- Jorge Da Silva - http://www.jorgedasilva.blog.br -

124 ANOS DEPOIS, COTAS PARA NEGROS NO STF. QUEM SAI DERROTADO?

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O Supremo Tribunal Federal (STF) declarou por unanimidade ontem, 26 de abril de 2012, a constitucionalidade das políticas de cotas nas universidades públicas. Com isso, ruiu por terra, em definitivo, a mitologia da ‘democracia racial’, concebida e defendida obsessivamente pelas elites políticas e intelectuais desde sempre, com dois indisfarçáveis objetivos: manter a “tradição”, ou seja, a estrutura social hierárquica e discriminatória da sociedade brasileira; e tachar de subversivos ou “problemáticos” todos aqueles que não engoliam o engodo, como o grande Abdias do Nascimento.

Os opositores da luta dos negros já inventaram de tudo. A última invenção é que no Brasil não há negros nem brancos, de vez que seríamos todos “misturados”, numa ardilosa mistura, sim, de biologia com sociologia. Já fui até repreendido por uma senhora inequivocamente loira, que se ofendeu porque, numa conversa, me referi a ela como pessoa branca. Em suma, trata-se de uma tentativa de etnocídio: matar a identidade étnica de um grupo específico de brasileiros. Que os que se consideram negros esqueçam que um dia os seus ancestrais foram trazidos da África negra para serem feitos escravos aqui, durante mais de 350 anos. Risível que os opositores não vejam qualquer diferença de cor entre os ministros Joaquim Barbosa e Levandowski, ambos da cor “brasileira”, palavra que virou categoria de cor. Ora, a representação do STF é um escárnio. Num país com 50% de negros (pretos e pardos do IBGE), apenas um dos onze ministros é negro (e não da cor “misturada”, com o alguém pode alegar serem os demais). Se levarmos em conta que os ministros são nomeados por indicação política, fica evidente a preferência por não negros. Isto 124 anos depois da abolição da escravatura.

Quem sai derrotado? Ou vencedor? Depois do esforço que fazem ao longo dos últimos anos contra o que entendem ser políticas divisionistas; de terem tachado de “racialistas” tanto os negros que lutam por mudanças quanto os brancos a eles associados, despontam os mais notórios opositores derrotados nessa peleja: no campo político, o principal derrotado é o senador Demóstenes Torres, então do DEM, líder tanto do movimento contra as cotas quanto contra a corrupção. No campo intelectual, podem-se citar os três mais notórios: Yvonne Maggie, antropóloga e professora da UFRJ, Peter Henry Fry, também antropólogo e professor da UFRJ, e Demétrio Magnoli, geógrafo e sociólogo da USP. Os dois primeiros participaram da organização de um livro (“Divisões perigosas”), com artigos de 34 intelectuais e artistas contrários à aprovação do Estatuto da Igualdade Racial e do sistema de cotas, livro entregue solenemente ao presidente da Câmara Federal em 2007, com direito a cobertura do Jornal Nacional, da Rede Globo. Além disso, em 2008, assinaram manifesto, de 134 assinaturas, levado em comissão ao presidente do STF, pedindo que o Supremo declarasse inconstitucional o sistema de cotas. E Demétrio Magnoli, que, além de artigos no referido livro, também assina o manifesto. Cite-se ainda o jornalista e sociólogo Ali Kamel, diretor da Central de Jornalismo da Rede Globo de TV, o qual, depois de escrever artigos contra as cotas no jornal O Globo, lançou o livro Não somos racistas, com grande divulgação.

Bem, já que os ministros, por unanimidade, declararam a constitucionalidade das cotas, ninguém sai realmente derrotado. Quem ganha são os brasileiros, independentemente de cor, origem, classe etc. Será que, além de Joaquim Barbosa, também vão chamar os demais ministros do Supremo de ‘racialistas’?

PS. Motivado pela movimentação dos opositores, o ‘movimento negro’ elaborou um manifesto a favor da constitucionalidade do sistema de cotas, com 740 assinaturas, igualmente levado ao presidente do STF.