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Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

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CORRUPÇÃO. LUTANDO CONTRA “MALFEITOS” DE PMs

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“Você quer ser herói ou vergonha de sua família?”  Conforme noticiou o jornal O GLOBO (07 / 01 / 12), esta é a frase  que encima o cartaz que a PMERJ, por sugestão da ASSINAP (Associação dos Ativos, Inativos e Pensionistas da PM e do CB) resolveu afixar em todos os quartéis da Corporação. O objetivo, segundo o comandante-geral, é “mexer com os brios” dos PMs. A iniciativa é válida, e deve ser apoiada, apesar da polêmica que vem despertando. De fato, não deixam de ter razão os que perguntam por que uma foto nítida (ainda que uma montagem) de um praça, e não uma silhueta que desse apenas a ideia de se tratar de um integrante qualquer da corporação, sem indicação de graduação ou posto? Por que a foto de um PM preso, algemado, fardado? Tendo em vista a ampla divulgação na mídia aberta, que mensagem é realmente passada, não para o público interno, mas para as famílias dos policiais-militares e para a população em geral? Este é um aspecto que merece reflexão, mas que não invalida o esforço de lutar contra os “malfeitos” (vou também usar esse eufemismo para atos de corrupção policial, como se faz no mundo político…).

A ideia busca recuperar e pôr em relevo o valor vergonha, e apela para o valor família. O problema é que na maioria dos escândalos dos últimos tempos no Brasil tem-se constatado que a vergonha não é uma marca forte da cultura brasileira, pelo menos entre os poderosos. Ora, se se rouba em família (ou se a família, unida, usufrui conscientemente do roubo); se entre nós os que insistem na virtude da honestidade são considerados “babacas” (perdoem-me a expressão, mas é assim que a eles muitos se referem), até que ponto é eficaz apelar para o sentimento da vergonha e para a família?

De qualquer forma, não se deve desistir. A ideia da PM deve ser aprofundada. Ideal mesmo seria que, num mutirão nacional contra a corrupção sistêmica, a ideia de afixar cartazes cobrando vergonha fosse aproveitada por outros setores públicos que também padecem desse mal.

Lançada a campanha. O que acham?

 

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9 comenários to “CORRUPÇÃO. LUTANDO CONTRA “MALFEITOS” DE PMs”

  1. Renato Esteves disse:

    Olá Professor.
    Pois é, a ideia é boa mas as divisas do cabo mostram o quanto de importância se dá ao que se sente enquanto se é praça. Ao que nos parece, a preocupação é moldar o nosso pensamento, de nos fazer pensar conforme a barriga deles, mas quanto ao que sentimos, isso não interessa.
    Quanto a Vergonha, eu a sinto quando tenho que ensinar ao meu filho mais novo que ele não deve dizer aos amiginhos que o pai é policial e mais ainda quando não tenho palavras para respoder o pq dele não poder dizer. Também vergonha é não poder pagar a mesma escola que meus amigos de outras fardas pagam pros seus filhos. Professor, vergonha é não dar “aquele” vestido prá minha esposa, como comentam as esposas de outros amigos. Vergonha é estar numa classe militar onde o salário é ridicularizado por todas as mídias em todo Brasil.
    Nosso governador adotou a política de graticações e gradativamente está formando novas polícias dentro daquela que deveria ser indivizível.
    Um bom exemplo é o BOPE. Dificilmente a mídia relaciona o nome BOPE ao nome PMERJ. O que se vê é: Homens do Batalhão de Operações Especiais e policiais do 20 BPM (…) Não é uma ação da PMERJ. É uma ação de Polícias. A quem interessa essa divisão? Uns ganhando gratificação de R$2.000,00, outros R$500,00 outros R$350,00 e o que é pior, se feriu ou ficou doente? Perdeu a gratificação. Sem contar nos casos de soldado ganhando mais que I SGT, I SGT ganhando mais que CAP…por conta dessas gratificações.

    Acho que a Tropa não precisa de cartaz para nos fazer pensar em Vergonha e família.
    Sabe professor, não sou defensor de Instituições, penso nas pessoas, sejam elas Policias ou não. Me revolto com PM fazendo lanchinho em padaria, almoçando “de graça” em restaurante e coisas do tipo. PM que anda com arma na mão, na rua, o chefão do pedaço, tenho nojo. Enfim, penso que deveríamos ter uma corregedoria mais pró-ativa, prá defender a sociedade de desvios de conduta e botar preso, na rua os marginais travestidos de polícia e não ficar na dependência de denúncia de Imprensa para agir. Agora todos, sejam reformados ou na ativa, área médica ou combatente, bope (com sua gratificação e trabalho efetivamente diferenciado), todos com salário de verdade, escala de serviço organizada, pagamento de horas-extras, vale-refeição, o suficiente para não se pensar em segurança privada.

    Quanto à Assinap, a minha resposta individual ao cartaz será o meu desligamento. Nunca precisei dos serviços dessa, nunca vi nenhuma ação que fizesse jus aos 15 anos de pagamento e, agora, ver a Assinap, apoiando uma coisa dessa, com a graduação do mais fraco, é o fim.

    Fico grato pelo espaço, deixo aqui registrado minha adimiração pelo seu trabalho e, não posso deixar de dizer o quanto foi bom tê-lo na Cia de músicos, cantando com a gente e isso já faz um bom tempo…

    Que a Paz e Graça dAquele que É e será para sempre esteja com todos nós!

  2. jorge disse:

    Caro Renato,
    O seu comentário é pertinente. Certamente contribuirá para a reflexão das pessoas com poder de decisão.

  3. Luiz Monnerat disse:

    Prezado Mestre e Doutor Jorge,

    Imagino que o comentário do Renato Esteves teve ter mexido com os brios de todos, inclusive com os dos que bolaram a tal campanha. Pobre, de fato. Tão pobrezinha quanto o nivel do conceito atribuído pela população à briosa corporação: lá no fundo do poço, e pior, opinião dentro e fora das suas fileiras. O máximo que poder-se-ia extrair dessa campanha seria como um exemplo de despudorado e ridículo reforço ao que os petralhas estão a denominar como malfeito. Um verdadeiro anacoluto para desorientar os já tão desorientados filhos desta terra que já foi chamada de Santa Cruz! Quase-quase um: come tudo pra ficar bonito! Ou: se fizer pirraça, o bicho-papão vem ‘ti’ pegar !

    Não faz muito tempo – e tempo da ‘ditadura’ – um PM que apresentasse um preso algemado era tido como agressão grave aos direitos humanos, agora, nem se pensa mais na ‘farda’ – fardado você não pode, ou não podia, andar nem de guarda-chuva! -, nos símbolos, graduações… muito menos nas tais prerrogativas, que viraram sinônimos de privilégios. Então, dizer o quê ? Já chegaram a enfiar um coronel PM em Bangu I !!! Imaginem o que não podem fazer com um Cabo PM, um Soldado PM ! Daí considerarem naturalmente uma obra prima esse vergonhoso cartaz… certamente não quiseram gastar dinheiro com um profissional de Comunicação… pois ‘nóis é qui intende disso, sem frescuras, papo direto, PM pra PM…’ A respeito da falta de respeito com a nossa legislação específica é bom nem tocar agora… haja espaço… Mas, um toque foi dado com muita precisão pelo Renato a respeito dos variados vencimentos percebidos dentro das fileiras com base em gratificações, cizânia pura semeada em meio ao trigal !

    Contudo, pessoalmente concordo com o comando que considera o problema uma questão de brio, ou melhor, de baixa-estima, que é o contrário, mas que não vem ao caso agora discutir. O negócio pode ser formulado considerando uma tropa vivendo no limiar da subsistência, com uma arma legalizada na mão, olhando para os lados e só enxergando porcaria vindo de todas as direções e alturas. É esta situação que lhes dá (aos Pms) consciência que formam um grupo social diferente… que é, sem nunca ter sido… que pode, sem nunca ter conseguido… que, afinal, tem a obrigação de levar tudo no peito, da maneira que vier, e que nada disso tem a menor importância para a vida de cada um deles, para as suas famílias, etc. Pois bem, daí é que surgem as quadrilhas, as milícias, etc. que olhadas por outro prisma dão recibo de incompetência para a corporação e o governo, pois conseguem aquilo que a ‘corporação’ não conseguiu até agora: se impor de fato numa área. O que existe por aí é perfumaria, com o nome de UPP! Isto, o desajuste comportamental hodierno da PMERJ, esbarra numa coisa que talvez alguns possam até torcer o nariz quando ouvirem isso: a proletarização constante e acelerada do efetivo da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro !O quê? Por quê? Já é outro assunto.
    Abraços,
    Monnerat.

  4. Adilson da Costa Azevedo disse:

    Caro Jorge,

    A idéia de combater a corrupção e valorizar os bons policiais é ótima. Apesar da proposta ser bem intencionada, não creio que a idéia dos cartazes nos quartéis da PM, produzirão algum sentimento além da indignação. O tempo dirá. No entanto, a sua idéia de extensão dos cartazes a outros setores é melhor ainda. Para isso seria feito o mesmo trabalho com os personagens pertinentes de terno e gravata e algemados. Dessa forma os cartazes seriam colocados simultaneamente no Congresso Nacional, nos Ministérios e nas paredes dos Tribunais. Posteriormente, nas Secretarias dos Estados, Assembléias Legislativas e nos Tribunais Locais. Em seguida nos Gabinetes dos Prefeitos, Câmaras de Vereadores e Secretarias Municipais. Não podemos esquecer os Tribubnais de Contas e as Agências Reguladoras etc. Enquanto isso não for feito esses cartazes deverão ser retirados imediatamente dos quartéis com um pedido de desculpas coletivo.

  5. jorge disse:

    Caro Adilson,
    Eu não quis ser tão explícito. Mas é isso mesmo.

  6. Emir Larangeira disse:

    Três comentários primorosos: do Renato Esteves, do Monerat e do Adilson. Lá no meu humilde blog, postei dois artigos tentando demonstrar que desvios de conduta representam um gigantesco desafio para qualquer organização daqui e mundo afora e objeto de dificílima pesquisa no mundo acadêmico. Não é tema a ser tratado como se o PM fosse aquele cão pavloviano que saliva ao toque da sineta: um corpo sem alma, sem sentimento, incapaz de sentir dor física e moral. Arrenego! Aliás, eu soube que o menino do cartaz veste uma camiseta de colônia de férias lá do BPM de Cabo Frio. Não dá para observar pela foto do jornal, mas é possível confirmar visualizando diretamente o cartaz. Só falta agora ser o menino um filho de PM travestido de “ator”…
    Por fim, indago aos comentaristas se posso reproduzir os comentários no meu blog, em artigo que trata do mesmo tema. Ou se eles próprios não poderiam postar por conta própria os comentários no meu blog, desde que concordem, claro, com o meu posicionamento.

  7. jorge disse:

    Caro Larangeira,
    Acho ótima a ideia. Com certeza, todos concordarão. Você tem razão: os desvios de conduta são um desafio, e não devem ser tratados como se o policial fosse um alienígena.

  8. Renato Esteves disse:

    Caro Larangeira,
    Certamente, fico feliz e honrado.

  9. Luiz Monnerat disse:

    Meu irmão Larangeira,
    a honra é toda nossa e nem precisaria indagar a respeito. Mas, vou ao seu blog para postar, pois não tem nada desse negócio de humildizinho. O que existe é preguiça da minha parte e vc sabe muito bem disso, além de um certo desânimo institucional quando o assunto é a briosa. Parece que atolamos num lodaçal brabo e quanto mais se mexe, mais se afunda… Imagino que só no futuro distante a algum historiador interessado caberá examinar e elaborar a anamnese real do que se passou conosco.

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