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Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

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A POBREZA DOS BOMBEIROS E A RIQUEZA DO MINISTRO

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Dia 9 de junho, quinta-feira. O jornal O Globo traz na primeira página duas fotos em tamanho grande: uma relativa à união de PMs aos bombeiros “para pressionar por reajuste” (dois militares exibem uma faixa com os brasões do CBMERJ e da PMERJ, com os dizeres “Juntos Somos Fortes); e outra, sob o título “Despedida de companheiro”, referente à cerimônia de transmissão de cargo do ministro-chefe da Casa Civil, Antônio Palocci, à nova ministra.

Relembremos os dois casos.

Maio passado. Cresce o movimento dos bombeiros, iniciado em abril. Lutam por um piso de 2 mil reais. Alegam que o Rio de Janeiro é o estado que paga o pior salário do Brasil. No dia 13 de maio, é decretada a prisão preventiva de 5 deles, considerados líderes. Em vez de o movimento esvaziar-se, recrudesce, e as tensões aumentam, culminando, no dia 3 de junho, com a invasão do Quartel-Central da Corporação pelos manifestantes. No dia seguinte, a PM invade o quartel e, depois de algumas escaramuças, prende 439 bombeiros.

Maio ainda. Nos dias 15 e 20, a Folha de São Paulo noticia que a firma de consultoria do ministro Palocci teria faturado R$ 20 milhões em 2010, ano eleitoral, e que, só nos meses de novembro e dezembro, R$ 10 milhões. E que, em quatro anos, de 2006 a 2010, ele teria multiplicado por 20 o seu patrimônio, que era de R$ 375 mil em dezembro de 2006. Levantam-se suspeitas de tráfico de influência, já que o ministro fora coordenador da campanha presidencial da candidata Dilma Rousseff. Ele não nega os valores, mas alega que os auferiu legalmente. Recusa-se a revelar os nomes das empresas com as quais manteve contratos, assim como o tipo de serviço que prestou e os respectivos valores. Segundo ele, nos contratos haveria “cláusulas de confidencialidade”.

Dia 7 de junho. O procurador-geral da República, a quem, segundo consta, também não foram revelados os dados contidos em tais cláusulas, considera satisfatórias as explicações do ministro sobre o seu rápido enriquecimento (teria comprado um apartamento por R$ 6,6 milhões e um escritório por R$ 882 mil). No dia seguinte, 8, mesmo inocentado, o ministro deixa o cargo. Talvez volte às atividades de consultoria, no que demonstrou competência técnica ímpar.

Bem, não fiz a conta, mas acho que os R$ 20 milhões que teriam sido auferidos pelo dr. Palocci talvez dessem para pagar um mês de salário a todos, ou a quase todos, os 17 mil bombeiros do Rio. Será que os bombeiros não fizeram essa conta? Afinal, os dois casos estiveram no centro do noticiário no mesmo período.

Não sei se o ministro Palocci alguma vez se manifestou sobre os salários dos bombeiros e dos policiais-militares. Não sei se é contra ou a favor da PEC 300, que visa a estabelecer um piso para os BMs e PMs do País. Só sei que há políticos que não se pejam de aumentar o próprio salário em percentuais altíssimos de uma só tacada, enquanto argumentam que não há recursos para reajustar os salários desses servidores (e de outros…). Até onde pensam que a corda pode esticar?

Em tempo:

РNa cerim̫nia de transmisṣo de cargo, o ex-minstro Palocci foi aplaudido de p̩.

– Os 439 bombeiros continuam presos.

– Alguém perguntará: “O que uma coisa tem a ver com a outra?”

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2 comenários to “A POBREZA DOS BOMBEIROS E A RIQUEZA DO MINISTRO”

  1. Paulo Xavier (ex-PM) disse:

    Infelizmente o nosso país adquiriu a triste cultura de se punir com o rigor da lei os da base piramidal, enquanto os lá de cima sempre dão um jeitinho de se safarem, como aconteceu recentemente com o ex ministro Palocci. O cidadão carioca e fluminense, em sua grande maioria, torce para que dessa vez os “insubordinados” saiam desse embate vitoriosos. O carinho e a admiração que os Bombeiros Militares do Estado do Rio de Janeiro adquiriram perante a população, vão fazer a diferença agora. Quem viver verá!

  2. jorge disse:

    Caro Paulo,
    A diferenca já está sendo feita. Os Bombeiros continuam heróis.

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