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Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

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“JORNALISMO DE GUERRA” vs. “JORNALISMO DE PAZ” NO RIO DE JANEIRO

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A relação “mídia e segurança pública” é tema a exigir maior aprofundamento por parte dos analistas dessas duas áreas. Dentre outros conceitos, eles têm-se valido de dois: o de (in)segurança objetiva e o de (in)segurança subjetiva. O primeiro tem a ver com os riscos concretos, notórios e/ou aferidos estatisticamente; e o segundo, com “impressões” ou com o que se passou a chamar de “sensação”. Não será difícil confundir as duas coisas, seja por descuido seja por intenção, o que põe em relevo o papel da mídia.

No Brasil, talvez o exemplo mais acabado da confusão que se pode estabelecer em torno da diferença encontra-se no Rio de Janeiro. Se, por alguma razão, o objetivo é avivar o medo da população, direcionam-se o foco e todas as luzes para fatos criminais violentos, com potencial suficiente para, por efeito-demonstração e de contágio, aumentar o medo coletivo. Se, ao contrário, é infundir “sensação” de segurança, desloca-se o foco para fatos não-criminais e festivos, a fim de, também por efeito-demonstração e de contágio, fazer com que toda a população esqueça o medo e se sinta segura e despreocupada. Não tão simples assim, é claro.

Joham Galtung, em seus “Estudos de Paz e Conflito”, chama a atenção para a importância da mídia, ao distinguir entre paz negativa (buscada com apelo à força das armas) e paz positiva (buscada por meios tais que “transcendam” a necessidade do apelo privilegiado à força). Galtung associou o que chamou de jornalismo de guerra, ou para a guerra  (“war journalism”) à paz negativa; e o que chamou de jornalismo pacífico (“peace journalism”) à paz positiva. Inobstante suas teorias terem sido concebidas  com vistas à segurança internacional, são, em boa medida, aplicáveis à segurança pública. No caso desta, no entanto, cumpre ressalvar que não se está falando de nações ou povos em conflito nem de guerras e exércitos, e sim de crime em geral, de violência e bandos armados. Mais que tudo, porém, se está falando dos direitos de milhões de cidadãos. Em suma, de fatos sociais.

Numa cidade já violenta, da mesma forma que os cidadãos não devem ser levados a um estado de extremo pavor e ao pânico, como acontece nas fases em que se investe de forma maniqueísta no “war journalism”, não devem ser levados a um estado de extrema paz por conta da entronização maniqueísta do “peace journalism”. Ora, a quem aproveita assegurarmos às pessoas que um terreno é seguro se sabemos que o mesmo está repleto de minas? Ou, inversamente, assegurarmos que o terreno está cheio de minas quando sabemos que isto não é verdade? Pior: jogar com as estatísticas para lá e para cá a fim de mostrar uma coisa ou outra?

Se o nosso objetivo é, de fato, a segurança e a tranquilidade de todos os cidadãos, independentemente de local de moradia, classe social, ideologias etc., não podemos fazer nem uma coisa nem outra. O equilíbrio, como tantos já disseram, não está nos extremos.

 

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8 comenários to ““JORNALISMO DE GUERRA” vs. “JORNALISMO DE PAZ” NO RIO DE JANEIRO”

  1. Luiz Monnerat disse:

    Prezado Mestre Jorge,

    o equilíbrio pode até estar nos extremos, ou em outros intervalos, pois se trata de anulação de pressão de duas ou mais forças a que é submetido determinado corpo, o que o impede de pender para qualquer dos lados. Mas, aqui, no raciocínio do Mestre, não é questão de equilíbrio entre dois estados, mas, sim, de VIRTUDE, de se buscar a verdade, o correto, o desejável e, então, toparíamos, aí sim, com que os sábios romanos nos legaram: ‘in médio virtus’, a ‘virtude encontra-se no meio’!
    Mas o Mestre tem absoluta razão em chamar atenção sobre a questão, pois ela tem funcionado como joguete nas mãos dos mais variados interesses representados pela mídia, sem falar na ideologização da nossa imprensa tupiniquim, o que representa um perigo mortal para a nossa democracia, eis que caracteriza verdadeira covardia intelectual contra uma população ainda inculta, incapaz de avaliações mais elaboradas. A coisa, em especial aqui no Rio, chega a ser patética, pois ora estamos eufóricos pelo que divulgam, ora deprimidos pelo que vemos e ouvimos. Também São Paulo não tem escapado dessa situação, em especial nos últimos dias! Talvez possamos concluir que isto acontece em função da falta de conhecimento acumulado no campo da Segurança Pública… onde qualquer ignorante é considerado ‘especialista’… vide rede globo! Abs. Monnerat

  2. jorge disse:

    Caro Monnerat, O problema da verdade é que cada um tem a sua. A “GUERRA DO RIO”, qualificada assim por setores da imprensa do Rio, era uma verdade. A “PACIFICAÇÃO DO RIO”, assim qualificada pelos mesmos setores, é outra. São verdades a escolher pelos “especialistas”…

  3. Cel Wilton disse:

    Caro amigo,ideologia a parte, ma fé ou não a parte, mas a imprensa poderia e deveria, pelo menos identificar o tsunami de ferramentas /projetos CLONES que se abateu sobre as soluções nas areas de segurança, saude , e educação,em nosso ERJ, senão vejamos:GEPAE virou UPP,Caveirão virou Caveirinha,Batalhão virou
    UPAM, Comando Intermediario de Areas Especiais, virou Coordenadoria de Areas Especiais,Áreas de Segurança viraram Regiões de Segurança, Postos de Saude viraram UPAS,Corpo de Bombeiros virou Vetor Logistico de Saude, Inspetorias da Guarda Municipal viraram UOP, quiça Batalhões.A tropa da PM que é militar não usa mais coturno, e o efetivo da GM que não é militar usa ás panparras,o conceito dos CIEPS viraram “escolas do amanhã”,etc,etc,etc. E “La nave va”, tudo com palmas e gordas gratificações, at least would be a big face of wood…. Pelo menos poderiam ser um pouco mais humildes, afinal não é possivel que a imprensa não tenha se apercebido disso há muito tempo…
    Abraço, Cel Wilton.

  4. jorge disse:

    Caro Wilton,
    Ademais de desonestidade político-administrativa, trocar os rótulos sem alterar os conteúdos a fim de fingir criatividade e ação é desonestidade intelectual. Só recorre a esse expediente quem nada constrói. Ou melhor, aplica-se na construção de rótulos. No fundo, no entanto, não deixa de ser um elogio à criatividade e ao empenho de quem produziu o conteúdo. Ganhei uma bolada na justiça em ação contra um “intelectual” que lançou um livro com dezenas de páginas copiadas do meu. O conteúdo era o mesmo, mas o rótulo (o nome do livro dele) era outro.

  5. Cel Wilton disse:

    Retorno registrando ainda, que assim fica fácil , tanto fazer Jornalismo de Guerra , sem guerra, como fazer Jornalismo de Paz sem paz. Depende única e exclusivamente do poder editorial/propietario/economico dominante. Isto é de uma covardia sem limite com o desassistido, bem como inverte totalmente a meritocracia, sustentaculo da sadia justiça.

  6. jorge disse:

    Wilton,
    É a inversão daquele slogan da antiga TV Manchete: “Aconteceu, virou manchete””. Agora é: “Virou manchete, aconteceu!”

  7. adilson da costa azevedo disse:

    Caro Jorge,

    Como é de conhecimento de todos, o governo brasileiro atual sob a inspiração do seu mentor, de vez em quando tenta impor alguma forma de regulação para os órgãos de comunicação com algumas idéias que ainda não se concretizaram em lei. Dentre os organismos dos chamados “formadores de opinião” a imprensa tem um papel fundamental, tendo a capacidade de transformar bandidos em heróis ou vice-versa. Em virtude de suas constatações você também é a favor de uma nova lei de imprensa, ou alguma outra forma de controle visando a dificultar a manipulação das notícias?

  8. jorge disse:

    Caro Adilson,
    A imprensa deve ser totalmente livre. A meu ver, a Constituição e as leis brasileiras já estabelecem restrições suficientes; não tem que mudar nada. Refiro-me ao conteúdo do que é divulgado, ou seja, ao trabalho dos jornalistas. Outra coisa são os interesses empresariais relacionados ao mercado da comunicação de massa. Não esquecer de que o governo é o concessionário, e este “concede” por critérios não muito claros, político-eleitorais e econômicos, o que se constitui em caminho seguro para a formação de monopólios de dizer a verdade. Então a sociedade fica com uma verdade só, com os jornalistas presos a uma coisa chamada “linha editorial”, ou seja, a linha dos empresários. Daí ao estabelecimento do que Stuart Mill chamou de “tirania da opinião” é um pulo.

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