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Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

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SE EIKE BATISTA FOSSE MORAR EM MADUREIRA

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O jornal inglês The Guardian (26 dez 2010) publicou entrevista do empresário Eike Batista, em que ele declara: “Eu olho para o futuro do Rio, vejo uma mistura de Califórnia, Nova Iorque e Houston”. Revelou ter projeto de construir “uma super-moderna cidade digital”, distante 240 quilômetros da capital, e falou de investimentos na limpeza da Lagoa Rodrigo de Freitas; no estabelecimento de um cruzeiro de luxo para turistas; na remodelação da Marina da Glória e na restauração do Hotel do mesmo nome. Tudo isso numa cidade sem violência, motivo pelo qual teria doado mais de R$ 100 milhões para o programa das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs).

Embora se reconheça o seu desprendimento e, mais que isso, a sua sensibilidade comunitária – do que é exemplo, dentre outras ações, a grande ajuda às vítimas das enchentes da Região Serrana –, cumpre alertá-lo quanto a um vício recorrente entre as camadas mais altas da sociedade do Rio de Janeiro, do qual talvez fosse conveniente livrar-se: o de se referir à Zona Sul como se esta fosse toda a cidade. Em sua entrevista deixou transparecer isso. Deu realce a dois pólos: algum lugar a 240 quilômetros, e a Zona Sul.

Em outubro de 2009, logo após a escolha do Rio para sediar as Olimpíadas, publiquei “post” (Olimpíadas no Rio: Oportunidade de Integração Social I), no qual chamava a atenção para uma preocupação então manifestada por muitas pessoas: a concentração excessiva de investimentos na Zona Sul e Barra da Tijuca, em detrimento do restante da cidade e do estado. (Conferir em http://www.jorgedasilva.blog.br/?p=567). De lá para cá, as coisas mudaram um pouco. Mas podem mudar mais. Naquele “post”, em dado trecho escrevi:

“[…] o grande desafio é integrar os dois lados da ‘cidade partida’: ‘favela e asfalto’, ‘periferia’ e ‘para-cá-do-túnel’. Fernando Gabeira, candidato a prefeito do Município em 2008, prometeu na Zona Oeste: “O prefeito não vai morar apenas no Rio. Ele vai ter um gabinete de trabalho aqui”. […] Para não incorrerem no mesmo erro, não seria o caso de se sugerir ao governador Sérgio Cabral que se mude do Leblon para a Penha? E ao prefeito Eduardo Paes, da Barra da Tijuca (ou da residência oficial na Gávea Pequena) para Madureira? E a Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, do Leblon para Marechal Hermes? Pelo menos até 2015.”

Agora acrescento: que tal Eike Batista também se mudar por alguns meses da Zona Sul para Madureira? Conheceria toda a cidade. Aí, sim, não só a integração estaria garantida, como o Rio (cidade e estado) poderia vir a ser realmente uma mistura de Califórnia (aliás, um estado), Nova Iorque (estado e cidade) e Houston? E sem violência. 

 

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5 comenários to “SE EIKE BATISTA FOSSE MORAR EM MADUREIRA”

  1. Paulo Xavier disse:

    O Jornal The Guardian poderia ter entrevistado “seu Antonio das Couves” desempregado, pai de 5 filhos, residente num bairro periférico de Macaé, cujo “progresso” se deu após o advento da Petrobras no final dos anos 70 e com certeza a realidade e a visão seria outra totalmente diferente. Esse Eldorado, cidade a 240 km da capital seria Quissamã, onde os empresários do ramo de petróleo já vislumbram a nova Dubai. Resta saber onde vão enfiar os desempregados que sonham com dias melhores, que para lá migrarão, e se vão deixar áreas devolutas à mercê destes, para a criação de novas favelas. Como se percebe, uns olham de cima, e outros com olhar mais realista.
    Belo texto para reflexão Cel Jorge, principalmente por parte das nossas autoridades estaduais. Fica uma pergunta. Será que eles estão mesmo preocupados com i$$o?

  2. jorge disse:

    Caro Paulo Xavier,
    É isso mesmo. O Rio de Janeiro (Estado e Município) ficou reduzido à Zona Sul. Efeito perverso da fusão. Para quem viaja de helicóptero, Zona Norte do Rio, Baixada, Niterói e o interior do Estado seriam apenas uma paisagem distante.

  3. silvia leandro rangel disse:

    Bravo, bravo, bravo.

  4. Emir Larangeira disse:

    O Eike Batista está quase morador de Madureira por falência do seu império…

  5. jorge disse:

    Caro Larangeira,
    Cheguei a pensar na Greta Garbo de Irajá.

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