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Jorge Da Silva é cientista político. Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade. Professor conteudista do Curso EAD de Tecnólogo em Segurança Pública (UFF - CEDERJ / CECIERJ). Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ. É vice-presidente da LEAP Brasil ('Law Enforcement Against Prohibition Brazil' (Agentes da Lei Contra a Proibição)).

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MATAR MAIS OU MATAR MENOS? EIS A QUESTÃO

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Manchete do jornal O Globo da última terça-feira, 28 / 12 / 2010:

“Estado do Rio gratificará policial que matar menos”

A matéria refere-se à decisão do governo do Estado de gratificar policiais pela redução de mortes alegadamente em confronto, vale dizer, pela redução de “autos de resistência”, cujo número, no Rio de Janeiro, exibe proporções alarmantes. Aliás, este fato vem sendo denunciado há anos pela “turma dos direitos humanos”, como a ela se referem os que acreditam na matança como solução para a violência.

A manchete vai além da notícia. A expressão “gratificará policial que matar menos” sugere que, na visão de quem concebeu a manchete, o poder público tem valorizado até aqui o policial-Rambo. Exageros à parte, impõe-se reconhecer que não foi outro o efeito das chamadas gratificações e promoções “faroeste” e das bravatas oportunistas de políticos e autoridades ao longo do tempo (“Atira primeiro e pergunta depois”, “Bandido bom é bandido morto” etc.). Na verdade, os adeptos dessas idéias acreditam que matar bandidos é a melhor forma de promover a paz. Ora, se assim fosse, depois das dezenas de milhares de mortes (de bandidos, reais ou supostos, de policiais e pessoas indefesas), o Rio de Janeiro já seria um Éden há pelo menos duas décadas.

Não vai ser fácil a tarefa do governo. No dia em que a TV mostrou os traficantes do Alemão fugindo das forças de segurança, ouvi , de várias pessoas com as quais assistia àquelas cenas (pessoas instruídas e civilizadas), críticas à policia por não ter usado os helicópteros para matá-los. “Por que não aproveitaram a oportunidade, coronel?”, perguntava-me insistentemente uma delas, inconformada.

O governo e a sociedade do Rio de Janeiro buscam novas formas de resolver problemas crônicos. A polícia, com a aplicação do conceito de polícia comunitária, passa a estar nas “comunidades” para proteger os moradores e não para persegui-los, como antes, do que são exemplos as UPPs. Anuncia-se agora uma invasão social.

Tudo indica que a questão primordial está resolvida, pelo menos em teoria: o “matar mais” perde para o “matar menos”. Melhor seria que perdesse para o “não matar”. Mais: que o “matar menos” não dependesse de uma promessa de recompensa material e que, sim, resultasse da conscientização humano-civilizatória tanto dos policiais quanto das autoridades e setores com voz na sociedade. Depois, ficará faltando lutar para que os operadores da segurança não se valham do efeito camaleão, como adverti em livro há 20 anos: “… o policial-camaleão, que se amolda ao ambiente por questões de conveniência; aqui ele é azul, ali ele é amarelo, acolá ele é cinza. No íntimo, a compreensão clara do acordo tácito feito com a sociedade, isto é, ele só não pode ser amarelo onde deveria ser azul.”

Os policiais, de todos os níveis, são craques nesse jogo.

Bem, o que importa é que um novo ano se inicia com a promessa de valorização da vida. O Rio pode ser uma cidade boa para todos.  Que assim seja.

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7 comenários to “MATAR MAIS OU MATAR MENOS? EIS A QUESTÃO”

  1. luiz gomes de oliveira disse:

    Senhor coronel Jorge da Silva,

    Cabo do Bope é fuzilado em bar aos 10 minutos do dia 01.01.2011

    Caveira comemorava o fim de ano com o primo quando bandidos passaram de carro atirando.
    O cabo do Batalhão de Operações Especiais (Bope) Alessandro Costa Lopes do Nascimento, de 32 anos e seu primo, Leonardo Lopes, de 37, foram executados com 20 tiros de fuzil por homens que passaram atirando de dentro de um veículo, na noite de sexta-feira, em Campo Grande, Zona Oeste do Rio. Sob a imposição da “lei do silêncio”, testemunhas e familiares se calam diante do duplo homicídio.
    Segundo a Divisão de Homicídios (DH) investiga duplo homicídio, mas informou que ainda é “prematuro” informar uma hipótese provável para o crime.
    Teria sido execução?
    Ninguém viu nada!
    Eis ai a cara do Estado do Rio de Janeiro

  2. Ediene disse:

    Como matar menos, se a cada dia nasce um bandido? E a reproduçao se compara aos camundongos, mais de 3 numa barriga só…rsr
    Gratificaçao essa que ninguém receberá, pois seria impossível matar pouco, pois os ataques são frequentes, ou é matar ou morrer.

  3. jorge disse:

    Cara Ediene,
    No “post” em questão, escrevi:

    “Os adeptos dessas idéias [Atira primeiro e pergunta depois; Bandido bom é bandido morto] acreditam que matar bandidos é a melhor forma de promover a paz. Ora, se assim fosse, depois das dezenas de milhares de mortes (de bandidos, reais ou supostos, de policiais e pessoas indefesas), o Rio de Janeiro já seria um Éden há pelo menos duas décadas.

    Não acredito que a amiga acha que se mata pouco. Certamente não foi isso que quis dizer.

  4. Ediene disse:

    Nao penso que se mata pouco, mas reduzir para ganhar a sonhada gratificaçao seria dificil,devido as constantes açoes dos bandidos

  5. Adilson da Costa Azevedo disse:

    Jorge,

    De uma forma ou de outra revela uma mudança repentina da política do confronto. Seria por exigência dos Chefes das Forças Armadas para participar das operações nas favelas do Rio, que não querem os seus membros envolvidos em matanças de brasileiros? Seria em virtude da realização da Copa e Olimpíadas? Seria por pressão nacional e internacional das Organizações que defendem os Direitos Humanos? Seria por orientação do novo Governo Federal? Ou outra que desconheço? Qual a sua visão?

  6. jorge disse:

    Caro Adilson,

    O confronto como política teve três momentos bem marcados no Rio: o do “acabar com a violência em seis meses” (lembra-se?), o das gratificações e promoções “faroeste” (lembra-se?), e o adotado nos anos de 2007 e 2008 pelo atual governo. Nos três momentos, o que se conseguiu foi provocar mais mortes e autos de resistência (há quem ache que se deva matar mais…) e aumentar a insegurança e o medo da população. A mudança à qual você se refere, portanto, vem se operando há dois anos, com a adoção do conceito de polícia comunitária (as UPPs, no fundo, são um exemplo da aplicação do conceito). Não quero entrar no mérito do porquê da mudança. Na minha visão, o importante é que mudou.

  7. Louise Ruque Lamara disse:

    A operação de 28 de novembro de 2010, aclamada como “vitoriosa” pela sociedade, governos, judiciário e pela mídia selvagem – e até por muita gente das comunidades envolvidas, parte dos moradores denunciaram abusos, agressividade e humilhações por integrantes da polícia. O número oficial de 37 pessoas foram mortas durante os confrontos também não bate com denúncias de moradores, que não quiseram se identificar, segundo as quais ainda havia corpos no alto do morro da Vila Cruzeiro em dezembro. Segundo pesquisas da PUC-RJ e da USP-de 2003 a 2009 foram mortas 7.954 pessoas por ação policial no Rio de Janeiro. Mais de 65% dessas mortes se caracterizam como execuções sumárias extrajudiciais, a maioria negra, jovem e favelada.
    Virou um regime de exceção permitiu violarem qualquer coisa. Como esse espaço de exceção está localizado “nos guetos” os moradores desses locais não tiveram direito, nem tão pouco mandado de busca e apreensão.
    “Policiais subiram, deram tiros arrombaram casas sem pedirem permissão, decretaram horários para entrar e sair”, afirma.
    Ficou somente faltando o carimbo diabólico no braço direito, faltou Hermann Göring como Comandante em Chefe da mega operação na versão CARIOCA – TUPINIQUINS.
    Aqui pode dar alguma coisa certa?
    Somemos, pois;
    Patrimonialismo + empreguismo + nepotismo + malversação do erário público + peculato = Slutty/ slutty/ slutty!

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