- Jorge Da Silva - http://www.jorgedasilva.blog.br -

COTA PARA MULHERES NO MINISTÉRIO DILMA. HOMENS CONTRA… E…

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Em pauta a briga por ministérios. Depois que Dilma Roussef anunciou a intenção de destinar uma cota (1/3) para as mulheres no seu ministério, abriu-se a polêmica. O assunto foi tema do quadro Liberdade de Expressão, da rádio CBN, apresentado por Heródoto Barbeiro e que tem como comentaristas Carlos Heitor Cony, Arthur Xexéo e Viviane Mosé. Corria o boato que Dilma não estaria encontrando mulheres qualificadas. A pergunta de Heródoto aos três era se Dilma teria dificuldade em conseguir mulheres para o ministério. Viviane, depois de traçar a trajetória de exclusão da mulher até a Constituição de 1988, mostrou-se favorável à ideia: “Uma idéia fundamental”. Cony é embaraçado pela forma como Heródoto lhe dirige a pergunta: se ele achava que Dilma teria dificuldade de nomear uma mulher, por exemplo, para o ministério da Saúde, com tantas mulheres na área médica, ou para o ministério da Educação, com tantas professoras. Cony é politicamente correto, e diz-se a favor de uma maior presença de mulheres na vida pública, porém manifesta-se contrário ao estabelecimento de cotas. É enfático: “como se fosse a cota dos negros para a faculdade, ou seja: tem que botar porque a lei manda. É atalhado por Heródoto: “Mas não tem lei”. Cony, no entanto, prossegue: mas tem aquela tendência do executivo principal, que no caso seria a Dilma, que é uma mulher, e que já botou mulheres no tempo da Casa Civil, botou inclusive uma mulher chamada Eunice [sic], que a gente sabe o que é que deu. E conclui: “o referencial principal, e único, é a competência. Heródoto passa a palavra a Xexéo, que começa afirmando: “É, eu estou mais com o Cony do que com a Vivi. E aduz, dirigindo-se a Cony, meio que fazendo graça, rindo: porque sabe que a gente é homem, Cony, a gente vai casar posição. E então, a sério, depois de tachar a ideia de “cafona” (ainda se usa essa palavra?), reforça a opinião de Cony: “o que deve valer é o talento e a competência”.

Temos então:

1. Três comentaristas: uma mulher, a favor da ideia de Dilma; e dois homens, contra.

2. A presunção machista (não me refiro a Cony e Xexéo) de que é difícil encontrar mulheres qualificadas no Brasil para os altos cargos da República;

3. Os homens escolhidos para o ministério, nos diferentes governos, o seriam pela competência e o talento, e não pelo fato de serem homens;

4. A tradicional cota de homens nos ministérios, perto dos 100%, seria algo dado pela natureza;

5. O argumento de Cony contra a ideia de Dilma é idêntico àquele contra as cotas para negros;

6. Cony deu o exemplo de Erenice para reforçar o seu argumento. Esqueceu-se das dezenas de ministros e outros homens públicos corruptos, envolvidos em mensalões, falcatruas e nepotismo;

7. Cony e Xexéo parecem ter sofrido um “apagão”. Esqueceram-se de que: um, o ministério de Dilma (não é primazia do dela) forma-se na base de cotas (destes e daqueles partidos, da cota do Vice, de Sarney, cota de fulano etc.); e dois, que a competência, salvo as exceções de praxe, parece ser o último requisito a ser considerado, quando é ;

8. Estranho que, numa sociedade marcada pelas “relações”, pelo compadrio e o paternalismo, se aponte a competência como sendo a regra, e não a exceção;

9. Na questão em foco – de gênero –, como em outras da mesma natureza (etnorraciais, de origem, de classe etc.), o que fala mais alto são as “razões” identitárias, e não a razão neutra (se é que neutralidade existe).

Perguntemo-nos:

– Por que será que os dois comentaristas homens são contra a ideia de Dilma, e a comentarista mulher, a favor?

– O que Viviane diria se Dilma tivesse sugerido uma cota para negros no ministério?…