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Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

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(Cont…) EXÉRCITO SAI DO ALEMÃO E PM ENTRA. UM ALERTA (II)

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EXÉRCITO COMO POLÍCIA. POLÍCIA COMO EXÉRCITO

Em março deste ano, quando a mídia anunciava o começo da saída do Exército do Complexo do Alemão, publiquei postagem de título “EXÉRCITO SAI DO ALEMÃO E PM ENTRA. UM ALERTA”.

Por que o alerta? Porque, há décadas, é recorrente no Rio de Janeiro a quase obsessão de setores influentes da sociedade no sentido de que as Forças Armadas atuem como polícia na cidade. Basta lembrar da chamada Operação-Rio, I e II,  de finais de 1994 e início de 1995 (Cf. http://www.jorgedasilva.com.br/artigo/52/). O problema com tal atitude é que, a fim de legitimar a sua pretensão, esses setores valem-se do recurso maniqueísta de enaltecer a eventual participação do Exército como eficiente e eficaz, e desmerecer a Polícia Estadual, notadamente a PM, como o contrário disso.

Agora, ao noticiar a saída definitiva do Exército, o jornal O Dia, 10 de julho, por exemplo, traz na capa uma foto em tamanho grande na qual aparecem o governador Sérgio Cabral e o comandante do Exército numa solenidade sui generis, com os dois em continência, sob a legenda: “Comandante do Exército entrega o comando do Alemão ao governador”. Compondo a matéria, ao lado da foto, lê-se: “Exército sai e PM assume de vez o Alemão”. E mais: “Na primeira noite sem os militares, bandidos atiraram contra PMs. À tarde, Cabral inaugurou  mais duas sedes de UPPs na região”. [Grifo meu]

Ora, será que o jornalista que escreveu a matéria não sabia que as tropas foram alvo de vários ataques durante a ocupação? Se não sabia, é uma lástima; se sabia, o mais provável, trata-se de algo mais grave. Sutil como um elefante…

Bem, por que uma solenidade com tamanha pompa, inclusive com a presença do ministro da Defesa? Para quê?

Não está em discussão o desempenho do Exército. É fato que a Força desincumbiu-se da missão de ocupar a área a contento. Sublinhe-se: ocupar, e não policiar. Quanto à associação que o jornal faz, no entanto, reproduzo parte da postagem de março passado, acima referida, na qual fiz o alerta, que agora reitero:

[…] “Uma advertência. É preciso evitar comparações, na base do antes e do depois. A ideia que a maioria das pessoas tem hoje, no momento em que o Exército passa o bastão para a PM, é que a região está totalmente pacificada, sob controle; que os traficantes teriam sidos expulsos ou presos, e que não haveria maiores atritos entre as comunidades e as forças de segurança; […] Ainda há tráfico; […] Lê-se, por exemplo, em matéria do Estadao.com.br (12 mar 2012), referindo afirmação do assessor de comunicação social da Força de Pacificação do Exército:“Somente em fevereiro deste ano, os militares foram alvos de 89 ataques nos dois complexos de favelas, muitos deles com armas de fogo”.[…] “Aliás, quem bem definiu o quadro foi o general comandante da Força de Pacificação (iG.com.br/ultimosegundo, em 11 /03/ 2012): “Está muito melhor do que estava, mas ainda precisa melhorar muito. Não se pode ter a ilusão de que se resolve num passe de mágica, porque não é assim. O problema é muito mais complexo e ainda vai demorar. É preciso haver uma política antidrogas, a atuação do Conselho Tutelar e muitas outras iniciativas sociais”. [grifos meus] A advertência é necessária para evitar que, ao primeiro conflito entre traficantes e PMs ou entre estes e moradores (o que, obviamente, vai continuar acontecendo) não se conclua (a advertência se dirige especialmente à mídia) que a PM perdeu o controle ou é incompetente”. (Cf. íntegra em http://www.jorgedasilva.blog.br/?p=2887)

Bingo! O alerta de março fazia sentido. Curiosamente, salvo engano, estes fatos (os ataques aos militares) não foram divulgados pela mídia do RJ. Mais: parece que foi esquecido o fato de que, durante todo o período da ocupação, a PM e a PC também estiveram no Alemão.

 

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16 comenários to “(Cont…) EXÉRCITO SAI DO ALEMÃO E PM ENTRA. UM ALERTA (II)”

  1. Cel Wilton disse:

    Caro amigo, a efetividade sempre trará maior desgaste que a eventualidade(vide o binomio marido X namorado).Pois é exatamente o que acontece com a “Rainha das Ruas”, nossa gloriosa PM ,que diuturnamente exercita o dom da presença permanente em todos os rincões de nosso Estado. Ainda bem que ela tem pele de crocodilo de agua salgada…..

  2. jorge disse:

    Caro Wilton,
    Não escrevi no “post”, mas o tempo todo me lembrava daquela música do grande Chico Buarque (Geni e o Zepelim): “Joga pedra na Jeni!” “Ela é feita pra apanhar!” “Ela é boa de cuspir!” “Maldita Geni!”

  3. paulo roberto disse:

    Caro Professor, essa canção do Chico é o sumário completo da relação da sociedade com a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro.

    Principalmente quando Geni (sempre tão enxovalhada) resolve ceder aos desejos do comandante que quer destruir a cidade e todos a louvam: “Vai com ele, vai Geni; vai com ele, vai Geni; Você pode nos salvar; Você vai nos redimir; Você dá pra qualquer um; BENDITA Geni”.

    Como o senhor ensina, o policial militar vai de herói a vilão num piscar de olhos, a depender do resultado (bom ou ruim) das ações e dos interesses e pessoas envolvidos…

    E, como sempre, ninguém acima do limite do mero indivíduo se compromete. A culpa é da “maçã podre”, do “desvio de conduta”.

    Abs, Paulo Roberto

  4. jorge disse:

    Caro Paulo,
    Comparar o Exército com a PM é uma esquizofrenia, antes de ser uma irresponsabilidade de setores midiáticos. Incutem naquela Força e nos seus integrantes o ethos policial, no mau sentido (em detrimento do espírito militar stricto sensu), e na PM e seus integrantes um ethos militarista, no mau sentido. A esses setores e aos que não sofrem os efeitos dessa distorção, isso não interessa. Péssimo para as instituições e as “comunidades”, fato ocultado por uma realidade gritantemente virtual.

  5. euclydes de carvalho brito disse:

    Amigo JORGE suas obsrvações são valiosas,tudo é fantasia e espalhafato para propaganda política;a ataução do EXÉRCITO não teve NENHUMA eficiência em acabar com tráfico das dogras; ainda bem que o próprio Comandante que deixa o Alemão reconhece ser o problema muito mais complexo, e que necessita uma ação de maior envergadura social.EUCLYDES

  6. jorge disse:

    Caro Euclydes,
    O problema é que se confunde ocupação militar (missão recebida pelo Exército) com policiamento civil (missão da PM). Querem que a PM misture as duas coisas que não combinam. Não combinam no “asfalto” nem na “favela”. Depois execram a PM e os PMs pelos “excessos”. Ora, o excesso está no atacado, ou seja, na irresponsabilidade dos que investem na mistura.

  7. Olá! Meu caro Amigo e Chefe na viagem ao Primeiro Mundo – França, Inglaterra e Espanha – 1985.

    SOMOS QUANTO AS ESTRELAS NO CÉU
    “Pela Descriminalização e Regulamentação do balão junino”

    Que tempos bons eram aqueles… Estavamos passando o Governo Militar, chamado autoritário ou ditador, para a “Democracia”… Na política, no Estado de Direito Democrático, o mau exemplo é fonte de desarranjo. De 1985 até hoje jorram lama pelas veredas dos palácios. Talvez o assessor de comunicação social da Força de Pacificação do Exército quisesse dizer que falta decoro a certos governantes: “Está muito melhor do que estava, mas ainda precisa melhorar muito. Não se pode ter a ilusão de que se resolve num passe de mágica, porque não é assim. O problema é muito mais complexo e ainda vai demorar”… As drogas? Em breve serão alimento dos degenerados de todos os naipes. Enquanto essa hipocrisia persiste, negam valores sociais que honram a família e são essenciais para sua defesa e da própria Democracia.

    A Constituição Cidadã é de 1988 e seus efeitos derramam nesse mar revolto.

    “Entretanto, quando num governo popular as leis não mais são executadas, e como isso só pode ser conseqüência da corrupção da república, o Estado já está perdido”.

    Montesquieu

    Paro por aqui e aguardo seu contato.
    Você é um arauto da PM

    Leia: http://humbertop.sites.uol.com.br/odms00n6.html

    Abraços.
    Humberto

  8. jorge disse:

    Caro amigo Humberto,
    Se escrevo no blog, e se você comenta com indignação diante de tantos escândalos é porque temos esperança. Grande abraço.

  9. paulo roberto disse:

    Concordo professor. Aliás, a respeito disso, o senhor já viu o filme de um cineasta italiano chamado Gilo Pontecorvo: A Batalha de Argel? É sobre o envolvimento da 10ª Brigada Paraquedista francesa na repressão ao movimento de independência da Argélia. Retrata muito bem o que é uma força militar aplicada como força policial. O DVD trás ainda um documentário excelente chamado “L’Ennemi Intime” (O Inimigo Íntimo) que retrata a relação dos colonos franceses com os argelinos, estranhamente semelhante à relação do morador do “asfalto” com o morador da “favela”. Vale a pena.

    Abs, Paulo

  10. jorge disse:

    Caro Paulo,
    Vi o filme, sim. O mesmo foi motivo de análise na Escola Superior da PM quando eu era comandante. Bem lembrado.

  11. Heron Lima disse:

    Concordo, o exército ocupou, agora cabe a polícia realizar o verdadeiro papel de policiamento e patrulhamento, as verdades virão a tona com tempo e aliás serão bem mostradas no jornais…

  12. jorge disse:

    Caro,
    A imprensa vai insistir em que a PM é ineficiente para pedir o Exército como polícia.

  13. adilson da costa azevedo disse:

    Caro Jorge,

    Você é de opinião que a imprensa não deve ter regulamentação. No entanto, você também demonstra que as informações são tendenciosas e às vezes dirigidas. Isso significa que as pessoas acabam manipuladas pelas “informações” colhidas na imprensa. Assim, de forma natural reverberam o falso ou essas informações deturpadas. Apesar de sua observação seja restrita ao tema apresentado, não há dúvida que isso ocorre genericamente e em todos os assuntos. Será que isso acontece em democracias de primeiro mundo? Ou isso é um produto da “democracia à brasileira”? Qual é a saída para esse dilema?

  14. jorge disse:

    Caro Adilson,
    A manipulação acontece tanto em ditaduras políticas como nas democracias, sejam elas democracias de fato ou arremedos de democracia. Stuart Mill viu a “ditadura da opinião” como uma das piores.Em certa medida é o que acontece no Brasil, mas não é muito diferente numa democracia tida como avançada, como a norte-americana. De qualquer modo, penso eu, pior seria uma imprensa “regulada” pelo poder político. Regulada como? O que eu acho que precisa ser evitado é o monopólio empresarial dos meios de comunicação. O monopólio é sinônimo de “ditadura da opinião”.

  15. João Marcelo Nunes Rios disse:

    A morte da soldado Fabiana, deve fazer com que a sociedade organizada no Brasil se curve para tratar urgente das questões das favelas com responsabilidade e sem demagogia, que nem está sendo tratada em outros países emergentes, com uma política de remoção eficiente, talvez já seja tarde demais.
    Favela não é para ser pacificada e manter a questão sempre como um barril de pólvora, que pode explodir a qualquer momento.
    Mas a culpa não é só do governo, não. É da população que não cobra uma política mais eficaz e permite que esse políticos fiquem fazendo a demagogia deles em troca de voto! E a mídia “organizada” também tem grande parcela de culpa, porque fica glamourizando as favelas, como se elas fossem motivo de orgulho e não uma grande vergonha desse nosso país subdesenvolvido. Para não dizer que não falei “ESCREVI” das ONGS.
    Deixem passar a Copa e Olimpíadas para ver só como, pouco a pouco, o tráfico volta a tomar conta dessas comunidades! Sabe coronel Jorge da Silva ? Eu não quero estar vivo para ver um verdadeiro banho de sangue tal qual nas guerras do Líbano no passado e a primavera árabe, essa última ainda recente. Eis ai a questão: Traficantes, grupos de extermínio, milicias & cia x classe trabalhadora. E se a classe trabalhadora se armar ? Não sou astrologo, futurólogo, etc. SOU um agnóstico brasileiro.

  16. jorge disse:

    Caro João Marcelo,
    Você tem razão. A questão é muito complexa. As favelas não existem por geração espontânea. São fruto da nossa formação histórica. O Rio de Janeiro foi sede do Brasil-Colônia, capital do Império português, capital do Império do Brasil. Durante três séculos e meio (incluindo um ano como capital da República), foi centro do mais duradouro e numeroso regime escravista do mundo. A massa indesejável foi sendo empurrada para as encostas. Deu no que deu.

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