- Jorge Da Silva - http://www.jorgedasilva.blog.br -

“VARIAÇÕES DO COMPORTAMENTO POLICIAL”

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Acontecimentos recentes no Rio de Janeiro colocam em evidência o problema da grande variação no “comportamento” policial e seus possíveis efeitos colaterais. Bem verdade que, no mundo inteiro, a atuação da polícia varia em função do local, da situação concreta e de outros fatores, mas nem tanto.

Em livro mandado traduzir e publicar pela PM do RJ em 1994, de título Varieties of police behavior (em português, Variações do comportamento policial), o autor, James Q. Wilson, refere pesquisa que realizou a esse respeito em oito cidades dos EUA. Identificou três “estilos” principais: o “vigilante”, o “legalista” e o “de serviço”. O “vigilante” predominaria em comunidades pouco afetadas pela criminalidade; o “legalista”, em comunidades heterogêneas, onde se lidaria inclusive com situações corriqueiras de ordem pública de forma repressiva e com o uso da força; e o estilo “de serviço”, em comunidades mais homogêneas e de razoável padrão socioeconômico, onde predominaria, como o nome indica, a ideia de serviço à comunidade. Ocorre que Wilson cotejou diferentes polícias, e não a mesma polícia em atuação na mesma cidade. (Como se sabe, a segurança pública nos EUA é atribuição marcadamente local, da prefeitura, do condado). A classificação de Wilson, portanto, não se aplicaria inteiramente ao caso brasileiro, porém pode servir de modelo de análise. Tomemos os casos a seguir, acontecidos na semana que finda:

– Dia 19 de junho (jornal O DIA):

“Bope ocupa o Morro da Mangueira sem disparar um tiro”

– Dia 23 (TERRA.COM), com referência ao Morro do Engenho da Rainha:

“Bope mata 8 suspeitos em busca a fugitivos da Mangueira”

– Dia 24 (Folha.com), sobre fato ocorrido no dia 20 na “comunidade” Danon, Nova Iguaçu:

“Menino de 11 anos some no Rio após tiroteio entre PMs e bandidos”

– Dia 25, ontem (EXTRA Online):

“Policial da UPP da Coroa perde as pernas em ataque de bandidos”

Temos aí quatro episódios. O segundo, conforme se depreende da matéria, seria desdobramento do primeiro, o que, parece, justificaria as mortes. Li nos jornais comentários elogiosos de muitos leitores, alguns lamentando terem sido só 8 os mortos. Já com relação aos dois últimos episódios, o sentimento maior é o de dor e de indignação. No da “comunidade” Danon, um homem acusado de tráfico foi morto, um adolescente de 14 anos e um menino de 11 foram atingidos por tiros – o menino sumiu misteriosamente –,  e um outro jovem de 19 anos (acusado de tráfico pela polícia , e qualificado como trabalhador pelo pai), foi atingido por três disparos. E no episódio da Coroa, três PMs foram atacados com uma granada, tendo um deles perdido uma perna.

Voltando a Wilson, pergunte-se: em que modelo a polícia do Rio de Janeiro se enquadraria, se é que em algum? O que diferenciaria o Morro da Mangueira do Morro do Engenho da Rainha e da “comunidade” Danon ? E que explicações podem ser dadas, se é que alguma, para o ataque de bandidos com granadas a policiais? Sublinhe-se que Wilson não falou das concepções de emprego, não se sabendo se os “estilos” a que se refere refletem a orientação do poder político ou se correspondem a mera escolha dos policiais.

Saldo final: um menino de 11 anos baleado e sumido, para desespero de sua família; e um PM sem uma perna, para seu desespero e o de sua família. O PM foi vitimado por bandidos. Os pais do menino acusam PMs. Assim, temos os culpados: bandidos e PMs. E só…

Em tempo: Esses acontecimentos acirram o ódio, o que pode aumentar ainda mais a escalada de mortes (de bandidos, de supostos bandidos, de policiais, e de pessoas que nada têm a ver com a “guerra”). Max Weber continua atual: o Estado há de ser racional-legal; não pode agir com os sentimentos humanos do ódio e da vingança. No exercício da função, os policiais são representantes do Estado; logo…