel: — O morro está tranquilo. Mas eu esperava encontrar posto médico, Defensoria Pública, Juizado de Pequenas Causas, escolas. Entretanto, só vi polícia.” 

Alguém poderá perguntar: “Então, o que fazer em relação ao tráfico?” Não sei, mas talvez invertendo a lógica, como proposto em “Drogas. Alternativas à Guerra”. Conferir em:

(http://www.jorgedasilva.com.br/artigo/40/drogas.-alternativas-a-%E2%80%9Cguerra%E2%80%9D-*/)

 

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6 comenários to “POR TRÁS DAS MORTES DA PM FABIANA E DA MENINA BRUNA”

  1. paulo roberto disse:

    Olá Professor, infelizmente esses fatos lamentáveis se repetem, se repetem e se repetem, e é incrível como as (supostas) cabeças pensantes do establishment continuam incapazes de entender a nossa realidade. Outro dia, conversando com um oficial da PM sobre a morte da soldado Fabiana, ele fez o seguinte diagnóstico: o atentado havia ocorrido, segundo ele, por que a orientação aos políciais lotados na UPP seria não trocar tiros com traficantes. Aí, ainda segundo ele, os traficantes ficariam no alto do morro desfilando com fuzis e xingando os PMs no rádio, sem que esses pudessem nada fazer. Isso teria dado “moral” aos criminosos para atentarem contra a UPP. Solução por ele proposta: confronto. Intimidar os “vagabundos” e mostrar quem manda. Quando ponderei que entre os “vagabundos” e os policiais havia famílias, crianças, velhos, gente inocente enfim, após alguns segundos de surpresa, ele replicou que “o policial não pode ficar oprimido, sendo xingado sem reagir”. Concordei, mas, repeti a pergunta. Sem argumentos, ele recorreu ao último refúgio desse raciocínio: “sinto muito, mas isso é uma guerra”. Fiquei pensando, que, um oficial da PM, jovem, teoricamente preparado, pensar desse modo arcaico, anacrônico, é uma verdadeira tragédia. Pouco depois, ocorreu a morte da meninda Bruna e eu me lembrei desse oficial. Será que por trás dessa aparente evolução do pensamento da segurança pública, não há a velha ortodoxia da guerra esperando para assumir na primeira oportunidade? Será que isso não é o que eu chamaria de uma mera “concessão ao pop”? Concessão ao olhar estrangeiro sobre o Rio em razão da Copa do Mundo e das Olimpíadas? Não sei. Só sei fiquei bastante preocupado pensando que, talvez, essa idéia de UPPs tenha data de validade: 01 de jameiro de 2017.

    Abs, Paulo Roberto

  2. jorge disse:

    Caro Paulo,
    Não foi o oficial que inventou essa guerra. Como mencionei na postagem, há muitos interesses envolvidos, nas altas esferas. Algo para o que o oficial não atenta (como a maioria) é que, nessa guerra sem-fim, policiais, traficantes e moradores de “comunidades” são igualados como peças descartáveis, com a diferença de que, no caso dos policiais, estes são enterrados como heróis, o que serve simplesmente para reforçar a idéia de guerra. Meteram na cabeça do oficial que se trata de uma guerra, e ele acredita nisso. E parece gostar. Quanto às UPPs, fico com a opinião do Martinho da Vila.

  3. adilson da costa azevedo disse:

    Caro Jorge,

    Esse triste episódio que vitimou a soldado Fabiana, infelizmente, não será o último. Certamente algum órgão de imprensa clamará pelas Forças Armadas após outros acontecimentos fatídicos. Para esses eu tenho algumas sugestões de manchetes: “EXÉRCITO SAI, BANDIDO ENTRA” ou “BANDIDOS VOLTAM COM A PM” etc. A observação de Martinho da Vila é oportuna e serve para demonstrar que a instalação das UPPs está dissonante do discurso. Foi preconizado que na primeira fase entraria a polícia e em seguida os serviços públicos essenciais. No entanto, permanece nas favelas e periferias o mesmo quadro. O único serviço público que chega a esses locais é a polícia com a mentalidade de guerra, na qual não há limites, proporcionando os incidentes que conhecemos. É lamentável essa constatação de Paulo Roberto sobre a preparação desse oficial que não deve ser muito diferente dos restantes. Nós sabemos que a responsabilidade sobre essa filosofia não é deles. Nessa engrenagem social a polícia(principalmente a PM) é a ponta do sistema que sem ter essa consciência transforma-se em marionete encarregada de manter distante a “choldra” das elites por intermédio da opressão em suas mais variadas formas.

  4. jorge disse:

    Caro Adilson,
    Foi esse o alerta que fiz nas duas postagens anteriores (“EXÉRCITO SAI DO ALEMÃO E PM ENTRA. UM ALERTA (II)”. O desejo de consumo de setores importantes da sociedade carioca é ver o Exército como polícia, ou melhor, como Exército mesmo, mas nas favelas. As pessoas não compreendem (ou fingem não compreender) que essa Força faz ocupação de território, como numa guerra ou, internamente, de forma excepcional, em caso de Intervenção Federal, Estado de Defesa ou Estado de Sítio, quando algumas garantias constitucionais são temporariamente suspensas. Na prática, na base do “jeitinho brasileiro”, tem sido assim, ao arrepio da Constituição. Bem, enquanto é só nas favelas… Já a PM, que não é força de ocupação, faz policiamento civil. É uma diferença sutil como um elefante.

  5. emir larangeira disse:

    O comentarista Paulo Roberto acertou em cheio: a UPP tem prazo de validade, sim, e será milagre se alcançar janeiro de 2017. Afinal, quem determina tudo é o ambiente, e sua turbulência sugere que UPP é uma pequena solução para um problemão, e tende a dar água mesmo com toda a badalação midiática. A UPP, no meu modesto modo de ver, é hoje bandeide em fratura exposta.

  6. jorge disse:

    Caro Larangeira,
    As UPPs são uma realidade, mas em termos. Basta lembrar dos DPOs, dos PPCs e dos GEPAEs. A diferença é que as UPPs são dotadas de efetivos bem maiores (as UPPs do Alemão possuem efetivo de mais de três batalhões…), e são acompanhadas de poderoso suporte de marketing midiático. Mesmo hoje, elas VALEM mais por esse segundo aspecto.

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