- Jorge Da Silva - http://www.jorgedasilva.blog.br -

CORRUPÇÃO. INDIGNAÇÃO SELETIVA

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Os escândalos se sucedem no Brasil. E vão continuar.

No início de março vieram a público as primeiras notícias da ligação do senador Demóstenes com Cachoeira. Divulgou-se que este dera ao senador, como presente de casamento, uma geladeira e um fogão importados; que entregara a ele um dos vários telefones antigrampo que habilitara nos EUA para falar em sigilo com pessoas ligadas a ele; e que Demóstenes lhe pedira para pagar R$ 3 mil de um taxi aéreo. Até aí era só isso, o que, para mim, já era demais, sobretudo porque se tratava de alguém que se apresentava à Nação como baluarte da decência.

Sempre desconfiei daqueles que batem no peito para dizer que são honestos, enquanto se aplicam em descobrir corrupção “nos outros”. Não compreendia (talvez por ser negro) que o senador fosse, ao mesmo tempo, radical em defesa da moralidade e obsessivo no combate aos pleitos de negros e indígenas. Parecia-me insincero e racista. Daí, no dia 24 de março, publiquei um “post” de título “Corrupção dos Incorruptíveis e o Estatuto da Igualdade” (http://www.jorgedasilva.blog.br/?p=2874 [1]), em que afirmava que o mito desmoronara.

Eis que um leitor do blog, pessoa cuja integridade pessoal, inteligência e patriotismo conheço bem, e que se indigna com a corrupção dos políticos, minimiza aqueles fatos. Pondera que o senador não negou que fosse amigo de Cachoeira, desde o tempo em que os bingos eram permitidos em Goiás; e que tinha admitido manter relação pessoal e familiar com ele, o que justificaria os presentes. Compreendi o seu ponto, mas não me convenci. Aliás, é possível que hoje, o leitor amigo, ante as graves revelações que se seguiram, tenha-se convencido de que o senador que apreciava é realmente uma fraude.

Indignação seletiva. A minha posição e a do leitor referido caracterizam o que chamo de “indignação seletiva”. Como eu tinha restrições a Demóstenes, apressei-me em condená-lo. Como o mencionado leitor não tinha, somado ao fato de o senador e o seu partido se colocarem contra “a situação”, apressou-se em defendê-lo.

Portanto, tendo em vista que todos temos os nossos posicionamentos políticos e ideológicos, e nossos preconceitos e interesses (individuais, de classe, profissionais etc.), indignar-se ou não vai depender menos dos fatos do que de quem esteja por trás deles. Os operadores da mídia, salvo as exceções de praxe, não fogem à regra. “Parceiros” e alinhados não pecam, jamais; adversários e “não-alinhados” pecam, sempre. Eta sociedadezinha!