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Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

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O “PROFESSOR DE TODAS AS MATÉRIAS”. MÍDIA E ESPECIALISTAS GERAIS

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Algo curioso tem sido obeservado na mídia brasileira. Vejamos os episódios do tsunami e da radiação. Paralelamente à perplexidade geral, os trágicos acontecimentos do Japão despertaram a curiosidade até dos mais desligados. Afinal, como se forma um grande tsunami? O que é um “vazamento de radiação” e que efeitos provoca? Interessei-me também, buscando informação no Google e nas avaliações especializadas. Ocorre que muitas das análises veiculadas pelos meios de comunicação não têm partido de especialistas em física nuclear, geociências ou áreas afins, e sim de pessoas instruídas, mas de outras áreas, como economistas, cientistas sociais, jornalistas etc. Isso é compreensível, pois o episódio virou assunto de todas as conversas, leigas ou informadas; e todos têm o direito de se manifestar. Nenhum problema até aí. Em dado momento, no entanto, eis que um físico nuclear, convidado por uma emissora para comentar o problema da radiação, teve que aguardar a longuíssima introdução da entrevistadora para iniciar os seus comentários. Sem conseguir esconder o incômodo com as afirmações avançadas por ela, começou falando da circulação de idéias apressadas sobre o assunto e o alarmismo daí decorrente.

As observações do referido cientista, em clara crítica, não à entrevistadora, mas à indistinção que se estabeleceu na sociedade brasileira entre opinião descompromissada e posição técnico-científica, procedem. Do meu ponto de vista, surpreendeu-me a reclamação, pois até então achava que só determinadas áreas eram vítimas desse processo. Eu as dividia entre áreas imunes a incursões leigas (matemática, física, química, estatística, astronomia, biologia etc.) e áreas vítimas permanentes dessas incursões (sociologia, psicologia, antropologia, educação etc.), máxime quando determinados temas estão em pauta, como violência, segurança, etnicidade, direitos humanos etc. Aí, há quem confunda o que se fala no bar, no barbeiro ou no cabeleireiro com o que se discute na academia. Nada diferente do que acontece com as análises sobre os conflitos nos países árabes, não raro comentados pelos mesmos que comentaram o tsunami e o vazamento radioativo.

Bem, a profusão de pessoas com especialização múltipla (sic) trouxe-me à lembrança um interessante personagem. Por volta da década de 1970, numa cidade da Baixada Fluminense, RJ, havia um curso livre, preparatório de candidatos ao exame do Art. 99 (da antiga Lei de Diretrizes da Educação), destinado a maiores de 16 anos que desejassem obter o diploma do antigo ginasial. Começou numa salinha acanhada até ocupar um conjunto de três amplas salas. Na propaganda do curso, aparecia na fachada o nome do dono e único professor, e os dizeres: “Professor de todas as matérias”, vale dizer, um “especialista geral”. Qualquer semelhança não é mera coincidência…

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