- Jorge Da Silva - http://www.jorgedasilva.blog.br -

(IN)SEGURANÇA EM NITERÓI

.

1. O esvaziamento

Os últimos acontecimentos relacionados à segurança em Niterói revelaram que a escalada de violência da cidade não é coisa episódica. Trata-se de um continuum, caracterizado pelo somatório de cinco fatores, dentre outros: (1) o esvaziamento sistemático dos efetivos policiais ao longo dos anos (na contramão do aumento exponencial da população); (2) a indiferença das elites políticas e empresariais da cidade de Niterói ante tal esvaziamento (só pedem polícia para a sua praia, a sua rua); (3) a velha convicção do prefeito (reiterada uma vez mais) de que a segurança pública (traduzo: a segurança dos munícipes) não é assunto do prefeito; (4) a indiferença e o egoísmo das elites políticas e empresariais da nova capital do estado após a fusão, as quais, residentes em sua maioria no eixo Ipanema-Leblon-Barra, pressionam as autoridades da segurança, com a ajuda da mídia, a canalizarem o grosso dos efetivos e meios da polícia (polícia estadual…) para esse eixo particular; e (5) o fato de Niterói ser considerada um mero bairro do Rio de Janeiro (vide caderno Globo Niterói, de O Globo), e não uma grande e importante cidade.

2. O Reforço policial e as “comunidades”  

Não bastasse o esvaziamento acima referido, Niterói sofre, como São Gonçalo e outras cidades ditas periféricas, com a invasão de traficantes migrados de “favelas” cariocas em que foram implantadas UPPs. De repente, descobre-se que em Niterói também há “comunidades”, algumas das quais maiores e tão ou mais problemáticas que muitas do Rio, bastando citar umas poucas: Morro do Estado, Morro do Cavalão, Morro do Palácio, Favela Nova Brasília, Favela Vila Ipiranga, Buraco do Boi, Morro do Santo Cristo, Morro do Eucalipto, Morro da Boa Vista, Morro do Castro e por aí vai, muitas delas dominadas por traficantes, antigos e novos.

A sequência de assaltos com morte e outros crimes, e a elevação da curva estatística da criminalidade mobilizaram a sociedade civil de Niterói, que saiu às ruas exigindo providências do governo do Estado. Em resposta, foi desencadeado um plano de emergência. Antes mesmo da implantação de mais duas companhias do 12º BPM (uma no Morro do Cavalão, na Zona Sul, e outra no Morro do Estado, no Centro) e de uma base da Polícia Montada, prometidas para os próximos dias, já estão sendo desenvolvidas operações em vários pontos da cidade, o que tem deixado a população mais tranquila e esperançosa.

3. Farinha pouca, meu pirão primeiro.

Os morros do Cavalão e do Estado foram escolhidos para sede das duas novas companhias. OK. Porém fica no ar a pergunta: e os bairros e “comunidades” da Zona Norte, que concentram população superior às do Centro e da Zona Sul? E que exibem taxas de criminalidade maiores? Por que não se destina uma terceira companhia, também com 100 homens, para a Zona Norte? A unidade de cavalaria da antiga capital do estado situava-se no Fonseca.

Bem, tudo indica que as elites políticas e empresariais niteroienses tendem a reproduzir o padrão que orienta as elites cariocas: “Farinha pouca, meu pirão primeiro”. Não pode dar certo.