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Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

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DEMOCRACIA RACIAL NO STF: PELUSO versus BARBOSA

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Ao deixar a presidência do STF, o ex-presidente Cezar Peluso, em entrevista ao portal Consultor Jurídico (18 / 04), fez inusitada avaliação da sua gestão. Um auto-elogio. Perguntado sobre a sua convivência com os demais colegas, a todos elogia, com exceção de Joaquim Barbosa, com o que sugere ser o mesmo o único a destoar do bom ambiente da casa.

Peluso vê avanços na sua gestão, e parece lamentar o fato de ter que deixar o posto atingido pela compulsória (torceu para que a PEC dos 75 anos passasse antes). Ainda tinha muito a oferecer à Nação.

Perguntado se, em vista dos problemas de saúde, o ministro Joaquim Barbosa, agora vice-presidente do STF, assumiria a presidência após a aposentadoria do ministro Ayres Brito em novembro, também compulsória, responde de forma sarcástica (Peluso sempre desdenhou da doença de Barbosa): “O Joaquim assume, sim. Viram como ele está comparecendo ao Plenário? Teve uma melhora grande, antes quase não aparecia. Agora, comparece a todas as sessões. Ele não recusará essa Presidência em circunstância alguma, pode ficar tranquilo.” E depois de rotular Joaquim Barbosa de “inseguro” e de “temperamento difícil” (como se, do alto de alguma cátedra, estivesse a avaliar um discípulo), afirma: “A impressão que tenho é de que ele tem medo de ser qualificado como arrogante. Tem receio de ser qualificado como alguém que foi para o Supremo não pelos méritos, que ele tem, mas pela cor.” Ou seja, de forma torta, nada sutil, chama Barbosa de arrogante e complexado (por ser negro), e insinua que o mesmo chegou ao Supremo pelo mesmo motivo.    

Em entrevista ao jornal O Globo (20 abril 2012), Joaquim Barbosa dá o troco, embora com descabida truculência verbal: “ridículo”, “brega”, “caipira”, “corporativo”, “desleal”, “tirano” e “pequeno”, além de acusar Peluso de praticar “supreme bullying” contra si, e de manipular resultados de acordo com seus interesses. Usou mal a palavra “manipular”, pois se referia a “violar as normas” do Tribunal. Quis dizer uma coisa e significou outra (a língua portuguesa é rica também em armadilhas…).

Em torno desse bate-boca público, proliferam análises na mídia, contra e a favor de um e de outro. Nenhuma delas, no entanto, indagou das motivações recônditas da desavença, fato à espera de análises dos especialistas em estudos identitários.           

Não conheço pessoalmente o ministro Peluso (quem sou eu!), mas conheço Joaquim Barbosa. É possível que este esteja errado na avaliação que faz de Peluso, porém, com absoluta certeza, Peluso erra redondamente na avaliação que faz de Barbosa, pessoa extremamente educada, culta e de fino trato, e de facílima convivência, pelo menos com as pessoas que não o olham de cima para baixo.

É possível que Peluso, oriundo de família de classe média alta de São Paulo, se incomode com a postura nada dócil do negro filho de pedreiro, mas poliglota e de currículo superior ao seu. Negro metido, desaforado, canela grossa. Por que não se contentou em ser segurança de shopping, ou de boate? E ainda por cima querer ser presidente da Suprema Corte do País. Aí já é demais…

Há outros Pelusos no Brasil, talvez poucos, que acham natural que apenas um dos onze ministros do STF seja negro, ou nenhum, num País com 50% de negros.

Na verdade, ao tachar Barbosa de “inseguro” e de “temperamento difícil”, Peluso vê-se como alguém firme e de temperamento fácil. Repete os velhos clichês dirigidos a todo negro que insiste em não ficar “no seu lugar”. Mas não chamem Peluso de racista só porque sentiu necessidade de se referir à cor da pele de Joaquim Barbosa para qualificar a sua atuação no Supremo. Peluso não é racista. Barbosa é que é complexado.

 

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5 comenários to “DEMOCRACIA RACIAL NO STF: PELUSO versus BARBOSA”

  1. Adilson da Costa Azevedo disse:

    Caro Jorge,

    Esses comentários feitos pelo Ministro Peluso a respeito de seu colega Joaquim Barbosa, motivados por desavenças pessoais, foram calamitosos. Em primeiro lugar quebrando a liturgia da Côrte e ensejando uma resposta também desastrosa. Em segundo lugar, o comentário não foi de uma simples autoridade, mas de um magistrado do STF que tem o dever de guardar a Constituição, coibindo qualquer forma de discriminação. Em terceiro lugar um exemplo negativo para o Judiciário que atravessa um momento delicado com denúncias de vários “malfeitos” em quase todo o país. No convívio social, no qual estão presentes a soberba, o orgulho, a vaidade, a prepotência etc. se manifestadas por um negro são denominadas de “complexo da cor”, principalmente, se for um bem sucedido. O mesmo não ocorre com um branco que será apenas arrogante, vaidoso ou prepotente se tiver as mesmas atitudes do negro. Essa é a realidade de um preconceito que está irradiado na sociedade, o qual muitos insistem em negar. A fala de Peluso veio mais uma vez demonstrar que o preconceito racial está dissociado do preconceito social, como uma boa parcela teima em colocá-los em seara única.

  2. jorge disse:

    Caro Adilson,
    Só falta agora Peluso dizer que foi mal interpretado; que no Brasil não existe essa coisa de brancos e negros. Seríamos todos da cor “misturada”, inclusive ele. Se não sacar que soube que o seu tatatatataravô tinha sangue negro ou, de preferência, índio. Caras de pau.

  3. Professor Jorge da Silva

    “As relações de poder podem ser edificadas para ultrapassando as amarras que subordinam corpos, indivíduos, coletividades e vontades do inconsciente coletivo às utopias neoliberais de submissão de nossos tempos diante do mundo do trabalho na era do capitalismo cognitivo.”

    Está mais do que na hora de modificar o PRECONCEITO nosso de cada dia…
    Não basta romper com os grilhões da miséria e da pobreza.

    Devemos romper com os grilhões do inconsciente.
    Sabe, ambos, Joaquim Barbosa e “seu colega” são vítimas de umas doenças a meu ver incuráveis. São elas : Prepotência, vaidades pessoais INTOLERÂNCIA.
    Lembrado Doutel de Andrade, aqui nesses ” brasis” o que podemos ver por intermédio da mídia e/ hoje na internet são os intolerantes.

    RACISMO, PRECONCEITO e INTOLERÂNCIA.

    Até onde mora na verdade também o seu e o nosso preconceito?

    Preconceito intelectual?

    Preconceito conta obesos ?

    Preconceito contra portadores de necessidades especiais?

    Preconceito religioso?

    Preconceito de opção sexual?

    Preconceito linguístico?

    Preconceitos?

    Essas plagas foram descobertas para não dar certo meu caro e amado mestre.
    O Senhor mesmo escrever um lindo texto que, tenho repassado aos meus filhos. Vale ressaltar que reporto-me ao seu texto no Jornal O Globo: ” Duas causas da violência: racismo e capitanias hereditárias”… O Brasil está inadministrável ou não ?
    Só para concluir, como pode no governo da presidenta Dilma 10 Ministros serem afastados por suspeita de “problemas” ?? em suas pastas ? Não foi feito para não dar certo. Meu medo vai ser quando os morros e conglomerados tomarem os asfaltos… Isso está bem visível. Abraços !

  4. Cátia Valevski Rosental Cunha disse:

    Caro Coronel Jorge da Silva

    Ana passo O Ministro Joaquim Barbosa em uma entrevista ao jornalista FREDERICO VASCONCELOS DAFOLHA DE SÃO PAULO Disse: – O Senhor não faz da sua biografia nem da sua consciência negra uma bandeira, uma causa…? RESPOTA DO EMINITE MINISTRO BARBOSA – Não me sirvo da minha posição para fazer proselitismo racial, social ou coisa que o valha. Seria abuso de poder. Tampouco me deixo instrumentalizar por movimentos, pela mídia ou por quem quer que seja.
    Ano de 2012- Entrevista para jornalista Carolina Dias O GLOBO:
    Ao chegar ao STF, eu tinha uma escolaridade jurídica que pouquíssimos na história do tribunal tiveram o privilégio de ter. As pessoas racistas, em geral, fazem questão de esquecer esse detalhezinho do meu currículo. Insistem a todo momento na cor da minha pele.
    Peluso não seria uma exceção, não é mesmo? Aliás, permita-me relatar um episódio recente, que é bem ilustrativo da pequenez do Peluso: uma universidade francesa me convidou a participar de uma banca de doutorado em que se defenderia uma excelente tese sobre o Supremo Tribunal Federal e o seu papel na democracia brasileira.
    Peluso vetou que me fossem pagas diárias durante os três dias de afastamento, ao passo que me parecia evidente o interesse da Corte em se projetar internacionalmente, pois, afinal, era a sua obra que estava em discussão. Inseguro, eu?”

    A Doutora Neusa dos Santos, renomada psicanalista ainda nos anos 80 escreveu: Tornar-se negro РAs vicissitude do negro em ascenṣo social.
    Para ascender socialmente o negro não precisa de uma identidade negra porque o negro no Brasil não possui uma identidade negra positiva que possa afirmar ou negar. “Ser negro”, ela diz, é formar uma consciência do processo ideológico que através do discurso mítico acerca de si cria uma es

  5. Cátia Valevski Rosental Cunha disse:

    Para ascender socialmente o negro não precisa de uma identidade negra porque o negro no Brasil não possui uma identidade negra positiva que possa afirmar ou negar. “Ser negro”, ela diz, é formar uma consciência do processo ideológico que através do discurso mítico acerca de si cria uma estrutura de desconhecimento/reconhecimento que o aprisiona numa imagem alienada. E completa: “ser negro é tomar posse dessa consciência e criar uma nova consciência que ressegure o respeito às diferenças e que rearfime uma dignidade alheia a qualquer tipo de exploração” e prossegue, dizendo que, ser negro não é uma condição dada, a priori, ou seja, não se nasce negro. “Ser negro é tornar-se negro”. E ainda, a alternativa (impossível) é tornar-se branco. Complementa.
    Neusa Santos entende que construir uma identidade negra é uma tarefa eminentemente política e que para isso é imprescindível contestar e romper com o Ideal de Ego (modelo) “que lhe ensinaram a ser uma caricatura do branco”. Sendo a outra possibilidade (tornar-se branco) inalcançável a negra cria uma ferida narcísica, enfraquecendo ou anulando a sua auto-estima.
    Essa ferida cria uma psicopatologia do negro e seu núcleo está na tensão permanente entre o Ego e o Ideal de Ego. Esta tensão em termos clínicos tem seus sintomas no sentimento de culpa, de inferioridade, fobias e depressão, “afetos e atitudes que definem a identidade do negro brasileiro em ascensão social como uma estrutura de desconhecimento/reconhecimento”.
    Assim se forma “esta identidade que em tudo contraria os interesses históricos e psicológicos do negro [e] tem sido uma tradição na história do negro brasileiro em ascensão social”.

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