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Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

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CORRUPÇÃO DOS INCORRUPTÍVEIS E O ESTATUTO DA IGUALDADE RACIAL

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Leio em O Globo (23 mar 2012), em chamada de primeira página:

Nova escuta complica Demóstenes

Gravações da PF mostram o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) pedindo R$ 3 mil ao bicheiro Carlinhos Cachoeira para pagar um táxi aéreo.  

E no interior da matéria:

O relatório revela ainda que desde 2009 Demóstenes usava um rádio Nextel (tipo telefone) “habilitado nos Estados Unidos” para manter conversas secretas com Cachoeira.

Quando o assunto veio a público pela primeira vez, o senador Demóstenes alegou ser amigo de Cachoeira, e que isso não constituía problema. Não se saiu com a velha desculpa de que não sabia das suas atividades. Menos mal. Acontece que pediu dinheiro ao “amigo” e recebeu caros presentes dele. O tal telefone Nextel é um dos vários comprados e habilitados por Cachoeira para falar, sem ser rastreado, com algumas pessoas de suas íntimas relações.

Resolvi comentar esse assunto por dois motivos: primeiro, porque o senador Demóstenes Torres apresenta-se no Congresso Nacional (apresentava-se?) como arauto da moralidade, da luta contra a corrupção; e segundo, porque é o maior opositor da luta dos negros por igualdade. Não se compreende, portanto, que tenha sido e seja tão loquaz na oposição aos pleitos dos negros (foi visceral contra o Estatuto da Igualdade Racial), e tão calado quanto às suas relações com Cachoeira.

Bem, alguém perguntará: O que tem a ver uma coisa com a outra? Para mim, tem. Ou não?

 

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15 comenários to “CORRUPÇÃO DOS INCORRUPTÍVEIS E O ESTATUTO DA IGUALDADE RACIAL”

  1. Luiz Monnerat disse:

    Prezado Mestre Jorge,
    para quem acompanha a trajetória do Senador Demóstenes Torres fica difícil acreditar na veracidade do que é assacado contra ele. Sempre pareceu e continua a parecer como um dos mais honrados membros do nosso parlamento. Será que podemos acreditar na Carta Capital ? Na petralhada que aí está? Na Polícia Federal ? Essa eu pago para ver. Com respeito à relação que vc indaga, entre o Estatuto da Igualdade Racial e o que é anunciado nos jornais sobre o senador, sempre soube que o Senador defendeu a posição plausível da igualdade social no tocante às quotas, mais especificamente fixando-se nos mestiços, em razão da realidade da sua região, onde existe a prevalência deles. Quantos aos caros presentes, não sei se um fogão e uma geladeira seriam considerados caros presentes para quem faturaria 30% de 170 milhões provenientes do jogo e ainda que teria pedido R$3.000,00 emprestados…Isso é uma piada. Vamos aguardar. Assisti ao pronunciamento dele no Senado e acredito nele. Não acredito na Dona Dilma e nem no governo dela.

  2. jorge disse:

    Caro Monnerat,
    Também fiquei surpreso. Embora discordasse das posições do senador em relação à luta dos negros por igualdade social, apreciava a sua luta contra a corrupção. Difícil acreditar no que tem sido divulgado sobre suas relações com o tal Cachoeira, mas as gravações, se verdadeiras, mostram um Demóstenes diferente daquele em que acreditamos, ou acreditávamos.
    Caro amigo, cresci numa esquina de jogo de bicho. Fui olheiro voluntário, como todos os meninos dali. Tive e tenho amigos ligados ao bicho, desde a infância. Mas jamais pedi ou recebi presentes dos mesmos; e eles jamais me ofereceram…

  3. Luiz Monnerat disse:

    Caro mestre Jorge,
    De fato, já tivemos épocas românticas com relação à prática do ‘bicho’. Recordo-me perfeitamente que minha avó materna era uma contumaz jogadora e profunda conhecedora daquelas intrincadas combinações, bem como morei em uma república de estudantes em Friburgo cuja proprietária era considerada uma ‘sortuda’, pois vivia ganhando uns caraminguás nesse jogo após consultar os nossos sonhos da noite. Mas, a respeito do Senador, o que sei é que ele sempre admitiu que manteve, como mantém, relação pessoal de família com o tal do Cachoeira, desde a década de 90, quando os bingos eram permitidos em alguns estados da Federação, como em Goiás, terra deles, até que o Supremo julgou o caso definitivamente, apesar que quase todos eles ainda aguardam de portas fechadas uma eventual abertura. Também sempre soube que ele foi e é contrário à liberação do jogo no País. Não sei se vc sabe, mas ele se casou no ano passado, ocasião que recebeu os dois presentes – o fogão e a geladeira – o que faz sentido pela natureza dos mesmos. No tocante à posição dele quanto ao Estatuto da Igualdade, gostaria de ter alguma fonte que pudesse me esclarecer isso, pois, de fato, é algo de muito importante para se examinar em termos de coerência política. Ontem mesmo assistia eu, pela enésima vez, a saga do encouraçado alemão Bismarck no Atlântico Norte, o maior e mais poderoso do mundo até então, quando quase toda a esquadra inglesa o perseguia, pois sozinho estava quase levando a Inglaterra à rendição – 42 navios afundados em menos de um mês! Então, havia só um grito na Reino Unido: ‘Afundem o Bismarck !!!’ Não sei, não! Com esse governo fazendo água por alguns cantos, o temor de algo pior acontecer se não contarem com o Barbudinho para fazer o meio de campo e patati-patatá…

  4. Sinceramente, nada em relação a humanidade me causa supresa, ainda mais um dos “humanos” do nosso Congresso Nacional.
    Aquele lugar, há muito tempo virou referência de “jogatinas” das piores espécie possíveis. Os donos das bocas do jogo do bicho no Rio de Janeiro são verdadeiros santos, perto desses calhordas, que vêem na politica uma excelente oportunidade de continuarem com as suas armações, e ainda se passarem de beneméritos, para toda uma massa alienada, que se deixa julgar pela aparência.
    Esse Demóstenes é a ponta desse iceberg de corrupção, de canalhice que existe no Congresso Nacional.
    Esperem e verão mais “surpresas” vindo a tona…
    Menos para mim…
    Sempre me pergunto: ” Quem será o próximo?”…

  5. jorge disse:

    Cara Raquel,
    Vamos aguardar. Mas sem perder a esperança.

  6. jorge disse:

    Caro Monnerat,
    Você tem razão. De fato, diante dos milhões de reais desviados da saúde, da educação etc.; das “consultorias” multimilionárias dadas por ex-futuros ministros “gênios” em economia sobre assuntos protegidos por “cláusulas de confidencialidade” (Palocci e Fernando Pimentel, por exemplo); dos superfaturamentos e aditivos de obras “emergenciais’ Brasil afora, crucificar o senador Demóstenes não faz sentido. Concordo.

  7. Adilson da Costa Azevedo disse:

    Caro Jorge,

    O sistema político tem ética própria. Para a conquista e/ou manutenção do poder tudo é válido. Assim vale “mensalão”, caixa 2 ou na versão de Delúbio: “recursos não contabilizados”, nomeação/exoneração de cargos em estatais com verbas faraônicas de amigos ou inimigos políticos sem nenhuma preocupação com a eficiência do serviço público etc. Assim quem entra nesse sistema e permanece não pode surpreender mais ninguém. Em regra, a eleição de um deputado custa muitos milhões. Para senador o custo é aproximado da campanha para governador. A imagem do senador Demóstenes, possivelmente foi construída a partir de sua origem profissional. Durante o seu mandato, parece que esta é a primeira vez que surgem indícios ou rumores de fatos de idoneidade duvidosa. De qualquer modo, a lesão moral sofrida pelo senador Demóstenes já deixou cicatriz. Para essa forma de divulgação não há defesa. Também um outro colega de profissão civil do senador, o deputado Ibsen Pinheiro que tinha o mesmo conceito de retidão, não conseguiu explicar um depósito em sua conta, creio que no valor de cem mil dólares. No sistema político brasileiro é quase impossível entrar e permanecer nele sem pecar por ação ou omissão. O conceito de honestidade nas atividades políticas é parecido com as máfias: honesto é o que cumpre o que trata. Quanto a oposição do senador na luta dos negros por igualdade pode ter sido um erro de avaliação ou é pragmático. É possível que na sua ótica o problema não é do direito do negro e sim do direito do pobre (maioria negra) o que confunde muita gente. Não sendo isso, em sua visão essa posição a favor do negro não teria um retorno de votos. Por tudo isso caros Monnerat e Jorqe em se tratando de “malfeitos” de políticos, desculpem, nenhum surpreende. Lamentável.

  8. Sabe o que penso? Não existe maior ou o menor delito, nessas questões de se ter uma ética na política.
    Não consigo ver o senador Demóstene, melhor que o que rouba menos que ele.
    Ele merece sofre as mesmas punições de quem ganhou mais em cima da falta de ética no Congresso Nacional.
    Mas como, nesse país, o maior corrupto, ainda é impune, vamos esperar até onde o Senador irá…
    Todos tinham que ser “crucificado”!
    Li sobre esse caso que, o senador Demóstene, desde @009, vem agindo dessa forma. Imaginem, em quantas situações, esse ai passou por honesto e intégro, com o rabo tão preso, como quem ele acusava?
    São todos farinha do mesmo saco.
    Ainda tenho esperança amigo…no povo brasileiro! Que pode mudar isso, através do voto consciente. Nos nossos políticos, perdi há muito tempo.

  9. jorge disse:

    Caro Adilson,
    Continuo acreditando que há muitos políticos honestos. Ou desejando que haja.

  10. Luiz Monnerat disse:

    Caro Jorge,
    fé e desejo de mais fé é o que de fato temos que pedir a Deus que nos conceda. A respeito dos erros e falhas humanas temos na verdade a obrigação de ser mais realistas, ainda mais chegando em idade onde estamos, por isso fico com a tua posição. Quem somos nós, cheios de defeitos como somos, para viver aguardando uma visão beatífica da política, seja a brasileira ou outra qualquer. Pois, ATÉ NO JAPÃO o político costuma escorregar! Para a Raquel eu diria que não é o caso aqui de considerar delito maior ou menor. Estamos falando em jogo de azar que, se não me engano, continua sendo contravenção e não um crime. Não se trata também de relativismo, mas das circunstâncias do caso, por isso é bom um pouco de cautela até que as coisas se esclareçam.

  11. Adilson da Costa Azevedo disse:

    Caro Jorge,

    É evidente que existem muitos políticos honestos. São os que cumprem o que tratam. São os melhores que nós temos.

  12. Paulo Roberto disse:

    Sagaz observação do Professor Jorge sobre as posições do Senador Demóstenes. Afinal, todos estes fatos vistos conjuntamente demonstram uma certa visão de mundo, uma certa mentalidade, bastante comum no Brasil: aos amigos tudo, aos inimigos a lei. No caso, nem necessariamente inimigos, mas, apenas, não aquinhoados com a amizade do Senador. Aliás, custosa amizade esta… Cada vez mais, sou cético em relação a existências de flores do pântano. Acredito que existam políticos honestos: são aqueles alijados permanentemente do poder. Aqueles que não exercem cargos, nem indicam afilhados, não emplacam emendas no orçamento, não presidem comissões no Congresso. Podem até conseguir um mandato eletivo, mas, são marginais em relação a estrutura governamental. De vez em quando, alguns destes políticos tem a chance de integrar esta estrutura e aí, normalmente, acabam se perdendo. Como se diz, nosso sistema político sofre com uma minoria de 99% de corruptos…

    Forte Abraço Professor,

    Paulo Roberto

  13. Luiz Monnerat disse:

    Prezado Adilson,
    você, com essas três frases, que a rigor formam uma unidade sintática, com três orações, poderia ter produzido um só período. Mas, propositalmente, fez isso para elaborar três sofismas, se cotejado com o que afirma no teu último comentário, para deixar uma gozação. Tá bom ! Nóis merece !

  14. jorge disse:

    Caro Paulo Roberto,
    Você tem razão. Com base nessa mentalidade (“aos amigos tudo, aos inimigos a lei”), ser ou não ser corrupto independe dos atos praticados. Se tais e quais políticos ficam milionários valendo-se do cargo ou mandato, não serão considerados corruptos se forem amparados por algo invisível chamado “sistema” (poder político, empresarial, financeiro etc.). Seus atos, ainda que escandalosos aos olhos da população, serão considerados meras irregularidades, sanáveis, quando muito. Se, por alguma razão, o político não conta com o amparo do “sistema” por ferir seus interesses ou por diferenças ideológicas, corre o risco de cair em desgraça, tendo roubado ou não. E será tachado de corrupto e algo mais. O problema é que o “sistema” faz rearranjos, sempre no seu interesse. E precisa, de vez em quando, arranjar algum bode. Parece que o senador Demóstenes está provando do seu próprio veneno.

  15. Adilson da Costa Azevedo disse:

    Caro Monnerat,

    O comentário de Paulo Roberto está acorde com o meu, porém, mais completo. Ele cuidou também da parcela ínfima que eventualmente chega ao Congresso, o que não fiz. O deputado Biscaia representa essa diminuta parcela. Esses “Biscaias” não transigem com a ilegalidade com a imoralidade, não fazem conchavos, não indicam diretores de estatais, não recebem qualquer recurso ilegal.No entanto, raramente conseguem a reeleição. Passam os quatro anos vendo os seus ante-projetos serem engavetados, proferem discursos que ninguém ouve, recebendo elogios falsos e cínicos tapinhas nas costas. Esses não integram o “sistema”. Enfim, não se trata de políticos honestos, são pessoas honestas que estão na política, o que é diferente. Para os outros fica a observação do Millôr: “Acabar com a corrupção é o objetivo supremo de quem ainda não chegou ao poder.” Um forte abraço.

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