- Jorge Da Silva - http://www.jorgedasilva.blog.br -

AS UPPs E OS PMs. E O CABO PM MORTO

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Ensinam os estudiosos da linguagem humana que múltiplos fatores concorrem para que a comunicação se realize. Partem da velha fórmula: emissor – meio – mensagem – receptor etc. para a análise do contexto, dos interesses envolvidos, dos signos linguísticos e ideológicos utilizados, do real sentido do enunciado, de como este é decodificado pelo receptor, e por aí vai.

Mikhail Bakhtin mostrou que, embora pertencentes à mesma “comunidade semiótica” (língua e cultura), as diferentes classes sociais (e acrescento, os diferentes indivíduos) não atribuem aos signos os mesmos “índices de valor”. Para um emissor ou receptor residente em Ipanema ou Leblon, por exemplo, o signo BASTA, aparecido em cartazes e janelas dos seus apartamentos contra a violência há alguns anos, tinha um significado; para um morador da favela, preocupado com os efeitos da resposta governamental ao BASTA, outro.

Surpreendo-me com a manchete de primeira página do jornal O Globo de ontem, 5 abril: “Rocinha: era das UPPs tem 1º PM morto”. Surpreendo-me porque, receptor da mensagem com identidade social umbilicalmente  ligada à PM, talvez interprete o signo1º PM morto” de forma comprometida. O título soa-me como se o cabo Cavalcante estivesse iniciando uma previsível sequência de PMs fadados a morrer, como se isso fosse mera contingência da atividade policial. Ossos do ofício, como dizem. Pode soar a outros como um lamento do emissor, em solidariedade aos policiais e às autoridades; ou como um alerta, a fim de que daí em diante as ações sejam planejadas e executadas com o mínimo de riscos aos agentes e à comunidade. (Aliás, é possível que o emissor, considerando que o cabo Cavalcante era um profissional experiente, esteja preocupado com a notícia de que recrutas, ainda não formados, estejam sendo destacados para atuar naquela conflagrada favela). Ou que, com o signo “era das UPPs”, esteja fazendo um elogio a essa política, ou condenando-a. Tudo sem contar que os familiares de PMs em serviço, na Rocinha ou em qualquer outro lugar, podem ter exacerbado o seu temor de que o próximo a ser morto seja o ente querido.

Uma lição prática que se pode tirar das teorias de Bakhtin refere-se à responsabilidade do emissor, sobretudo quando este se dirige a receptores com diferentes identidades sociais. Pergunte-se: como a mensagem contida em “Rocinha: era das UPPs tem 1º PM morto” é decodificada pelos receptores de Ipanema e Leblon? E da Rocinha? E da Maré? E da periferia? E do Interior? E das corporações policiais?

Já ia esquecendo. Ninguém falou da chamada “guerra às drogas”.